Porque fantasia medieval pode ser bonita com pouco pieguismo

Anos atrás, assisti pela primeira – e durante muito tempo única – vez o movie Escaflowne: A Girl in Gaia (2000). Realizado pela Sunrise (Gundam) em parceria com a Bandai (Eureka Seven), a produção foi inspirada na série animada para TV Vision of Escaflowne, de 1996. Restaram então, na minha memória, duas fortes imagens: uma do início e outra do fim do filme.

A primeira mostra um dos protagonistas da trama, o jovem espadachim Van, cortando o belíssimo céu de tons azuis como um míssil humano em direção a um enorme dirigível inimigo. Ao invadir o veículo voador, ele empunha sua afiada espada e só volta a embainhá-la quando não resta mais adversário algum de pé. Por toda parte da embarcação, silêncio no ar e sangue no chão e nas paredes.

A segunda, já numa das seqüenciais finais da história, mostra o Escaflowne do título – lendária armadura que representa o Deus da Guerra – completamente descontrolado, destruindo tudo ao seu redor. E a única coisa capaz de impedir que o mundo de Gaia vá pelos ares é a estudante Hitomi Kanzaki, a outra protagonista e possível reencarnação da Deusa das Asas, ser destinado a salvar àquele planeta.

Motivado pela agradável recordação das cenas registradas em minha mente, decidi – quando tive a oportunidade – assistir novamente o filme animado. E após rever a introdução matadora com Van, observando atentamente as decapitações e jorros de sangue, foi impossível não ser fisgado pela curiosidade mais uma vez.

Apresentação que pode ser interpretada como um artifício, uma jogada esperta por parte do diretor Akane Kazuki. Já que, a partir dela, o roteiro – assinado por Kazuki ao lado de Ryouta Yamaguchi (Cowboy Bebop, Ranma ½) – diminui a marcha, revelando ao telespectador a faceta da outsider Hitomi.

Ela é quem nos conduzirá a Gaia, mundo paralelo a Terra (mas invisível aos habitantes do planeta azul), que vive um estado de guerra permanente contra as forças do Clã dos Dragões Negros. Estes, liderados pelo vilão-mor do filme, Lorde Falken. Para derrotá-lo, Hitomi, a provável reencarnação da Deusa das Asas, precisa se unir a Van e dar vida a armadura Escaflowne, avatar do Deus da Guerra.

Para ajudar o casal de heróis nessa empreitada, temos o habilidoso e boa pinta Allen Schezaar, líder dos Abaharaki – uma milícia formada por sobreviventes das nações destruídas pelo Clã dos Dragões Negros.

A introdução de personagens coadjuvantes e novos elementos à trama seguem um ritmo cadenciado, mantendo uma postura séria ao roteiro da mesma. Podando da narrativa os constrangedores exageros comuns de certos animes. Essa moderação também pode ser encontrada nas falas dos personagens, sempre diretas, enxutas. Deixando que as imagens e o contexto trabalhem parte da história, levando o telespectador através de um deleite visual de fantasia medieval. Deleite sonoramente preenchido pelo talento arrebatador de Yoko Kanno, compositora de trilhas sonoras excepcionais, como a da série Cowboy Bebop.

E o que poderia ser o maior ponto contra a produção – o fato dela se basear numa série de 26 episódios -, pode ter sido a saída para o bom exercício de condensação e subjetivismo que vemos no desenho. É o que sustenta a simplicidade da trama e dos personagens, enriquencendo-os em certos aspectos. Estabelecendo um equilíbrio maturo entre obviedade e desenvolvimento, transformando Escaflowne: A Girl in Gaia um longa de animação acima da média.


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