Dedicado à ela.

NOTA

A crônica que vocês estão prestes a ler se situa durante o Mercado Cultural 2005, realizado em Salvador, na Bahia, dos dias de 6 a 11 de dezembro. E se concentra nas minhas experiências com o grupo de artistas e produtores culturais de Alagoas enviados pelo Sebrae desse mesmo Estado ao evento. O texto não segue, além da ordem de dias, um sentido rígido em relação aos fatos e situações ocorridas durante a viagem. Relatos sobre a Feira de Cultura, por exemplo, que colocou num mesmo espaço físico representantes de todo o país, ficaram de fora.

A crônica se baseia nas anotações que realizei durante a viagem e no período logo após o nosso retorno. E tange superficialmente o que diz respeito ao conteúdo intelectual do Mercado e se aprofunda nas minhas visões transviadas sobre o meio-ambiente inter-pessoal vivido.

Então, boa leitura.

INTRO

Meio de semana. Pelo que diz o calendário, estávamos em novembro de 2005. Thiago e eu nos encontrávamos na Anima Alagoana, em mais uma de nossas reuniões burocráticas e mercadológicas relacionadas a NAPALM!. Os assuntos tratados naquele dia viraram cinzas na minha memória. E a única imagem seqüencial que restou no arquivo de lembranças tem seu início com o tocar de um telefone.

Era alguém do Sebrae Alagoas, pelo que ficamos sabendo minutos depois. Ele (ou ela) comentava que a instituição, o Anima, possuía direito certo para enviar um integrante seu, e outro de uma das empresas ali incubadas, para a cidade de Salvador. A finalidade era participar da sexta edição, em dezembro, do Mercado Cultural – um fórum para a discussão, troca de experiências e manifestações, é claro, culturais.

“Não dá”, o Thiago foi afirmando de cara, antes mesmo de termos de decidir quem de nós iria, fosse no palitinho ou em algo que valha. “Tenho as provas finais da faculdade pra fazer.” Não restando outra opção além de mim, não fiz lá muita cerimônia e abri um sorriso nada discreto, afirmando não haver empecilho algum para que eu botasse o pé na estrada.

E eu mal sabia que daria sorrisos ainda maiores durante aquela jornada.

EMBARQUE

Dia 06|12|05

Eram duas e tantas da madrugada quando a realidade física e a de Morfeus se confundiram, numa ação causada pela minha bexiga, que exigia uma bela mijada. Depois de um ou dois pares de minutos, eu voltava para o quarto, as pernas ainda sonolentas. Mas os olhos, então, não conseguiram permanecer fechados e desconectados. Fazendo da cama um mero local de repouso semi-consciente.

Uma hora e meia depois, estava eu de pé novamente. No banheiro. O chuveiro vomitando água fria no meu corpo magro. Me despertando para valer. Depois disso, restava conferir a bagagem e a mochila: Máquina digital, ok. Cigarros de palha e isqueiro, ok. De resto, tudo em seu devido lugar. Deus, eu precisava comer algo para afastar a fraqueza e seguir rumo para o ponto de partida: o próprio Sebrae Alagoas.

Com a saída marcada para as cinco e meia da manhã, eu não podia brincar com o horário: na época, estava morando no último bairro ao longo do litoral norte da cidade. Logo, as cinco da matina, eu estava lá, as portas do Sebrae, e mordendo os beiços de desgosto: tinha sido o primeiro dos viajantes a chegar. Maldição.

As exceções se resumiam a Ana e a Daniela, funcionárias da instituição, e responsáveis pela trupe de artistas e produtores culturais durante a viagem e dos dias de estadia nas terras ao sul do nosso estado. Por estarem simplesmente fazendo seu trabalho, tive que excluí-las da lista de presença e continuar me sentindo um idiota por sempre cumprir horários.

Tal inquietação me fez sacar o isqueiro, que logo cuspia suas lambidas ardentes na primeira palha a ser consumida naquele dia. Foi aí que os outros começaram a aportar por ali: “Fumante”, foi a primeira frase que o caro Lula Castello, num tom de ironia divertida, usou dirigindo-se a mim. Depois dele, conhecidos e desconhecidos foram dando as caras sem uma ordem de chegada lógica, despejando suas bagagens pela calçada cimentada. E foi com o aparecimento de quase todos que o micro-ônibus saiu da garagem e se armou para tocarmos estrada a fora.

Com o horário de partida já estourado, a missão partiu para seu destino.

NA ESTRADA (MENTAL)

Dia 06|12|05

A viagem de ida não foi um tédio completo.

Com poucos conhecidos na maioria dos presentes, decidi que o ritual social de apresentação e conversação com os desconhecidos deveria ficar para um momento e local apropriados. Eram sete e alguma coisa da manhã, todos haviam despertado durante a madrugada, dentre os quais eu me incluía; por que perturbá-los com formalidades agora?

Fui buscar na leitura de um livro algo para me entreter nas horas inicias de percurso: saquei da mochila de costas uma edição antiga de Admirável Mundo Novo. Emprestada a mim por uma querida professora de História da Arte fazia mais de um ano, decidi naquele momento criar vergonha e motivação para finalmente concluir a obra, e, assim, cortar um tempo de ócio improdutivo pela raiz.

Pouco mais de três horas depois, estava eu, lentamente, pegando no sono. Havia concluído com prazer o livro de Huxley, refletindo solitariamente sobre o final do mesmo, quando a vista ganhou certo peso e fui adormecendo no movimento do micro-ônibus. Lembro de ter despertado já nas bordas urbanas da capital baiana.

Avançando pelo litoral norte da cidade, todos lançavam pequenas frases sobre a ‘pobreza’ natural das praias que ali víamos comparadas às do nosso Paraíso das Águas. E, com merecida ponta de inveja, também elogiávamos a bela estrutura física construída para decorar a mesma orla sem-graça. E, independente de qualquer outra consideração que fizemos, ninguém pôde deixar de ficar boquiaberto com a incrível maresia que avançava contra a cidade naquele fim de tarde. Uau.

Uma hora depois de cruzarmos o limite inicial da capital baiana, chegamos à Avenida Sete de Setembro, local onde nosso hotel meia-boca estava encravado. Quando a porta do micro-ônibus abriu, tudo o que eu queria era esticar as pernas e fumar um cigarro de palha.

NOITE DE ABERTURA

Dia 06|12|05

Pouco descansados e enfiados em outras roupas depois de um banho rápido, mas com bagagens e quartos arrumados, os integrantes da comitiva alagoana tomavam as ruas de Salvador no início da noite. Rumávamos para o Hotel Tropical da Bahia: Granfinagem pura. Provavelmente a hospedaria contemporânea mais suntuosa da metrópole.

Era para lá, com nossos crachás e outros documentos, que íamos. Para o início da edição de 2005 do Mercado Cultural. E eu nem aí, de All Star no pé. O moleque no meio dos macacos-velhos da produção cultural de Alagoas.

O ar sereno da noite mudou quando entramos no Hotel. Seguimos para um grande salão. Lá, vários lugares ocupados e a constatação óbvia de que a Abertura do Evento, com autoridades e representantes de diversas áreas da cultura, já havia sido iniciada. Educadamente, nos munimos de silêncio e tomamos nossos assentos, inclinando, então, nossas atenções para os discursos.

A representante do Prefeito de Salvador apontava para a Democratização da Cultura – invasão nas escolas já, moldando os jovens de modo que eles valorizassem a própria cultura e, a seguir, pudessem estabelecer contatos mais conscientes com outros núcleos culturais. Apesar de uma aparente “obviedade”, a fala daquela bela negra idosa e de cabelo pesado foi a mais interessante dos indivíduos presentes à mesa e seus discursos impressos em folha ofício.

A abertura foi finalizada pelo mediador e sua menção aos artistas independentes: a fixação de pontos constantes de manifestação/apresentação por parte deles, poderia ser o espaço adequado para que novos artistas encontrassem o cano de escape adequado emergissem.

Depois das últimas palavras e agradecimentos dados pelos componentes da mesa, dos quais não tive a oportunidade de gravar qualquer nome, o Mercado Cultural estava oficialmente iniciado. Chegava, também, a hora de usufruirmos das mordomias de ir para um evento de tal porte através de uma instituição como o Sebrae:

Nós tínhamos direito a cortesias para todos os shows musicais, peças e espetáculos afins presentes na programação do Mercado. Eram as férias ‘gratuitas’ mais agitadas que você não poderia imaginar em pedir a Papai Noel.

Conferindo a lista de coisas que estavam para rolar, nossa primeira ação foi seguir para o Teatro Castro Alves, ponto de realização dos shows que aconteceriam até o último dia de evento. Tínhamos o balé Uaikuru pela frente.

A chegada apressada ao Teatro foi quase à toa: imaginando que o espetáculo estava para começar, aceleramos o passo. A única coisa que garantimos foram bons lugares na linha central da audiência. No palco, homenagens a mestres da cultura popular local eram realizadas por jovens representantes da comunidade baiana.

E, apesar de uma moreninha de voz chata e descompassada ter sido a mestre de cerimônias por boa parte do tempo, as homenagens e participações dos mestres foram tocantes. E fizeram com que, a medida que eles subiam ao palco, os nativos se erguessem em palmas alegres e ferozes. Causando estranhamento e certa irritação nos outros presentes, os visitantes. Mas sendo um ato compreensivelmente louvável do ponto de vista da valorização regional presente no Estado em questão.

Com o encerramento dos tributos, o palco se abriu para os integrantes do balé Uiakuru.

Que, de cara, deram início a batidas ritmadas de palmas com o abrir das cortinas, postando-se ao redor do tablado vazio. Dando a entender, depois de alguns minutos, que sua apresentação teria um quê diferente. Experimental. E que se revelou repetitivo e longo quando, de repente, nos demos conta que eles haviam alcançado a metade do tempo do espetáculo.

Foi então que o primeiro integrante do balé, um dos sujeitos, entrou nu no palco.

Mesmo com todo o burburinho causado assim que olhos cheios de pudores viram um pinto mole sacolejando de um lado para o outro, sendo razão de diversos sshhh por parte dos que não se espantaram, tudo caminhou conforme planejado dentro da proposta da apresentação. Não demorando, sem certa surpresa, para que parte das moças aparecesse com seios duros e empinados à mostra, fazendo coro naturalista com os outros dançarinos: todos seguiam uma linha imaginária no palco, e ela formava a letra Z.

Z de Zumbi. Uuuh.

A repetição dos movimentos somada a gratuidade dos corpos, que a cada instante ficavam mais nus, começou a cansar a platéia. E lugares começaram a ficar vazios antes do fim da apresentação. Até nosso bando, restando vinte minutos para o término da coisa, caiu fora – para a felicidade de alguns do grupo, que dormiam desajeitadamente nas cadeiras acolchoadas do Castro Alves. E seguimos para nosso hotel, de nome tão apropriado: Vila Velha. Para nossos quartos e camas.

MESAS-REDONDAS

Dia 08|12|05

O dia 07 ficará para trás, sem qualquer consideração ou relato de nota. Cortamos o espaço-tempo e seguimos para o dia seguinte, para uma das mesas de discussão mais disputadas do evento. Composta por Dilea Frate, Zuenir Ventura e o sempre querido de todos Luís Fernando Veríssimo, ela tratou de debater sobre os rumos da nação tupiniquim considerando a descrença na situação política. Bate-papo que se valeu de um tom bem humorado.

“O Brasil não é um país para principiante”, afirmou Ventura, citando Tom Jobim. Os escritores/jornalistas concentraram as discussões na perda das crenças axiomáticas do país. Fosso o tópico o PT, a Varig – caso o Mercado fosse hoje, seria a seleção. E Veríssimo, sempre ele, concluiu que tal perda era como um ponto de amadurecimento na vida qualquer ser vivo, “como a morte da mãe do Bambi”. Arrancando risos desenfreados da audiência.

Mas foi Zuenir Ventura quem encerrou a conversa de modo mais que adequado, citando, agora, Tim Maia: “O Brasil é o país onde traficante se vicia, cafetão se apaixona e puta goza.”

A conferência seguinte teve como foco criadores de Festivais Internacionais; os quais lançaram idéias gratuitamente para a platéia presente. Dentre elas, a realização de shows em espaços pequenos, que possibilitavam uma aproximação de maior impacto com o público-alvo. Algo que, de certo modo, já é feito em diversos cantos do país, nos guetos alternativos.

Uma outra interessante tratou de peças sendo ensaiadas nas casas de moradores de uma cidade européia, através de uma iniciativa do próprio segmento teatral em conjunto com o poder público. O sistema funcionava, basicamente, do seguinte modo: o cidadão se inscrevia em algum órgão público ligado à cultura para receber uma das companhias de sua cidade. Então, se selecionado, era recompensado com a visita de um pequeno número de atores e atrizes, que utilizava parte de sua morada para ensaiar durante um par ou mais de horas. O cidadão, por sua vez, chamava familiares e amigos para assistir aos ensaios gratuitos.

Quer melhor formação de público do que essa?

SALVO (?)

Dia 08|12|05

Depois de um dia de conferências bacanas e de uma tarde atarefada no stand do Sebrae Alagoas, eu contava as horas no relógio para a chegada daquela noite. Estava para morrer em vinte e cinco pilas e encarar algumas horas de axé music – com a Margareth Menezes - só para sacolejar ao som da (nova) MPB de Seu Jorge.

Um show pago porque ele, infelizmente, não fazia parte das atividades do Mercado Cultural.

Mas o pior foi que eu morri nos vinte e cinco mesmo: Seu Jorge não fez um show à parte, mas foi convidado para integrar o da Margareth. O sujeito cantou pouco mais (ou menos!) do que cinco músicas, se emocionou (a ponto de chorar) com a receptividade da platéia e puxou o carro dali. Sacanagem!

A única surpresa bacana depois disso foi o surgimento inesperado do Otto, que subiu ao palco e mandou bem fazendo um crossover de várias músicas numa só, e tendo sido acompanhado pela voz da Menezes. Os pontos altos de sua apresentação foram centrados nas constantes aparições cômicas de seu cofre cabeludo, graças a calça sem cinto, e o tosco beijo que ele deu na cantora ao final de sua palhinha.

Quando a madrugava estava prestes a se cansar de tanto se insinuar para nós, decidimos zarpar para o hotel. Cansados. Suados. Uns, de um resumido grupo de quatro pessoas que se dispôs a bancar o show, mais satisfeitos que outros. E tudo que eu tive, depois disso, foi a breve felicidade do perfume de uma moça de sorriso largo, espantoso, roubado durante nosso valsar desajeitado de Cotidiano, do Buarque, cantada pelo Jorge.

Será que já era alguma coisa?

TEORIA DA (NÃO) REALIDADE

Interlúdio: Dias 08 e 09 de 12 de 2005

Três tentativas em menos de 24h.

Apenas na última é que, com certo espaço de minutos, o momento de tranqüilidade toma o espírito. A alma. A estrutura cósmica em toda a sua forma de quatro dimensões. A suavidade da percepção e a infra-estrutura de átomos invisíveis. Parece que não faz muito que o antes passou e o futuro é agora. Andando pelas grandes placas de chips do universo holográfico, o presente não existe.

É apenas uma idéia a ser burlada.

Então, provavelmente, sinto-me ansioso para saber se a percepção não-linear continuará até o próximo primeiro dia da semana. E se, no chamado agora, estarei ligado a ele.

Já.

E chega a noite. Pelourinho. Se eu fosse Dante, dissertaria sobre alguns becos que dão para um inferno que por ali andei. Onde o ambiente era diversamente entorpecido e meus olhos tentavam decifrá-lo, tendo medo, não acreditando no quadro geral. Só se crê quando vemos em filme e num Jornal Nacional da vida. Coisas de Murphy. Ou não.

Voltemos a parte colorida e divertida da vida.

PULSANTE

Dia 10|12|05

Ana e Daniela organizaram uma mini-tour pela cidade. Davies, Keyler, Robertson, Rosivaldo, Lula e Miguel embarcaram. Decidi dar uma de bom moço e ficar com Dona Catarina para irmos assistir as conferências finais – até porque, dadas as experiências do dia anterior, eu havia ficado pensativo demais. O que me impossibilitaria de curtir qualquer passeio.

Aportando no Tropical da Bahia, a conferência sobre Projetos Culturais não me empolgou tanto. Foi o pessoal do Cultura Viva, do Ministério da Cultura, que despertou minha cabeça até então ociosa. Primeiro por serem jovens, de visual pouco “responsável” – pelo que se espera de figurões do Ministério da “Cultura” -; e segundo por estarem como donos de uma situação que representa algo muito interessante para o país.

Software livre. Cultura colaborativa. Creative Commons. Cultura digital. Foram estes os temas debatidos num tempo estreito, mas proveitoso.

As reflexões sobre os assuntos comentados me seguiram até o almoço, quando voltamos para o Hotel Vila Velha. Lá reencontramos os “turistas”, e nos programamos para os horários da tarde e noite. Dentre as atividades listadas, estava a ida a rave Pulsar; eu mal podia me conter para dançar e chutar o meu All-Star no ar.

Na verdade, eu não podia é imaginar que não dançaria metade do que achava.

A tarde se seguiu normal, tranqüila. Até irmos ao show relâmpago, no começo da noite, de Chico César e o Quinteto da Paraíba, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves: um agrado aos ouvidos. Novas composições que mais pareciam pequenos contos cantados, numa afinação e maestria dos presentes que era de encher os olhos (?) de qualquer leigo. Dos quais eu era um.

Pena ter sido uma apresentação breve.

Depois disso, demos um pulo ligeiro no Hotel para uma ducha esperta em nossos corpos, visando um melhor odor para o restante da noite, e voltamos ao Teatro. O lance agora se concentrava em conferir as apresentações restantes e tomar o rumo da balada eletrônica. Algo que aconteceu por volta das onze e tantas, quando um grupo até pequeno de participantes do Mercado – e em sua maioria de alagoanos – subiu num ônibus fornecido pela organização do evento, que logo cantou pneus rumo ao Parque do Pituaçu.

Robertson, Miguel, Keyler, Tchello, Daniela, Ana e eu compúnhamos a cambada de pistoleiros da terrinha.

Após a meia-noite e meia, chegamos. Mas não sem antes enfrentarmos os malabarismos automotivos do motorista para conduzir o ônibus pelas estreitas ruas do parque, e de termos que apanhar outro transporte, uma van da própria rave, para chegarmos ao centro do evento propriamente dito. A coisa ficava realmente escondida por lá – e um verbo bem presente durante toda a noite a partir de agora.

Meus pés já tocaram o chão levantando poeira. O ritmo do trance estava por todo lugar. Encontramos um ponto legal no ambiente principal e começamos o ritual desorganizado de cada um dançar a seu modo. E alguns fizeram do Carlton que eu carregava seu querido acompanhante noturno, disparando sua leitosa fumaça nas dominantes vibrações do batidão.

E eu?

Bem, eu consegui uma acompanhante mais interessante, de carne e osso e cumplicidade. Enquanto alguns artistas faziam malabarismos com labaredas de fogo ardente, clareando as proximidades, nós procuramos nos ocultar de olhares intrusos na escuridão.

Pouco mais de três horas depois, a rave havia, então, acabado para nós, que voltávamos para o Hotel com sorrisos cínicos e embriagados em nossas caras, em lugares separados no ônibus. O dia havia nascido e parecia simbolizar que nada, de fato, tinha acabado: era apenas um interessante e significativo começo.

EU VIM COM A NAÇÃO ZUMBI!

Dia 11|12|05

Deus, já era domingo ao chegarmos da Pulsar. O último dia de Mercado.

Alguns estavam embriagados de álcool, e todos outros de sono, ao cruzarmos a entrada do Vila Velha. A única coisa que fazia de nós seres despertos era a fome que sentíamos. Com o café para ser servido dentro de dez minutos, tomei o elevador e segui para o quarto: como eu queria um banho frio para ficar um pouco mais desperto.

No final das contas, desci depois de trinta minutos. Não só por causa do banho, mas devido a problemas ocorridos no elevador durante a descida. Não que tenha sido “algo importante”. São apenas “pequenas” coisas que ninguém precisa ficar sabendo. Depois desse fato, eu só queria saber de encher a barriga e aproveitar aquela manhã livre de conferências para dormir. E sonhar com sorrisos pontuais e possíveis surpresas.

Fomos para rua só no meio da tarde. Na verdade, alguns já tinham seguido na frente para o último dia de feira. Enquanto isso, Ana e Daniela permaneciam sonolentas em seu quarto. Robertson, eu e mais alguém que não lembro agora colocamos os pés em movimento. Chegamos na hora de desarrumar o stand: restava cerca de uma hora para a batucada mangue-roqueira da Nação Zumbi.

Quando nos aglomeramos na ponta ofensiva da concha acústica do Castro Alves, já estava na hora da banda de abertura tomar seu lugar. E subiu ao palco o grupo colombiano Curupira, nos enchendo com um ritmo latino constante e alegre. Os sujeitos levantaram fácil, fácil a audiência. Dando um baile federal em todos os outros estrangeiros que se apresentaram durante o Mercado.

Aplaudimos com entusiasmos ao final de sua apresentação, eles liberaram o palco para uma breve arrumação de instrumentos e outros equipamentos. Eu, de olhos atentos, permanecia de pé, fumando um cigarro de palha e torcendo para que a nicotina não me deixasse lento, apenas me acalmasse brevemente. Foi então que gritos desordenados surgiram de toda parte, e meus braços não se contiveram. Nem minha garganta.

Num show de tiro curto, Du Peixe e o bando nos energizou com as batidas da nova ciência mangue realizadas por eles, assim como as velhas fórmulas certeiras do Mestre Chico. Composições capazes de torná-los certamente distintos: Enquanto o falecido líder dos zumbis fazia da Nação algo parecido com os morto-vivos de Extermínio – rápidos, ágeis e vorazes –, a atual formação se acalmou em parte, preferindo um estilo mais George Romero de ser; mas tão eficiente quanto. Pelo menos, essa é a constatação a que um fã puxado para o leigo, como o meu caso, poderia chegar.

O que importava, no final, era que a Nação e sua vibração lá estavam. E fomos todos zumbis. Pulando. Sacudindo. Gritando até que a maré enchesse. Parando o ritual apenas aos quarenta e cinco do segundo tempo, última música, quando um fã se lançou ao palco, fazendo despertar nos seguranças seus ensinamentos em artes marciais. Quando gravatas ferozes foram dadas, os músicos interromperam o show, pedindo para que a contenção do fã rolasse de modo mais civilizado. Mas a coisa só aumentou e piorou quando o público meteu o bedelho.

O agarra-agarra de seguranças e do único fã, pois é, só cessou quando o baixista da banda se agarrou com o rapaz, obrigando os truculentos protetores privados a se conterem. Com a calmaria, Du Peixe teceu comentários reflexivos e a banda deixou o palco, deixando a música sem final até hoje. Qual era a música, Sílvio Santos?

Da lama ao caos.

Nada é coincidência, no fim das contas.

SETE DIAS DA VITÓRIA

Segunda-feira. Dia de fechar a conta e voltar para a terrinha. Para a vida normal e todas as outras coisas normais para se fazer e resolver. Pela frente, cerca de oito horas de viagem. Eu tinha duas opções: A primeira, ler Cem Sonetos de Amor. A segunda era a de simplesmente aproveitar aquelas horas da melhor maneira possível.

E o livro do Neruda nunca saiu da minha mochila.

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“Nós precisamos fazer as pinturas das cavernas do Século 21.”
- Grant Morrison

Direto da San Diego Comicon, um dos debates mais interessantes (e nerds) sobre quadrinhos do momento: Deepak Chopra e Grant Morrison, que lançou a sensacional frase citada e linkada acima.

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Se o Jack Bauer conseguir escapar dos chineses, assim como o Vic Mackey da Corregedoria da Polícia norte-americana, nem mandando esses caras pra ilha do Lost você vai conseguir pará-los.

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