
Bruno Davert, executivo da indústria do papel, está desempregado há dois anos e meio. Suas parcas entrevistas em novas empresas são frustradas por seu ar arrogante, caracterizado nas respostas afiadas lançadas contra seus entrevistadores. Para manter o pouco que sobrou do antigo modo de vida de sua família, Marlène Davert, sua esposa, precisa ora trabalhar na bilheteria de um cinema, ora cumprir meio-expediente como auxiliar de enfermagem. Fase complicada que está afetando o ocioso filho mais velho do casal, Maxime, que, sem internet, TV à cabo e outras mordomias, procura outros meios de se divertir.
Partindo dessa premissa bastante corriqueira nos atuais dias de globalização alucinante nos quais vivemos, o diretor grego Costa Gavras (Z, Quarto Poder) elabora uma excepcional história que tem como forte característica principal a tenuidade. A trama, baseada no livro “The Ax”, de Donald E. Westlake, e co-roteirizada por Gavras e Jean-Claude Grumberg, trabalha o drama e um refinado humor negro sem distinções ou concessões, acrescentando pitadas de suspense criminal. No começo do filme, temos a idéia de que será difícil nos permitir sorrir no desenrolar dos eventos – mas as risadas rasteiras virão, e serão bem-vindas.
Davert, um dos muitos funcionários demitidos de sua empresa quando esta se fusionou com àquela que a comprou, não suporta mais o momento que passa. Decidido a virar o jogo, ele coloca como meta recuperar seu antigo posto. Mas, para evitar quaisquer complicações, percebe que o ideal é acabar com a concorrência. Literalmente. E é a partir daqui que o mundano ganha traços de loucura: Bruno, munido da pistola Luger de seu pai (um ex-oficial da SS de Hitler) e de uma frieza ora assustadora ora cômica, vai à caça de seus rivais tendo como base seus currículos. Para voltar ao topo, ele precisa eliminar cinco candidatos, além do atual executivo da empresa.
Sem José Garcia, o Bruno Davert, “O Corte” seria um bom filme. Nada além. Mas é sua atuação magnífica que eleva a película a algo fantástico. Os inúmeros trejeitos e truques utilizados pelo ator francês tornam cada situação única. Sua expressão facial é uma massa de moldura, pronta para receber a próxima sensação. Não há como duvidar do realismo de suas intenções como personagem. Uma verdadeira aula de atuação. Karin Viard, que interpreta a esposa alienada e carente, mostra competência e não deixa a peteca cair quando surge em cena. Os jovens Geordy Monfils (Maxime Davert) e Christa Theret (Betty Davert) dão o brilho final à tela – e Christa passa por uma prova de fogo ao encarar uma engraçada cena na qual mostra rastros de suas nádegas para um bando de policiais marmanjos.
A fotografia de Patrick Blossier dá um ar de limpidez à câmera de Gavras, possibilitando a filmagem de uma Europa reluzente. Que, segundo o diretor nos faz entender, esconde parte da sujeira debaixo do tapete, mantendo a boa pose com uma frieza invejável. Tudo causado pelo do capitalismo selvagem e suas pressões cotidianos por status, imagem, sucesso pessoal. Trinômio que é a base da busca do protagonista, e que constitui um retrato caricato contemporâneo de certos segmentos sociais. Uma obra de referência.