Erica Awano não deve abrir mão de um bom filtro solar ultimamente. Descendente de japoneses, a moça de olhos puxados e de corpo pequeno e pálido anda aportando freqüentemente em solo nordestino nos últimos tempos. Requisitada para eventos de mangá e anime em estados como Sergipe e Pernambuco, a desenhista finalmente aportou – para a surpresa de muitos – na capital alagoana. Sempre com um sorriso no rosto e uma acessibilidade incrível, ela veio participar do Daisuke, encontro sediado nos dias 9 e 10 de dezembro no CEFET.
Formada em Letras pela USP, Erica ficou conhecida no circuito nacional de quadrinhos ao desenhar a mais bem-sucedida série mensal brasileira dos últimos anos: Holy Avenger, escrita por Marcelo Cassaro, que durou 40 edições e mais alguns especiais. Artista talentosa e profissional cumpridora de prazos, ela veio à Maceió para um bate-papo com os fãs e para ministrar uma oficina sobre técnicas de ilustração para quadrinhos no estilo mangá. E foi no sábado 09, tarde ensolarada e preguiçosa na capital do Paraíso das Águas, que Erica subiu no palco do auditório do CEFET, puxou o microfone e, num caloroso tom informal, falou sobre sua carreira, Holy Avenger e o quadrinho nacional.
PEQUENA ESTATURA, ALTA VISÃO
Com pouco menos da metade do auditório preenchido, a organização do Daisuke interrompeu a exibição de animes para dar início a palestra da mangaká Erica Awano. Já devia passar das quatro horas quando a desenhista pediu que a audiência optasse pelo tipo de conversação preferida: uma palestra, onde ela falaria, falaria, falaria, e nós ouviríamos, ouviríamos, ouviríamos; ou um bate-papo a ser iniciado por uma breve apresentação de sua carreira, para que depois fosse aberto o espaço para perguntas da platéia.
Escolhido o modelo número dois, Erica deu início ao relato de seus percalços profissionais: parida para o mercado nacional inicialmente na revista Megaman, seu primeiro trabalho realmente profissional foi na mini-série Street Fighter Zero 3, lá pelo fim da década de noventa. Marcelo Cassaro, o roteirista da referida HQ, ao provar parte do potencial da desenhista, decidiu investir pesado naquele novo talento. E a convidou para participar de uma nova série mensal, a Holy Avenger, da editora Trama (posteriormente Talismã).
O que parecia ser mais uma frustrada tentativa de publicação tupiniquim em suas próprias bancas, tornou-se um verdadeiro ponto de referência no mercado e um sucesso que não se via há mais de trinta anos. Com 40 números publicados, além de algumas edições especiais (além das republicações interrompidas), Holy Avenger criou um público cativo e raro em solo verde-amarelo. Hoje, a criação de Cassaro e Awano é negociada com um patrocinador secreto para transformar-se numa série animada de três temporadas ou numa animação de longa metragem para os cinemas.
Sobre as negociações envolvendo Holy Avenger, Erica não trouxe grandes novidades. Do dia em que saíra de São Paulo para participar do evento em Maceió, o potencial patrocinador não havia dado o retorno definitivo para que se começasse a produção – apesar disso, diversos storyboards dos episódios da primeira temporada já foram elaborados.
Atualmente, a ilustradora atua no lápis da série bimestral Dragon’s Bride, publicada na revista de RPG DragonSlayer – onde, mais uma vez, seu parceiro é o escritor Marcelo Cassaro – e na minissérie Ethora: O reino do esquecimento, com roteiro de Beth Kodama, para a editora Kanetsu Press.
Com o fim do ciclo de perguntas óbvias sobre Holy Avenger, a língua afiada de Erica teve a oportunidade de comentar um pouco mais sobre o “quadrinho nacional”. Na opinião da desenhista, ela – assim como as pessoas com as quais trabalha – não faz “mangá nacional”, mas quadrinho nacional. Não importa se no miolo os olhos são grandes e cintilantes, ou mesmo que a escola na qual as histórias se alicerçam seja estrangeira, mas no fato de existir um “jeitinho” brasileiro em algum lugar.
Para melhor explicar seu ponto de vista, ela utilizou exemplos tirados do mundo da prosa: Machado de Assis e Edgar Allan Poe. Awano comentou que, na bibliografia dos autores, há contos que se chocam pela similaridade das histórias. A desenhista não lembrou o nome correto das obras – e eu não consegui nada no Google –*, mas afirmou que ambas giravam em torno de um homem que fora contratado para cuidar de um rico velho excêntrico. Nas duas tramas, seus respectivos protagonistas passavam por diversas humilhações nas mãos dos patrões; em certo ponto, eles acabavam por matar os velhinhos irritantes.
A diferença, ressaltou Erica, estava em como os casos foram encerrados.
Na obra de Poe, o remorso levou o protagonista até o limite, fazendo com que o próprio se delatasse mesmo quando as investigações não apontavam para ele. Na mão machadiana, o personagem principal também foi afetado por um sentimento de culpa; mas o caráter um tanto quanto corrompido do brasileiro fez com que ele mantivesse segredo sobre seu crime e desfrutasse da dinherama do ex-patrão.
O ponto de vista cultural. Foi este o elemento que ela quis destacar para que qualquer artista brasileiro possa se encontrar na sua produção. E não achar, por exemplo, que dar nomes “japoneses” aos seus personagens fará do seu “mangá nacional” melhor que os outros – algo que me arrancou um sorriso irônico e me fez pensar em toda a molecada fanzineira alienada de sempre. O estilo – no caso, o mangá – nada mais é do que uma plataforma para você remixar o que vem de fora e mixar o que vem de dentro.
E quando remixar, tenha a certeza de fazer corretamente: dois casos contados pela Erica arrancaram risos da audiência. O primeiro deles foi sobre um fanzine de samurai feito por um adolescente brasileiro. Na história, o samurai meditava recostado numa cerejeira (segundo a desenhista, um dos maiores clichês nas histórias de samurai). Até aí, nada demais… se o autor não tivesse especificado que a história estava se passando no mês de outubro, quando o Japão está enfrentando o inverno – e o espetáculo do florescimento da cerejeira só acontece na primavera, no começo do ano, num período de uma semana. Razão pela qual ela é tão cultuada por lá.
O segundo trata de um sujeito que lançou seu mangá nacional como um mangá oriental – com a leitura de trás para frente, da direita para a esquerda. E foi execrado pela crítica e pelos leitores do gênero em diversos fóruns na internet. Afinal, a leitura invertida não tem necessariamente a ver com o estilo de quadrinho nipônico, mas com o fato de que é assim que eles lêem na terra do sol nascente. E o negócio é ainda pior do que parece: o autor achou que a leitura ao contrário era feita apenas com a inversão da página no modelo ocidental. E quando fez isso com as suas páginas, destruiu boa parte da lógica da narrativa.
Nesse momento, Erica Awano não era apenas a desenhista de Holy Avenger, o sucesso-que-muitos-não-viam-há-anos-nas-bancas-brasileiras, mas uma palestrante ciente do que verbalizava. Mesmo com o tom de “eu faço quadrinhos nacionais”, ela reconheceu que a não-existência de um mercado sério e bem estruturado faz com que essa definição seja vaga – qual é a verdadeira cara do quadrinho tupiniquim se a produção é pífia e de má-qualidade (em sua maioria)? Ela apontou também que o (possível) caminho para algo com a nossa cara não está em “fazer histórias sobre índios” - argumento aplaudido por qualquer pretenso escritor de quadrinhos neste país com mais de dois neurônios –, mas na diversidade de nossa sociedade. Levantando, já na última parte do bate-papo, suas analogias mais certeiras e afiadas.
Voltando-se para a questão da contextualização de histórias em solo brasileiro, Erica comentou achar curioso que num país como o Brasil, com tantas religiões diferentes convivendo tão próximas uma das outras, nós nunca enfrentamos conflitos como no Oriente Médio. O que há por trás de uma sociedade como a nossa que permite isso? E tal fato já não seria por si só um bom caldo para se ambientar ou se inspirar uma trama com o nosso ponto de vista? Considerando que podemos, pelo menos no meu raciocínio, implementar qualquer gênero de ficção seguindo esse pensamento – ou você é daqueles que acha que Cidades de Deus é só um filme “sobre a realidade das favelas do Rio” e não uma grande história de gangster à brasileira?
No meio dessa discussão, o que mais me espantou foi quando Erica se voltou para a história do nordeste: como boa graduada em Letras, ela citou a época em que, graças à produção da cana-de-açúcar na região, o nordeste era a base sócio-econômica do país. Com isso, a Literatura produzida aqui era levada em alta conta. Quando o centro econômico foi levado para o sudeste, a Literatura dos autores nordestinos foi denominada de “regionalista”, e os escritores de São Paulo diziam buscar e produzir a verdadeira Literatura “Brasileira”. Segundo Awano, uma contradição, já que eles se valiam de modelos europeus para elaborarem suas obras – e as tais obras “regionalistas” eram tão brasileiras e universais quanto as deles. E citou Guimarães Rosa como exemplo maior.
A conversa terminou com o tom informal que teve no início e, no meio de todas as minhas reflexões e excitações sobre quadrinhos pós-palestra, acabei me perguntando: Tem como não cair na conversa de uma mulher inteligente e que te faz rir?
(*) O Fábio Souza, do mundesing.org, deu a dica nos comentários: o conto do Machado de Assis se chama “O Enfermeiro“. Nada ainda sobre o conto do Edgar.

