INTRO
Acho que não completaram duas semanas desde que Maceió foi acometida por chuvas repentinas e desordeiras. Na verdade, devem ter completado duas semanas, sim. Enfim… independente das ruas alagadas, trânsito congestionado, era preciso botar o pé para fora de casa e resolver as coisas. Sabe como é, mostrar serviço pra conseguir algum.
E foi num dia desses de chuva, voltando num ônibus apertado para casa, que presenciei uma daquelas seqüências de olhares que faz a gente pensar. Viajar. Rir sozinho e imaginar que tudo não passa de um filme da vida real.
Pelo menos, é assim que eu me lembro…
APERTO
No referido dia, eu havia saído munido da devida proteção: o guarda-chuva serviu quando começaram a mijar lá de cima de um lado para o outro. Parado no ponto, não tive que esperar tanto pelo meu transporte público. Depois de uma tarde resolvendo coisas que, pelo visto, só deveriam se concretizar a longo prazo, tudo o que eu queria era chegar em casa, comer e dormir.
Merda; estava cheio, viu? Não que fosse nada fora do normal. Fiquei em pé lá pelo meio. Coloquei a mochila pro lado da frente do corpo e me lancei a olhar o movimento através das janelas molhadas. O que só acontecia, de fato, quando a iluminação dos postes ou dos carros ajudava. Porque a escuridão da noite e da chuva mandava lá fora.
Sem ter mais o que fazer, me recolhi para os meus pensamentos.
Isso, claro, até ser pego de surpresa por um olhar masculino que cruzava o meu. Um sujeito mais velho, de vinte e cinco anos em diante, negro e não muito forte. Causando, como qualquer leitor homem pode imaginar, um momento brevemente constrangedor. Breve por descobrir logo a seguir, aliviado, que não era eu o alvo a ser encarado. Mas uma jovem nos altos dos seus dezoito anos. Ou um ou dois anos mais. Branca, quase pálida. Resquícios de espinhas nas bochechas. Aparelhos nos dentes. Cabelo negro preso. Corpo ainda em transição. Conversava com uma amiga, sentada ao seu lado, que era menos chamativa.
Sem nada melhor para assistir na rua, e tendo o trânsito nos engarrafado, tentei me manter neutro na paquera do cara com a menina; mas timidamente observador. Mal de escritor pentelho, não deu pra evitar.
Por mais de cinco minutos, e isso deu para perceber em minha ‘discreta’ tocaia, o negro lançou olhares seguidos para a mocinha. Parecia mostrar certo desinteresse, obviamente para não dar muito na cara que havia surgido algo pela quase gasparzinha. Do outro lado do ringue, ela, a paquerada, só se deu conta após os já citados cinco minutos. Foi aí que dividiu o foco de sua atenção entre conversar com a amiga e lançar breves olhares para o seu admirador.
Ah, os pensamentos impuros que me vieram depois…
COLETIVIDADE
Não dava para deixar de imaginar isso: o sujeito tinha tara em menininhas.
Tudo bem, não estamos falando aqui de crianças de 12 anos, pelo amor do-que-quer-que-esteja-lá-em-cima. A moça, claramente, era maior de idade. Só não tinha os atributos de uma mulher mais velha. E que deve ter sido o gatilho necessário para despertar o interesse do carinha paquerador. No centro daquele transporte municipal, era a conclusão a qual eu cheguei. Sem contar que, andando lentamente por causa do trânsito, era a única coisa interessante de se fazer.
Observar e imaginar. Ficção real gratuita diante dos meus olhos. O Big Brother da vida real estava ali, num ônibus, e não precisava se pagar pay per view para acompanhar 24 horas a programação dos fatos. Entretenimento pervertido, eu sei. Mas, quando o físico dos ‘competidores’ eram analisados, só dava pra pensar que o negro esfolaria a branquela magrela na cama.
Deus, como eu me sentia doente e sem religião. Na verdade, eu não tinha nenhuma naquele momento e ainda não me abri para alguma. A fome, o cansaço, a falta de um trago decente numa palha mineira e o aconchego dos braços da namorada fazem você ficar assim… não fazem? Eu não tinha lá muita certeza.
Minhas reflexões foram se dissolvendo quando o espaço-tempo a minha volta tomou aceleração. O tráfego aliviou sua pressão e deixou o ônibus seguir seu caminho. E uma cadeira vagou na minha frente, onde fiz questão de assentar meu traseiro e, de algum modo, me deixar descansar. O negro meio forte não demorou a descer, e a moça quase pálida, só vi quando saltei no meu ponto.
Tocando os passos pra casa, eu sabia que tinha que parar com essas coisas.
(Ou não.)

