Meus olhos pesam mais que o normal. Não consigo erguer a cabeça para olhar a tela durante muito tempo, permanecendo com a vista no teclado negro e suas teclas com letras brancas. Os Hermanos tocam ao vivo em Salvador nas mp3s rodadas no Media Player, transmitidas para o fone que já está me irritam as orelhas.

Eu não devia estar fazendo isso. Passei das 10 páginas de um novo roteiro hoje. Faltam mais 40 e tantas. Deve vir fácil, se a história continuar a surgir na minha cabeça como uma surpresa que eu já sabia, mas que havia escondido no fundo do meu subconsciente para achá-la só agora. Não dá pra explicar certas coisas de forma muito lógica, sabia?

Droga, passei o dia fugindo da realidade. Primeiro, escrevendo. Depois, lendo alguns gibis. Alguns até já tinha lido – versões eletrônicas. Outros, peguei pela primeira vez. E, graças aos Deuses, foi em papel. Meia Vida, segundo arco da hoje inexistente Gotham Central, foi a última do dia. Greg Rucka sabe escrever um belo drama policial pé-no-chão. Pena que o Batman tem que salvar tudo, sempre, no final das contas. Bem que eles, os tiras, podiam se virar uma vez sem o Morcego…

E sim, sim. Eu vi V de Vingança ontem. É um tanto chato, superficial. Mas dá pra gostar, se você fizer força. Mas, verdade, só uma cena me prendeu na cadeira, me fez prestar atenção em cada palavra que era dita e, no final, eu queria refletir sobre aquilo. E foi justamente uma seqüência que, segundo me confirmaram os dois amigos que estavam na sessão comigo, era a mais próxima dos quadrinhos: a da tortura. Não sou viúva punheteira do Alan Moore, viu? Li apenas o Vol. I do V – publicado pela Via Lettera, e autografado, aham, pelo David Llyod – e tinha como achar que o filme, como filme, não soube aproveitar o que o material original ofereceu. Ficou caricato, panfletário de modo babaca – será que a audiência é tão idiota a ponto de não poder ligar a crítica feita a atual política externa norte-americana? Precisava, como em diversos momentos, apelar pro óbvio e colocar os soldados britânicos com uniformes que mais pareciam das tropas americanas quando elas foram pro Iraque?

Peguei o Vol. II – também autografado, aham 2, que consegui prum amigo – e vou ler no feriadão depois que reler o I. É uma boa época pra ler coisas como V de Vingança. É uma boa época pra ler coisas como Invisíveis, também, e rever o primeiro Matrix – aí os irmãos Castores podem dizer que acertaram a mão.

E eu me lembro agora do céu azul de Maceió quando botei os pés na rua um dia desses, pra sair por aí. Estava tão bonito que passei um bom tempo olhando. Horas depois, eu conversava com um amigo de infância e ele dizia como queria sair daqui, e falava das razões para tal. Do outro lado, eu também dizia o mesmo, mas defendia a terrinha. Apesar dos pesares, gosto deste chão. Mas quando voltava pra casa, olhei pro céu e, lá longe, tinha umas nuvens cinzentas soltando uns raios em intervalos de tempo irregulares. Era fim de tarde e tudo acontecia no oeste, escondendo mais ainda qualquer vestígio do sol se pondo.

Contrastes não coincidentes. Tudo ligado.

Ou vai ver o sono está afetando todas as lembranças e me fazendo escrever bobagens.

Vai ver…