INTRO

Um aviso: se você for a um evento que tem o patrocínio ou apoio da Petrobras, não se atrase. Pois, diferente de outras ocorrências culturais que costumamos ir, aqueles organizados pelos senhores auto-suficientes não costumam começar com qualquer atraso. E era isso que eu devia ter avisado ao meu camarada de infância, o David, que se atrasou em quase quarenta minutos para o espetáculo musical Circuito Instrumental Universitário, acontecido no dia 1º de junho, no Espaço Cultural da UFAL, centro da cidade.

Qu4tro a Zero - Choro Elétrico

Evento de entrada franca, teria como atração principal o grupo Qu4tro a Zero, de Campinas, mais o acompanhamento do bandolinista Joel Nascimento. No repertório, o choro brasileiro – e seus grandes nomes – reverenciado.

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Devo admitir que não sou lá grande entendido quando o assunto em questão é música. E nem pretendo ser. Quando entre no mérito do referido tema, apelo para o que os meus sentidos são capazes de captar em termos emocionais. Porque música, creio eu, tem que mexer com você de algum modo. E alguém minimamente instruído deve ser capaz de falar como isso acontece.

E é o que acontece quando falo de música.

Mas comentar choro? Como?

Eu não tenho – e mesmo depois do show – qualquer noção da importância do gênero para a música brasileira. E o fato deste desconhecimento foi o grande motivador para me levar ao show do Qu4tro a Zero e do bem-humorado Sr. Joel Nascimento. Além, é claro, da “entrada franca” comentada mais acima. Se você não tivesse o que fazer numa quinta-feira a noite, tendo um show desses ali, de grátis, por que não se arriscar e, quem sabe, se enriquecer um pouquinho culturalmente?

Joel Nascimento

Deixando a retórica e o pseudo-intelectualismo de lado, não perdi nada indo a antiga reitoria da Universidade Federal de Alagoas. Assim como o David e a penca de gente que quase lotou o mais ou menos pequeno teatro do lugar. “A gente tava achando que ia ser um fracasso de público”, admitiu o baixista da banda, Danilo Penteado, referindo-se aos cinco minutos antes das 19 horas, horário marcado para o início do show, quando não havia ninguém nas poltronas.

Quando o espetáculo começou, continuou e terminou, o que se viu foi uma audiência – em sua maioria – que sabia por que estava ali. E aplaudia cada música e comentário dos músicos sobre a história do choro, além de se emocionar quando alguma ‘conhecida’ era tocada. Algo que me lembrou o afeto caloroso que pude ver nos baianos na última edição do Mercado Cultural, em 2005.

Nosso público também é de ‘gente grande’.

MAS COMO FOI A COISA EM SI?

O show durou cerca de 45 minutos, creio, contando com o biss. O Qu4tro a Zero tocou acima de 30 minutos e, depois disso, convidou Joel Nascimento para o palco. Considerado um dos nomes fortes do choro nacional, incluindo nisso o fato de sua postura renovadora dentro do mesmo, o senhor que ano, em 2007, chegará aos 70 anos, trouxe um bom humor típico de alguns indivíduos da melhor idade. Dando ao espetáculo um clima ainda mais descontraído.

E os cinco músicos fizeram de seu repertório uma extensa homenagem a Radamés Gnattali, que acumulou diversas funções no mundo da música – foi de pianista a arranjador. Trabalhou com gente do naipe de Tom Jobin e foi um dos arranjadores de Aquarela do Brasil. Considerado um dos nomes mais importantes do choro e do samba tupiniquim, estaria completando 100 anos em 2006. Nas palavras de Jobim, “Radamés era uma alma adiantada, um espírito avançado, um precursor que escrevia música para o futuro, um pai. Não só tinha talento, como era um homem muito generoso”.

Aplaudidos de pé na última música e no biss, Qu4tro a Zero e Joel Nascimento fizeram um show elegante. Mas não pedante. Divertiram o público naquelas quase duas horas e ganharam seu respeito e admiração. Mesclando o velho e o jovem para criar algo novo, ainda mais acessível.

Se fosse cobrada entrada, valeria o preço.