É como um chute rápido na sua cabeça, aquele em que a câmera fica nervosa e a imagem borra por causa da velocidade do movimento. Mas não te tira sangue e muito menos pedaço. Porque é forte como um chute, só que a função é a mesma de uma injeção. O telespectador menos atento não vai sacar a confusão que passa nessa tela imaginária, transmitida por um projetor que está lá no fundo do consciente – tangendo o subconsciente e confundindo as coisas.

O personagem principal é o foco dessa confusão. Ele precisa executar a ação daquela cena, mas a situação em si se encontra tão caótica que ele não sabe o que fazer primeiro. Até o cadarço desamarrado de um dos sapatos de tom bege é uma dúvida – “Será que isso também faz parte dos meus planos?”. E enquanto ele está chapado pelo caos, os coadjuvantes de sua trama ficcional de mentira (porque ela é de fato a vida real) ficam lhe aporrinhando por pouca merda ou desencaminhando sua trilha para os prazeres bobos-pop instantâneos.

Ele chegou ao chamado momento de conflito.

Depois de uma noite de loiras geladas em prisões de vidro e muita fumaça de roça industrializada, o protagonista ressacado vai para o seu trabalho-prisão e sente tudo muito lento. Ele próprio está lento. Tem saudade da co-protagonista, sua amada da cor da noite que, para aumentar a dramaticidade da nossa narrativa, foi colocada numa viagem à trabalho pelo digitador-deus. O herói, porque sendo protagonista ele tem tudo para ser o herói de sua própria saga urbana, precisa recuperar o foco.

É quando ele estende as mãos e toma de assalto o teclado do digitador-deus, que na verdade não passa de sua meta-personalidade refletindo sobre o atual estado de inércia e babaquice das coisas. Ele decide que é hora de retomar o controle da narrativa até que a meta-personalidade volte e ele tenha que se rebelar novamente, perpetuando esse ciclo de auto-descoberta infinita. E, olhando as coisas de cima, com um sorriso sacana na cara, ele ergue o dedo médio direito e manda todos à merda.

Ele está curtindo a mágica.