BIT HUNTER GIRL ficou na geladeira por quase um ano, ou um pouco mais do que isso, pela ausência de um ilustrador capaz de atender ao gostinho pessoal da minha proposta. Minha idéia, basicamente, consistia em elaborar um quadrinho infantil genérico de ação, mas que tivesse certa qualidade. Eu não tinha a intenção de criar nada, mas de treinar.

Sabe, antes de escrever, eu desenhava. É. Admito que tinha lá certo talento, nunca desenvolvido pela minha pouca paciência em praticar todo o dia. Cheguei, só para acrescentar alguns dados do meu histórico, a comprar aqueles cursos de banca que garantiam fazer de você um desenhista de Histórias em Quadrinhos. Foi o boom da época. E, finalizando o flashback, fiz até curso de desenho foto-realístico. Pela metade. Mas não por minha culpa: pela falta de alunos (ou por só existirem três pessoas fazendo), o processo foi cancelado quando iam começar as aulas de perspectiva.

O revival acima foi para explicar o seguinte: uma das coisas que te recomendam quando você está aprendendo a desenhar histórias em quadrinhos, é copiar páginas de seus desenhistas favoritos. Ou dos grandes mestres. Enfim. Basicamente, a metodologia primitiva para se aprender todos os conceitos básicos de ilustração seqüencial encontram-se nessa atividade. Com o tempo, você pega o suficiente para caminhar com as próprias pernas e começa a procurar referências em outros artistas, assim como em mídias diferentes.

Digamos que, para se ter os manejos de escrever um roteiro de quadrinhos, é necessário ler, observar e pontuar as principais características elaborativas de seus escritores preferidos. Ou dos grandes mestres, haha. É uma das dicas comuns do Warren Ellis quando ele, vez por outra, se dá ao trabalho de explicar como funcionam as coisas por trás do teclado. E que é uma das mais puras verdades relativas ao assunto em questão.

Figuras como o próprio Ellis, Grant Morrison e Alan Moore foram essenciais como fontes para o desenvolvimento de BIT HUNTER GIRL. Mas não, não espere referências a eles nas histórias. Estou falando aqui do antes, do processo de criação.

Observando a bibliografia dessas três figuras, podemos encontrar produções de altíssima qualidade que podem ser classificadas como remix. THE AUTHORITY foi a versão barra-pesada de qualquer super-equipe padrão, e que tinha no elenco versões homossexuais do Super-Homem e Batman. Em JLA, conceitos e histórias da Era de Prata ganharam roupagens contemporâneas. E SUPREMO é o Super-Homem que todos nós queríamos ler.

Agora, imagine a seguinte situação: eu sou apenas um jovem aspirante a escritor de quadrinhos, e tenho exemplos, iguais aos dados acima, como referenciais. Quero testar o meu taco e mostrar que posso fazer jogadas parecidas na mesa ficcional. Então, por que não remixar?

BIT HUNTER GIRL surgiu numa viagem inconsciente do tipo, num dia em que eu voltava para casa num ônibus lotado, de pé no meio de tanta gente. Eu ia fazer uma HQ infantil de ação com narrativa ágil, diálogos legais e personagens icônicos e reconhecíveis.

Agora, eu precisava de um desenhista.

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