
Se você parar para pensar no que define algo, seja ele o que for, capaz de gerar o estímulo necessário para o desenvolvimento de uma história por parte de seu receptor, o criador ficcional – escritor, compositor, pintor etc -, ‘tudo’ surgirá como uma resposta lógica. Quase tudo, poderão dizer alguns. O que não exclui a amplitude máxima do todo. Afinal, o que esses alguns não serão capazes de usar, as mãos de outros poderão encontrar êxito.
E uma das graças, por assim dizer, de parte do processo criativo, é de como tudo a sua volta pipoca de repente, transformando-se e brilhando, implorando para sofrer mutação em direção à ficção. Seja algo que venha a surgir após você assistir a um documentário sobre uma ocorrência histórica ou social, um filme policial ou de aventura. Pode ser um sentimento emergido da decorrência de uma briga com seus pais; quem sabe com a sua namorada ou esposa, quem sabe até com uma amante casual.
Tal idéia surge rápido, exigindo ser trabalhada de imediato depois de um período de gestação indefinido. Podendo esse caminho ser lúcido ou não por parte do seu consciente. Porque, mesmo que ela, a idéia, esteja agindo na segunda opção e permaneça oculta de suas vontades pré-selecionadas, vai reaparecer quando a oportunidade ideal de execução surgir para você.
Comigo, isso aconteceu com o plot básico de Terra do Nunca Love Song Five.
A idéia inicial, e que não fora considerada assim em sua concepção, veio claramente de uma fase nebulosa causada por um relacionamento amoroso porcamente arrumado. Algo que caminhou através do platônico e do real como um bêbado imprevisível, ora na calçada ora na estrada movimentada. De um modo ou outro, ele daria de cara com algo: seria atropelado por um carro em alta velocidade e quebrado pelo impacto, ou tropeçaria nos próprios pés e enfiaria as fuças no chão pavimentado.
Então, quando a inevitabilidade do universo me derrubou, e eu não sabia se fora um carro ou a calçada que me parara, pois ainda estava embriagado de tanta platonice barata, eis que surgiu o Felipe Cunha. Através do mundo virtual, queria estabelecer contato artístico. Montar parceria a longa distância para a produção de uma ficção curta, a ser levada ao público na forma de um fanzine. Ou quem sabe como uma história em quadrinhos dentre tantas outras no miolo de alguma coletânea genérica da vida.
Com a aceitação do convite, os laços iniciais foram estabelecidos. E fiz algo que, hoje, resistiria em fazer sem antes me definir em relação a gênero(s) e formatação de uma história: sucumbi a primeira idéia violentamente sentimental que me veio a cabeça. E era justamente aquela, a que permanecia oculta no fundo da minha memória, esperando apenas o gatilho para despertar e tomar minha atenção. Acionado com a avaliação do estilo de desenho do Felipe: possuía uma característica urbana, humana. Era um traço que precisava de uma história emotiva, do coração.
Fosse ele um partido ou não.
O roteiro foi escrito, e minha memória não parece estar falha quando a consulto nesse momento, no período de uma semana. E agora não sou tão exato, mas creio que estava para completar um mês do contato inicial que o Felipe fizera quando isso aconteceu. Uma semana. A maldita idéia, a qual foi se desnudando diante da minha mente a cada cena, diálogo e página digitada, levou menos de sete dias para ter seu próprio arquivo .rtf do Word, e uma pasta com seu título nos meus arquivos de projetos narrativos.
Devo confessar que não me senti seguro com o resultado final, assim como quando pressionei o botão ‘enviar’ do meu e-mail, mandando-o em anexo para o Felipe. Quando a ficha caiu de que eu deveria reler o que escrevi com mais atenção, para corrigir eventuais erros ortográficos ou simplesmente reescrever certas páginas – quem sabe até criar uma nova história -, eu já estava à mercê da avaliação do desenhista-parceiro. Aguardando. Não adiantava mexer num centímetro sequer do material original se a resposta que viesse da parte dele fosse negativa.
Relendo o meu roteiro na época e hoje, consigo identificar as influências que me acompanharam durante o processo elaborativo das páginas e suas falas, assim como as deficiências e benefícios que elas, de certo modo, vieram a me trazer.
Brian Bendis foi a principal delas naquele período. Sua fase no Demolidor estava à toda, e era uma das minhas poucas compras religiosas (e continuará a ser até seu final) nas bancas tupiniquins mês a mês. No entanto, era outro escrito de Bendis que me chamava para olhar seu conteúdo em busca de dicas configurativas: Alias. E que, igualmente as aventuras do Homem sem Medo escritas por ele, sofria com as críticas dos leitores por sua narrativa descomprimida e diálogos ‘realistas’.
Mas fora exatamente isso que fui buscar, naquele momento, para contar a história do sujeito que era “secretamente” apaixonado por sua melhor amiga. Pois parecia que os personagens pediam por isso: eles queriam falar como você ou eu. Buscavam a idéia de independência e personalidade tridimensional. Quando dei por mim, meus dedos já haviam feito todo o serviço. E lá estavam os dois protagonistas, conversando banalidades até chegarmos ao clímax do lugar-comum.
O demérito não estava no comum das conversas. Se pudesse, eu até mudaria uma coisa aqui e acolá, diminuiria e daria um certo ar fantasioso em alguns pontos, mas não alteraria a idéia geral delas. Estava no fato de que seriam oito páginas de vida banal com dois adolescentes bobos e cheios de hormônios que não seriam usados na referida história. A simplicidade do realismo alcançado poderia ser sinônima de falta de criatividade e ousadia, causando monotonia na audiência e o evidente desperdício do talento de um belo desenhista. E, isso para um sujeito que prefere viajar ao trabalhar a idéia de suas histórias, seria um baque e tanto.
O estalo veio justamente com a tal da ‘viagem’. Era com ela que eu seria capaz de escapar do mundo convencional e aloprar visualmente. De me desconectar do óbvio e subir um degrau, alcançando o mundo ficcional. Então, eu simplesmente fui lá e fiz: chapei inadvertidamente dois adolescentes. Droguei duas crianças contemporâneas e as mandei para um mundo fantástico e mais interessante que o nosso. Um lugar que todos gostaríamos de (e quem sabe deveríamos) visitar de vez em quando.
Deve ter sido alguma incorporação inconsciente de Grant Morrison que me fez escapar por essa alternativa. Uma das minhas preferidas, na verdade, durante o trabalho de criação do comentado roteiro. Que sofre vez ou outra com as minhas lamentações devido a rapidez de sua execução. Sinto que apenas arranhei a casca de algo que poderia ter ido além. Em algum ponto do espaço-tempo, perdi uma poesia gráfica das melhores, e acabei ficando com a versão resumida.
Resumida e divertida o suficiente para captar o interesse do Felipe. Ele disse sim ao roteiro, o que acalmou meu senso crítico até então arrependido, e, depois de alguns meses de produção, recebi as oito páginas finalizadas da nossa primeira parceria. Páginas que me encheram, daquele modo bom, os olhos. Estava tudo lá. Pronto para receber os diálogos e a edição eletrônica. Para chegar aos leitores.
Terra do Nunca Love Song Five é uma das minhas hq’s queridas pelas surpresas que costuma me trazer. Algo que começou quando o Felipe me mandou os primeiros rascunhos, mostrando nossos protagonistas, e que continua a cada novo leitor que ela consegue alcançar e provoca nele alguma reação positiva. Às vezes, paro para imaginar o que há de especial nela. Ou o que não há, e mesmo assim é capaz de fazer com que o Felipe e eu recebamos bons comentários por ela.
Talvez seja uma idéia, um sentimento oculto dentro de cada um, vivido no passado ou acontecendo no presente, capaz de ser acionado como um gatilho que é pressionado quando suas páginas são percorridas por olhos atentos. Quem sabe, nunca dê para entender com precisão o mecanismo total dessa engrenagem. Mas nós sabemos que a idéia, essa sim, está lá, pronta. Esperando cada um estar preparado para ela.
No próximo dia 11 de julho, quem estiver em São Paulo poderá testar a minha teoria na cerimônia de premiação do HQ MIX 2006. O Felipe Cunha, indicado na categoria de Melhor Blog/Flog de Artista Gráfico, estará por lá com uma nova tiragem do Terra (…), devidamente acertada em alguns pontos técnicos para a melhor apreciação do público leitor. O fanzine continua custando a bagatela de R$ 1,00. Esbarrando com o Felipe, aproveita e dá uma olhada nos outros zines do sujeito.
A premiação do 18º HQ MIX acontecerá no Sesc Pompéia, 11 de julho, a partir das 20 horas, com apresentação de Serginho Groisman.




Cadu Simões said:
Ae Pablo! Me envia seu endereço em homemgrilo@terra.com.br para eu poder lhe enviar os meus fanzines.
E reforçando a propaganda, comprem o “Terra do Nunca Love Song Five”, será R$ 1,00 bem investido. =)
6 days after the fact.