É preciso dar o braço a torcer em certas ocasiões: a Guerra Civil deflagrada pela Marvel, afinal, deu cria a algo potencialmente interessante. Foi a esta conclusão que cheguei ao ler Thunderbolts #111, segunda edição do britânico Warren Ellis à frente da série que, na premissa de seu criador, Kurt Busiek, mostrava vilões convertendo-se em super-heróis.

Ellis dá uma nova perspectiva ao conceito da revista: os vilões, agora, são forçados a atuar para o governo norte-americano na caça dos heróis que, ao não aceitarem o registro de super-humanos estabelecido no país, vivem na ilegalidade. A equipe, transformada num tipo de instituição de segurança meta-humana e vendida à mídia de tal maneira, é liderada por Norman Osborne, o Duende Verde original – que recebeu o perdão presidencial e carta branca de Tony Stark, o Homem-de-Ferro, para assumir tal cargo.

Na primeira parte de Faith in Monsters (Fé em Monstros), o cenário descrito acima é estabelecido pelo roteirista com precisão, mas sem necessariamente se estender a qualquer outro ponto da mitologia, digamos assim, que está se estabelecendo para o título. Mike Deodato, o nosso velho paraibano Deodato Borges Filhos, que já havia trabalhado com Ellis na década de 90 em Thor, produz o seu feijão com arroz eficiente de sempre – referências fotográficas (de figuras famosas ou não) se misturam a construções anatômicas estilizadas. Rain Beredo, o colorista, dá um tom envelhecido às páginas do desenhista, que ora funcionam ora divergem, principalmente por causa da arte-final (do próprio Deodato).

Mas é na segunda parte, a edição #111, que o ‘algo mais’ dos Thunderbolts dessa nova equipe criativa se revela: Ellis afia mais os diálogos e a caracterização de Norman Osborne, provavelmente o melhor personagem até agora. As páginas finais, que revelam o desequilíbrio psicológico reprimido do antigo vilão do Homem-Aranha, prometem incrementar futuras atitudes do líder dos vilões-“heróis”. Deodato, por sua vez, ilustra competentes páginas de ação e não compromete, em nenhum momento, o roteiro. Algumas estilizações incomodam, principalmente em relação a ‘transmutação’ do Venom, mas é perceptível como ele se diverte seguindo a cadência do script.

Ellis, como é do seu feitio, brinca com conceitos contemporâneos como só ele sabe, e utiliza a mídia (vide Transmetropolitan) para desenvolver o pano-de-fundo da série – quem sabe uma crítica a manipulação de informação e a criação de ícones pop instantâneos. Num cenário pós-Guerra Civil da Marvel, como no próprio mundo real, essa abordagem cai como uma luva.