INTRO
No último fim de semana, sexta 05 e sábado 06 de maio, o bairro portuário do Jaraguá se agitou com o considerável número de formigas humanas transitando sobre sua pele de asfalto, concreto e cimento. Uma das razões para tal infestação se deveu as apresentações de músicos da terrinha na oitava edição do FEMUSESC – Mostra de Música do Sesc Alagoas. Realizado nas proximidades do Coreto do bairro e aberto ao público, o evento reuniu os artistas responsáveis pelas quatorze músicas escolhidas pelo júri do Sesc, das quais uma seria indicada para representar o estado numa competição nacional. Além deles, músicos conhecidos de outras paragens estaduais estariam por lá, convidados para darem seu showzinho à parte e lançar mais açúcar ritmado para atrair alvos variados.
SEGUNDO DIA
Devido a problemas de questões cronológicas, acabei indo apenas na parte dois do evento – tava achando que o festival seria no fim de semana seguinte. No final das contas, graças ao saldo geral das apresentações, tive o bastante para ficar com os ouvidos massageados e com a noite de sábado salva por um belo programa cultural.
Noite curtida com dois dos meus chegados de tempos infantis, Leandro e David, com os quais tomei lugar próximo da mesa de som. Podendo ver o palco num lance de olho legal e ouvir a sonzera sem ficar surdo. Munidos de um dos vícios capitais e papeando sobre nossos assuntos pessoais, deixando-os de lado só quando o primeiro músico, o Allan Bastos, subiu ao palco.
Tava pra começar uma sucessão de boas surpresas.
TOP 3
Apesar da qualidade – dada às devidas proporções - de todos que subiram ao palco, era praticamente inevitável fazer uma listinha do que mais agradou e empolgou, sabe? Dos que se apresentaram no sábado - e aí seguem opiniões tiradas do meu umbigo -, destacaram-se duas bandas e um músico e sua banda.
O Mr. Freeze, da qual eu só ouvia falar e nunca bateu de ver um show, fez um batidão meio mangue e roque com a música “Maracutaia”. Se não fosse o fato de estar sentado e num espaço pouco propício, era aquele tipo de som pra ficar de pé e sacolejar. Os caras emanam boas vibrações na medida certa.
Joselino Gomes, com sua cadeira de rodas, violão e banda, chamou os espíritos regionais do que tapa o alagadiço para entoar sua canção, “Na Beira do Mar”. Fosse com a voz ou palmas, ele arrancou da platéia uma participação que deve ter causado inveja em alguns.
E a banda Gato Zarolho deu seu ritmo embalador agitado com “Trajetória”, quebrando um pouco a mística de sua música com vocais destoantes, mas, ainda assim, cativando e empolgando. A parte instrumental salvou, e bem, seu show.
Menção especial para Zoio da Terra, que com uma mistura que tinha reagge no miolo, quase entra no (meu) TOP 3 com “Nos Trópicos”. Bateu na trave.
DOMADOR DE VIOLÕES
Antes do anuncio oficial da música vencedora, estava para rolar o que poderia ser considerado o show principal da noite: o do violonista gaúcho Yamandú Costa.
E que showzinho filho de uma puta.
Em quase duas horas, esse sujeito gordinho e de cabelo batendo pouco acima dos ombros, que um dia morou aqui mesmo, em Maceió, onde – afirmação dele próprio e da apresentação do evento – descobriu seu ponto g na música, mostrou o que sabe fazer: improvisar. Com perícia e violência.
Segundo soube, filho de um dos proprietários da rede de restaurantes O Laçador (?) – que aqui fechou faz um bom tempo -, o Sr. Costa tocava em barzinhos com o primo. Onde, um dia, foi abandonado no palco pelo parente e, como não sabia tocar a música que faziam, acabou por cair na improvisação.
E é isso que se vê e ouve quando Yamandú Costa segura seu violão e troca a posição de suas pernas convenientemente. Lançados os primeiros acordes, ele se desconecta da realidade e vai para uma existência além, superior. Psicodélica do jeito dele. Que o faz suar como se tivesse passado por uma sessão de purificação numa tenda de índios mexicanos regada a peiote.
Parece que segura um dragão selvagem nos braços. O qual só ele é capaz de dominar com as serpenteadas agressivas que seus dedos realizam nas cordas. Vibração que ecoa no ar como um terremoto e nos deixa paralisados. Que lembra das raízes diversas da nossa tupinicagem pros mais moços e moças.
Yamandú é guerreiro e mago de uma linhagem única. E o maldito merece respeito.
FINALE
Depois do ritual da viola cósmica, anunciaram a música vencedora – e quem interpretou foi a banda que cantou outra composição e encerrou os shows no sábado -, cantada pelo grupo Maqiavel – sem o ‘u’ mesmo. E que foi uma das que não me empolgou. Assim como pros meus amigos, razão suficiente para zarparmos para o boteco mais próximo e deixar para uma próxima vez a oportunidade de ouvir a música ganhadora.
Loiras geladas e conversas agradavelmente toscas nos aguardavam. Como se a noite (ainda) não reservasse uma longa surpresa asfaltada… uma história para outro dia, é claro.


