Maceió, o nome que batiza a capital alagoana, nasceu de uma expressão indígena do idioma tupi: Massayó-k, “o que tapa o alagadiço”. Li em algum livro ou numa matéria de jornal, porque a minha educação sobre a história do meu estado foi uma bela porcaria, que essa expressão também poderia significar “senhor do mar”. Ambas, considerando tanto a história quanto a geografia da cidade, têm bastante sentido.
Mas eu fico com “o que tapa o alagadiço”.
Porque eu gosto de imaginar que essa tradução, chamemos assim, referencia aos mangues encontrados comumente nas proximidades da faixa litorânea da cidade antes da colonização aqui chegar. Com o estabelecimento da ordem e progresso, o homem precisou aterrar o mangue para fixar sua morada, modificando a paisagem e transformando a natureza em estruturas cimentadas.
Esqueçamos por um momento que eu também sou filho do urbano e do tecnológico, e morreria de tédio depois de duas semanas numa área rural sem toda essa porcaria que injetamos em nossos cérebros para viver, para considerar a questão metafórica: porque eu quero dizer que nós somos aquilo que tapamos o alagadiço. Caranguejos disputando espaço na escuridão sob os galhos da vegetação vigente, ora nos protegendo ora garfando com as patas nossos supostos inimigos. Supostos porque, pela lógica do universo, nós somos irmãos e esse é o nosso espaço.
O nosso meio.
E é exatamente aí onde quero chegar: no nosso meio ambiente social e na hipocrisia clichê da classe média aparvalhada. Porque, vejam só, eles/nós – ou Os Outros, se você está por dentro dos esquemas pop contemporâneos – estão assustados com a violência que tomou de assalto as ruas, casas e estabelecimentos das áreas nobres da cidade de Maceió. E decidiram tomar uma atitude: fizeram uma passeata pela orla da capital, todos vestindo branco, pedindo paz.
Não venho por meio desta crônica ironizar a iniciativa, mesmo achando-a um desperdício de tempo, nem pelo motivo que a originou: dois filhos da classe média assassinados recentemente de modo brutal. Um deles, proprietário de um posto de combustível, foi alvejado por assaltantes que tentavam roubar seu estabelecimento. O outro, segundo os rumores, após discutir por causa de um rabo de saia num barzinho/boate da juventude abastada, foi fuzilado com dez tiros pela outra parte do bate-boca, que parece ter perdido a disputa.
As duas mortes revelam (mais uma vez) a fragilidade de uma sociedade que, diferentes daquelas que são reféns de traficantes e do crime organizado, sempre esteve encoleirada por oligarquias familiares. Elas que são responsáveis pela concentração de renda absurda existente em Alagoas e dos crimes de mando (ou pistolagem, se preferir) brutais que só aqui são tão corriqueiros. A pistola no coldre dos senhores do mar sempre regeu a Lei para aqueles que formavam a lama do mangue.
Mas o que me irrita é constatar uma classe média hipócrita, que não reconhece os pecados que ela própria cometeu e comete – e isso ficou bem claro no discurso do organizador da caminhada pela paz que aconteceu, e que assisti hoje no Jornal da Manhã, com Ricardo Mota. Quando entrevistado, o sujeito, um empresário que também se chama Pablo, disse, mais ou menos, que se “algo parecido voltasse a ocorrer no nosso meio, mais caminhadas seriam feitas”.
Ah…
Precisou que dois filhos de pais instruídos fossem mortos, mais uma vez, para que a classe média se apavorasse. Ignorando o fato de que um deles foi morto por um colega de mesmo nível social. O importante é que o “nosso meio” foi atingido, e precisamos tomar providências. Vamos nos vestir de branco e pedir paz para dormirmos mais tranqüilos. Com certeza, os pais e demais parentes dos rapazes assassinados vão se sentir vingados.
É claro que não vão. Ações como essas não podem nem ser consideradas paliativas. São ilusórias. E imagino que os familiares estejam se agarrando a qualquer coisa na esperança de que a justiça seja feita, e a eles dedico meus pêsames e energias positivas. Da mesma maneira que sinto pesar pelos filhos da periferia e de seus pais e mães, que nem caminhada pela paz tem.
Não que este seja um discurso engajado de um pseudo-esquerdista metido a intelectualóide social – mas de outro filho da classe média que sente desgosto com discursos de mau-gosto. Imagino que a iniciativa do empresário-xará tenha sido feita com a melhor das intenções, só fica entalado na garganta essa coisa do “nosso meio”. Porque Maceió, toda a cidade, é o nosso meio.
E você nunca se sentirá seguro numa cidade em que os pobres só ficam mais pobres e são jogados para debaixo do tapete sempre quando quem manda tem a oportunidade, onde dez filhos de famílias de sobrenomes fortes espancam quem querem e, quando a polícia prepara-se para fazer seu trabalho, levam uma carteirada e temem por sua vida. Informações dadas pelo próprio Ricardo Mota hoje, após a matéria sobre a caminhada pela paz.
A Matrix é mais tangível do que essa paz quando consideramos a realidade social do “nosso meio”, caranguejo.

