Terça-feira, 18 de abril. Quem não tinha nada produtivo para se fazer a noite - a não ser descansar de um dia de trabalho -, podia pegar dois contos lá do fundo da carteira e seguir para o Teatro Deodoro. Pois ia começar a nova temporada do projeto Teatro é o Maior Barato, que apresenta peças, músicos e outros artistas da terrinha ao público alagoano, com o intuito de formação de platéias. Tudo com o preço convidativo citado linhas acima.

E o começo não poderia ser mais legal: ia acontecer um crossover de projetos, pois quem se apresentaria no Deodoro eram os integrantes do Palco Aberto – evento que teve duas edições nos últimos dois anos, mostrando o “melhor” da música da terra aureliana. Comparação nada mais justa pela variedade de significados e propostas que aqui se encontram. Tanto dos que participam ou não de projetos como o Palco Aberto.

Apesar de não ter uma platéia necessariamente volumosa, os que compareceram ao Teatro tinham um orgulho alagoano nas veias interessante de se ver quando rola apresentação de artistas da terra. Os momentos mais relevantes neste aspecto a serem ressaltados, foram o brado de um camarada no fundão, “Viva o Sururu!” (considerado o símbolo do Estado), dado antes de Edson Bezerra começar a tocar; e a apresentação de Altair Pereira, totalmente teatral, onde ele, segurando uma corrente repleta de sururus, cantava o refrão de sua música Mundaú Grande Bebedouro, uma frase conhecida de quem é nativo: “Olha o sururu fresco!”.

SantaDica fez uma participação bacana com a música Ciranda, já conhecida pelo público da banda, composto pelo pessoal da cena alternativa da cidade. Allan Bastos e João Albrecht também não fizeram feio, e o sempre legal Wilson Miranda mandou a sua, além de participar da banda que acompanhou boa parte dos artistas que se apresentaram. Pena que um parceiro seu, Basílio Sé, não tocou. E o Grupo Caçuá, anunciando entre os convidados da noite, que não deu as caras. A banda Dona Maria, apesar dos problemas com o som, encerrou a noite com Na Roda“Você que é forte / e só pensa em pegar peso / quero ver entrar na roda / e mostrar que é forte mesmo”.

Na saída, um bumba-meu-boi dava à audiência uma despedida tribo-regional, com todas aquelas batucadas ritmadas e o vaqueiro bem trajado domando um lustroso boi dourado. É nóis.

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Roteiro meu do ano passado que (ainda) não viu a luz no traço de um desenhista corajoso. São 8 páginas de HQ das quais tenho orgulho e carinho.

CÉUS DE FÊNIX / 8 págs
Por Pablo Casado.
Todos os Direitos Reservados. ®

PLOT

Décadas atrás, nuns livrinhos de bolso chamados Pulp Fiction, os aviadores eram heróis charmosos ao público dentro e fora de suas histórias. Hoje, eles são relegados a viver na memória dos nostalgistas, sem espaço na ficção pós-moderna. Neste conto narrativamente super-comprimido, vemos desenvolver-se um romance saudosista sobre um ex-piloto, amargo com o fim que sua carreira teve, e de sua sobrinha, uma ponta de esperança para o futuro dos céus.

PERSONAGENS

O aventureiro parece o Obi-Wan interpretado por Ewan McGregor nos episódios II e III; o mesmo estilo de barba e cabelo. Em seu joelho esquerdo tem uma prótese artificial, correspondente a um antigo ferimento de combate. Na HQ, ele traja uma bermuda esporte que vai até pouco acima do joelho, uma camisa escura de manga comprida, tênis e um par de óculos grandes (daqueles que os motoqueiros costumam usar. Imagem de referência anexada.). É um coroa de seus 50 e tantos anos, mas que conservou uma certa jovialidade.

A garota é uma adolescente normal de 14 anos… de um mundo de ficção científica, graças as suas roupas estilizadas. Seus grandes cabelos negros são usados em dois cachos laterais (não faço a mínima idéia como se chama esse estilo de penteado). Ela tem um jeito sapeca, cativante. Daquelas meninas que, quando você bate o olho, se apaixona na hora.

No quesito das roupas, caso queria acrescentar algo ou simplesmente modificar totalmente o vestuário por achar que pode fazer algo mais ligado ao contexto da história, manda ver.

No roteiro, diálogos e recordatórios os identificarão apenas como “Tio” e “Sobrinha”.

O(S) CENÁRIO(S)

Usaremos referências que remeterão a época das Primeira e Segunda Guerras, no que diz respeito a algumas roupas e (alguns) aviões. E no restante teremos contextos mais atuais. Mas, mesmo com essas referências, não pretendemos aqui fazer um retrato fiel de nada. Na verdade, é praticamente obrigatória a mudança no design daquilo que remeter ao passado, para destoar de qualquer tentativa de biografia histórica. É o nosso mundo, mas não como o conhecemos realmente, mas uma versão fantasiosa dele.

Quando as cenas não estiverem transmitindo flashbacks do passado do tio, a trama, no presente, se passa na área onde ele mora. Sua residência fica no topo de uma montanha de topo plano, onde ele a construiu. A descrição da mesma se dará no roteiro. A intenção do ex-piloto foi ficar mais próximo do céu, digamos.

Estamos aqui para nos divertir, perverter. Vamos fazer isso.

NOTA

Meus roteiros costumam variar entre uma frieza técnica e uma empolgação de prosador. Quando descrevo detalhadamente uma cena, tenho lá meus motivos narrativos para isso. Mas, na maioria das vezes, é dado ao desenhista margem para interpretar a cena de maneira livre, de modo que ele não se perca da história.

Caso tenha alguma sugestão, meus ouvidos estão abertos e meus dedos, preparados.

PÁG 01

Três quadros. Os dois primeiros em formato widescreen, tendo a seguir um espaço em branco para o título e créditos da HQ, concluindo então com o terceiro quadro, o maior da página.

QUADRO 01. No lado esquerdo do quadro, focalizamos o rosto da sobrinha a partir de suas sobrancelhas até pouco abaixo de seus lábios. O ângulo da câmera também se insinua um tantinho para cima e vem brevemente da direita. A expressão da garota é de dúvida, o que a motiva a perguntar algo. À frente de seu rosto, em primeiro plano, ela segura um avião de brinquedo, um modelo da Primeira Guerra (referência em anexo), com o qual parecia estar se divertindo antes de levantar sua dúvida.

Sobrinha:
TIO… POSSO TE PERGUNTAR UMA COISA?

QUADRO 02. A intenção aqui é repetir o mesmo lance de câmera do anterior, só que invertendo os personagens. Vamos ao repeteco parcial: No lado direito do quadro, focalizamos o rosto do tio a partir de suas sobrancelhas até pouco abaixo de seus lábios. O ângulo da câmera também se insinua um tantinho para baixo e vem brevemente da esquerda. Sobre os olhos, seu par de óculos grandes, que refletem o céu vespertino. Sua feição é de tranqüilidade e despreocupação com a possível dúvida da sobrinha.

Tio:
CLARO.

Créditos:
CÉUS DE FÊNIX
PABLO CASADO roteiro | ? arte

QUADRO 03. Tio e sobrinha, de costas para os leitores, próximos do precipício da montanha onde se localiza a casa dele (fora da cena), diante de um espetáculo da natureza que é o céu ali ao entardecer. O tio está à esquerda do quadro, sentado no que parece ser uma cadeira de praia, tendo num dos lados dela, apoiado, um “cajado” (uma muleta para ajudar no problema de seu joelho). À direita, sentada ao chão e com as pernas cruzadas numa posição de lótus, a sobrinha lança a cabeça na direção do ex-piloto, lhe perguntando algo. Percebemos que seus braços estão relaxados sobre seu colo, e que ela não brinca agora com o avião que está numa das mãos. Ambos não precisam aparecer em grande destaque na cena. Na verdade, a idéia é até mostrá-los um pouco diminutos em relação ao imenso céu sobre suas cabeças.

Sobrinha:
POR QUE VOCÊ PAROU DE VOAR?

PÁG 02

QUADRO 01. Foco frontal da fachada da residência do ex-piloto. A aparência é de uma casa de praia com alguns toques modernos.

Balão (Tio):
HM. EU…

QUADROS 02 e 03. Aqui, o foco da cena anterior recua e abre, o que nos permite visualizar frontalmente sobrinha e tio, respectivamente, à esquerda e direita. Ao fundo, temos a casa numa distância considerável. A sobrinha continua em sua relaxada posição de lótus, o avião de brinquedo numa mão e a outra apoiando o queixo, a cabeça pendendo para frente. Seus olhos se contraem no questionamento de suas palavras. O tio, por sua vez, leva a mão direita na direção do rosto, pretendendo tirar os óculos. Divida está cena ao meio, criando dois quadros.

Sobrinha:
É QUE… NAS FOTOS ANTIGAS DO SR. COMO PILOTO, VOCÊ PARECIA TÃO CONTENTE…

Sobrinha:
CONFIANTE.

Tio:
ERAM OUTROS TEMPOS.

Sobrinha:
TIPO, PILOTO DE COMBATE SEMPRE ME PARECEU SER A COISA MAIS EXCITANTE DO MUNDO QUANDO EU ERA MAIS NOVA (E AINDA SOU), E VIA O SR. NAQUELES RECORTES DE JORNAL E TAL.

Sobrinha:
NÃO ERA UMA BOA VIDA? DIGO: INTERESSANTE?

QUADRO 04. O tio tirando o par de óculos e seus olhos voltando-se para a sobrinha (fora da cena) com certa dose de ironia.

Tio:
QUANDO A GENTE É JOVEM, O QUE NÃO É INTERESSANTE, GAROTA?

PÁG 03

Flashback Time!

QUADRO 01. Em primeiro plano, o tio aos 10 anos de idade, sentado no cockpit do avião de seu pai, segurando o manche em total empolgação. Do lado de fora e em segundo plano, defronte para os leitores, o pai do ex-aviador em trajes de pilotagem, apontando para os instrumentos, como se explicasse algo. São tempos pré-Primeira Guerra. O modelo de avião é daqueles com a cabine aberta. Referências em anexo.

Recordatório Tio:
MINHA INSPIRAÇÃO E AMOR PELOS CÉUS VIERAM DE FAMÍLIA:

Recordatório Tio:
MEU PAI FOI PILOTO.

QUADRO 02. Este é o maior quadro da página. O avião do pai, em pleno vôo, é tomado de assalto por dois aeroplanos inimigos, que encostam suas asas nas do dele e prendem ganchos nela, como um navio que aborda outro. O foco destaca o avião do pai do ex-piloto, que, de seu cockpit, dispara com sua arma num inimigo que descia de sua nave para atacá-lo, mas é atingido. Do lado oposto, um novo adversário saltava empunhando um sabre no ar, prometendo ao piloto atacado a morte certa. Tais inimigos do pai, visualmente, vestiam-se num misto de aviadores com piratas, tendo até a barba por fazer. Possuíam um aspecto sujo e perigoso.

Recordatório Tio:
MORREU EM COMBATE AÉREO.

QUADRO 03. Diante do caixão do pai, o filho e futuro piloto, enfiado num terno preto infantil, segura seu capacete. Uma lágrima lhe corre o rosto.

Recordatório Tio:
CLARO, ELE ACABOU SE TORNANDO UMA FIGURA HERÓICA PRA MIM.

QUADRO 04. Uma foto do tio, ainda criança, numa vestimenta de piloto que lhe era folgada. Um sorriso estava estampado em sua face. Nas extremidades da cena, podemos ver as bordas da moldura da fotografia; esta mostrando sinais de envelhecimento.

Recordatório Tio:
E O QUE UM FILHO COM ISSO NA CABEÇA FAZ?

Recordatório Tio:
ELE SEGUE OS PASSOS DO SEU VELHO.

PÁG 04

QUADRO 01. De costas para os leitores, mas olhando na direção destes, o tio (com seus 18 anos) está vestido com um traje de piloto, tendo uma pistola presa à cintura, parado na asa de seu avião como se tivesse interrompido seu caminho até o cockpit. O foco aqui é aproximado. Digamos que estamos próximos da Segunda Guerra, o que nos dá uma mudança nas vestimentas, etc. Mas usaremos um avião mais moderno, um caça. Imagem referencial em anexo.

Recordatório Tio:
AOS 18, EU ERA UM AVIADOR. UM AVENTUREIRO.

QUADRO 02. Em pleno vôo, com a câmera dentro do cockpit do tio, vemos outros aeroplanos amigos o circundarem enquanto ele está de ponta-cabeça no ar. Imagem para referência em anexo.

Recordatório Tio:
JUNTO COM OUTROS, TOMEI ASAS DE AÇO PRA MIM E COMECEI A ME ALIMENTAR DE NUVENS.

Recordatório Tio:
O CÉU ERA UM LUGAR PERIGOSO E PRECISAVA DE JUSTICEIROS. EU ERA UM DELES.

Recordatório Tio:
POBRE IDIOTA.

QUADRO 03. Cena de ação física, finalmente! O tio é atacado por um sujeito mais forte e de aparência deformada, também trajando roupas de aviador, que lhe agarra com uma das mãos pelo pescoço – imobilizando-o contra o chão – e preparando a outra para socá-lo. O futuro ex-piloto está com sua pistola apontada para a cabeça do inimigo, prestes a disparar. Mas ele se contém para atirar, pois uma amiga de cabelos à altura do ombro e desarrumados, também piloto, se agarra ao pescoço do adversário num ataque desesperado. A ação se passa na beirada da comporta aberta de um avião, onde podemos ver, ao fundo, o céu diurno.

Recordatório Tio:
SABE QUANDO AS COISAS PARARAM DE SER INTERESSANTES?

Referência: capa da série pulp G8
Referência visual que inspirou a cena anterior.

PÁG 05

QUADRO 01. Close no rosto da sobrinha, neste quadro que volta rapidamente ao presente, com expressão de séria curiosidade, apoiando o rosto nos punhos fechados.

Balão (Tio):
QUANDO A IDADE FOI AVANÇANDO E A INOCÊNCIA ADOLESCENTE FOI SE DESFAZENDO.

QUADRO 02. Área de pouso de uma base inimiga. O tio, seguido por outros companheiros, avançam contra um galpão depois de pousarem seus aviões, disparando contra os adversários que vinham na defesa do lugar e acertando a maioria deles, como nos bons e velhos filmes de mocinhos contra bandidos.

Recordatório Tio:
NÃO ERA SÓ ISSO. TUDO ESTAVA MUDANDO.

Recordatório Tio:
PARA ALGO MAIS SOMBRIO E ASSUSTADOR.

QUADRO 03. Sob a mira da arma do tio, esta aparecendo em primeiro plano, vemos caído um soldado desarmado, que ergue as mãos em sinal de rendição.

Recordatório Tio:
NÓS ÉRAMOS HERÓIS, NO COMEÇO.

QUADRO 04. Em primeiro plano frontal e com ângulo de câmera inferior, uma bala é disparada da arma. Atrás dela, vemos o rosto sério do tio, não mostrando qualquer arrependimento no que fazia.

Recordatório Tio:
DEPOIS, SOLDADOS COM UM IDEAL FALHO.

PÁG 06

QUADRO 01. No céu, uma águia plana solitária, o entardecer ao seu redor sendo o pano de fundo.

Balão (Tio):
FORAM TEMPOS MAIS SIMPLES.

QUADRO 02. Repetimos a cena do quadro anterior, modificando apenas o movimento da águia e, colocando a sua frente em primeiro plano, uma das lentes dos óculos do tio, ele tendo levantado-o como se procurasse alguma sujeira ou mancha nela. A águia se encontra passando no meio da lente em questão.

Balão (Tio):
E EU MATEI UM HOMEM DESARMADO.

QUADRO 03. O tio sentado em sua cadeira de praia, o corpo curvado para frente. O olhar, voltado para o chão, perdido no passado, enquanto as mãos limpam as lentes dos óculos na camisa.

Tio:
CRUZEI A LINHA. AQUELA DA QUAL TODOS NO NOSSO RAMO, O DOS AVENTUREIROS, FALAM TANTO.

Tio:
FORAM MUITAS NOITES DE PESADELOS. E MAIS AINDA DAQUELAS SEM DORMIR POR CAUSA DELES. SUA TIA BEM SABE.

Tio:
O BOM E VELHO MANIQUEÍSMO NÃO CONHECE O CINISMO DA ÁREA CINZA DOS DIAS DE HOJE, MINHA QUERIDA.

QUADRO 04. O Tio põe os óculos sobre os olhos novamente, sério.

Tio:
É TUDO PRETO NO BRANCO.

QUADRO 05. A mão do tio apanhando o cajado.

(Sem diálogo)

PÁG 07

QUADRO 01. O tio de pé com certa dificuldade, mostrando que o ferimento em seu joelho é mais grave do que aparenta. O cajado o ajudando na tarefa.

Tio:
A CULPA ME MANTÉM COM OS PÉS NO CHÃO.

QUADRO 02. A sobrinha observa o tio caminhar para a casa.

Tio:
ALÉM DO MAIS, ACHO QUE VOAR NÃO TEM O MESMO SIGNIFICADO DE ANTES.

QUADRO 03. O rosto da sobrinha, num misto de seriedade e tristeza. Seus cabelos dançando no ar. Os olhos estáticos.

(Sem diálogo)

QUADRO 04. Close numa de suas mãos, que agarra a cauda do avião de brinquedo em seu colo.

(Sem diálogo)

QUADRO 05. Na parte esquerda do quadro, vemos o nariz do avião na cena, tendo de fundo o céu ao entardecer. A menina nem a sua mão devem aparecer. Seria interessante que este quadro fosse encaixado na diagramação da página num formato widescreen.

(Sem diálogo)

PÁG 08

QUADRO ÚNICO/SPLASH PAGE. Foco totalmente na sobrinha que, em sua posição de lótus, brinca com seu avião, erguendo-o sobre sua cabeça. Seus olhos são sonhadores e seus lábios formam um sorriso que guarda algum tipo de segredo. Os cabelos num passo uniforme com a brisa que passa por ali. Ao fundo, o entardecer nunca foi tão belo.

Sobrinha (Em fontes pequenas, como se cochichasse):
NÃO TEM UMA OVA.

FIM

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