Bryan Singer não fez o típico filme fanboylesco em Superman – O Retorno. Na verdade, ele fez, mas com uma mentalidade mais contemporânea e consciente da abrangência da mitologia em torno do Homem de Aço, sem abrir mão de toques retrôs.
Durante pouco mais de duas horas e meia, o que vemos na tela não é uma simples homenagem aos dois primeiros filmes com o personagem – e que nem foram muitas, graças aos Deus Nérdicos -, mas às histórias em quadrinhos que lhe deram origem e perpetuam, até hoje, a crença no imigrante alienígena que se transformou num Jesus Cristo pop de colante. A figura perfeita do estrangeiro que se deu bem no Novo Mundo e nos inspira a consumir o tal irreal American Way de vida.
No entanto, vale ressaltar que essas considerações estão longe de levarem o primeiro filme de Singer com o herói a uma perfeição unânime. A falta de ação constante, comparado à adaptações recentes de supers – como X-Men 3 emulando gibis do Jim Lee da década de 90 -, não deve chamar tanto a atenção da garotada energética. Assim como a atuação competente de Brandon Routh e a sem sal de sua colega de cena, Kate Bosworth, já estão fazendo os fãs chatos chiarem e rememorarem o finado Reeves e a destrambelhada Margo Kidder. Até Kevin Spacey, que fez um Luthor seu e melhor que o de Gene Hackman, está enfrentando críticas bestas das pessoas de sempre.
Ah, que se dane. É um bom filme. É romântico de várias formas. E talvez tenha na sua cadência narrativa a maior falha: é muito filme para pouca história. Não se trata de termos aqui um conto visual arrastado. Não. Mas a limitação dos dois atores principais impediu a elaboração de diálogos mais interessantes para ambos. Pode prestar atenção: é Spacey quem tem as melhores falas. Adivinhar o porquê não é difícil, certo?
Essa falta de exploração de uma caracterização verbal é substituída pela visual: as cenas do Homem de Aço voando são um deleite para fãs e leigos, a mesma conclusão servindo para as de ação. Não dá para evitar aquela pontinha de inveja e se imaginar lá em cima, no meio de um mar de nuvens tão elegantemente caótico.
E eu não comentei sobre o humor, não foi? Pois é. Um sem-número de críticos afirmando que O Retorno não possuía o mesmo pique nessa área em relação aos dois primeiros filmes do azulão. Sinceridade? Depois de rever um trecho de Superman II, no qual Zod e seus dois comparsas sopram uma ventania numa avenida de Metrópolis, promovendo uma seqüência patética de histeria, eu fico feliz pela diferença. Pois Singer e os jovens roteiristas souberam criar situações de humor convencional de modo inteligente e não-babacas, além de acrescentar humor negro a outras delas. E fazer isso numa história do Super-Homem funcionar já é um grande mérito.
Para assistir a Superman – O Retorno é preciso ir desprendido de grandes expectativas em relação a ação asfixiante e trama cheia de idas e voltas. Não se trata disso. Mas de várias histórias de amor. Entre um homem e uma mulher. Entre um homem e um mundo. E entre um pai e filho. Embates emotivos regados a diálogos filosóficos de Marlon Brando e a trilha sonora clássica de John Williams.
Avante.

