(…) Eu acho que o homem criou um conceito, “Deus”, para concretizar o próprio temor diante do “mundo” e da “natureza”. “Deus” é um fato cultural universal criado pelo homem. Para mim, tornou-se um “péssimo” quando o homem começou a usá-lo como modelo de onipotência para encerrar os próprios limites. Na nossa época, na qual não se pode garantir o absolutismo de Deus, o homem continua a buscar um “substituto”, e repete o fracasso.
O trecho acima foi extraído do número 10 do mangá Éden, publicado pela Panini. Palavras disparadas pelo criador e autor da série, Hiroki Endo, numa entrevista que inseriram ao final da edição e realizada numa versão estrangeira do material.

Diferente de muito quadrinho nipônico de ficção científica do mainstream, Éden já tem uma enorme distinção em relação aos seus possíveis equivalentes: a maturidade. Definiçãozinha sacana, eu sei, se tratando de qualquer tipo de gibi. Mas tenho em Éden essa percepção, seja na caracterização ou no relacionamento dos personagens. Claro, você encontra toda ação cinematográfica e violência – ultra-violência feroz, na verdade – que temos em outros shonens, mas a série de Endo não leva o “impróprio para menores de 18 anos” na capa à toa.
O que mais me cativa em sua trama, talvez, seja o debate existencialista da humanidade em relação a Deus, e em relação a própria humanidade. Uma contestação de padrões morais agressiva e, até onde li, sem limites aparentes. Onde um lugar que poderia ser o paraíso é o mais distorcido dos infernos, seu Deus Infernal leva suas crias para diversas partes: da ficção científica apocalíptica ao cyberpunk, mesclando ação, drama, conspirações e romance policial.
Tenho as 11 edições iniciais da série, e lembro vagamente de ter ouvido falar que a Panini interrompeu a publicação porque a versão nacional alcançou a japonesa. Estava relendo as duas primeiras edições ontem e devo dar uma olhada na restante depois. Quero arranjar os números posteriores.

