Creio que o problema de qualquer abstinência, quando a mesma se encontra no que se chama de “estágio avançado”, é quando a mente começa a ferrar o corpo para valer. Lendo Junky, do beatnik William Burroughs, é surreal descobrir os problemas que um viciado em heroína, quando está sem a droga, enfrenta – de feridas que emergem do nada à orgasmos que ganham vida depois que a sua pele resvala numa fria superfície de metal.
Há mais de um mês, eu me encontro sem escrever um pingo de ficção. Ou mesmo uma crônica ou uma resenha cinematográfica.
Esqueça a porcaria do writer’s block. Eu estou verdadeiramente doente, e os sintomas são os mesmos das vezes anteriores: pensamentos depressivos e auto-depreciativos, pouca vontade de viver, cansaço físico além de normal, irritabilidade com familiares, identidade confusa. Como Burroughs em sua cela de prisão apertada, eu estou com a doença da droga e preciso sarar logo. No entanto, diferente do clássico escritor, preciso do pico na minha mente, preciso do vício emanando dos meus dedos.
Brian K. Vaughan afirmou que o bloqueio de escritor é um desculpa para jogar videogame. Eu já passei da minha fase de aturar videogames, mas entendi sim que a definição do criador do Último Homem não pára por aí. Até a dica dele de prática diária é interessante, mas me falta a força de vontade necessária no momento: depois de trabalhar oito horas diante de um computador, rola uma certa brochada quando você volta para casa e tem que encarar outra telinha virtual.
Mas as conquistas pessoais nunca vêm fácil, certo?
E olha que eu tenho um bocado de coisas sobre as quais escrever – dezembro, por exemplo, foi um mês pra lá de interessante e repleto de situações divertidas; eu li Filhos de Anansi, Alice no País das Maravilhas e o citado Junky; fui maltratado, junto com a Ana, por uma senhora carcomida pelo tempo por causa de uma droga de guarda-sol; assisti uma pá de filmes na telona e na telinha; e emendei o ano novo com pouca grana, já destinada para os shows da Marisa Monte e Nação Zumbi (decepções em níveis diferentes, infelizmente).
Como um monte de sites de cinema, blogs e etc., fiz uma listinha do que assisti por ordem de preferência e dividido em duas categorias (cinema e DVD), mas estou sem coragem de postar sem os devidos comentários – principalmente para justificar certas coisas, como o primeiro lugar na categoria cinema, um drama argentino proletário. Não que eu deva satisfações, mas seria mais legal tentar provar por que 2+2=4, sabe.
E nem comentei aqui meus ‘projetos’ de histórias em quadrinhos, veja só.
O importante é que, com este texto, a doença do bloqueio começa a ceder. Eu só preciso vencer o sono e apagar as oito horas anteriores diante da máquina do trabalho. Preciso apenas ver um pouco o mundo como a Ofélia, saborear o inimaginável e criar. Só isso.
(E comprar um novo maço de cigarros.)



