Ontem eu estava no ponto de ônibus, como de costume; depois das cinco e quarenta e sete da tarde, horário em que largo no trabalho. Sentado na murada miúda do canteiro de plantas do posto Texaco vizinho ao ponto, tragando tranquilamente minha palha industrializada enquanto esperava minha carona pública, abarrotada e atrasada. Tudo tão igual aos outros dias da semana.
Isso, claro, e aqui entra o twist duplo mortal da nossa pequena narrativa, até um senhor mirrado, trajando uma camisa regata cinza, bermuda escura e boné, com uma tatuagem para lá de desbotada no braço direito, sacar um .38. Balançando a arma no ar como se estivesse bêbado, rendeu dois adolescentes de rua que, minutos antes, haviam descido de um dos ônibus que parou no ponto.
Eu não faço a mínima idéia do que os moleques fizeram ou planejam fazer ali. E o coroa armado, que estava com a esposa, uma senhora de um cabelo loiro curto e mal-cuidado, simplesmente deixou todo mundo em pânico. Nada de gritos, apenas uma correria silenciosa. Porque em Alagoas, Paraíso da Pistolagem, o silêncio impera quando um cano de uma arma dança no ar.
Apenas muito tarde, percebi que as pessoas do meu lado haviam dado no pé para o outro extremo do ponto; enquanto o velhinho, que gritava “É polícia! É polícia!”, trazia os menores na minha direção. Meio que numa reação retardada – no sentido da velocidade e intelectual, porque a ficha não havia caído –, levantei da murada miúda do canteiro e segui para perto da parada de ônibus. De lá, observei o suposto homem de Lei revistar os moleques tranquilamente.
Depois da revista, mandou os dois se levantarem e, num grito, os fez voar como um míssil pela avenida Fernandes Lima, a maior da capital Maceió. Os dois sumiram no meio do tráfego congestionado. A arma ganhou o mesmo destino debaixo da camisa do velho, que foi até o posto conversar com os frentistas e com alguns clientes sobre o que se passou – e que, para mim, ficou incógnito pela distância na qual me encontrava para ouvir qualquer coisa. Em seguida, uma caminhonete do BOPE surgiu, estacionou – os dois policiais dentro dela tocaram dois dedos de prosa com o velhinho pistoleiro – e partiu. Ninguém sabe, até hoje, se o dono daquela .38 era mesmo um homem da Lei.
Fico imaginando o que vai acontecer amanhã, quando, de costume, eu estiver esperando o meu ônibus para ir pra casa.



