“Cidade Baixa”, filme dirigido por Sérgio Machado e co-roteirizado pelo próprio ao lado do excepcional Karim Aïnouz (O Céu de Suely), foca sua câmera no trecho geográfico inferior de Salvador. Da vida da comunidade pobre ao nível do mar. Visceral até a última cena do rolo, tem como alicerce os mais que competentes – e hoje globais - Lázaro Ramos e Wagner Moura nos papéis principais masculinos e Alice Braga, a próxima hollywoodiana tupiniquim, como catalisador da tensão que toca a história.
São esses dois atores, principalmente Lázaros, os chamarizes da mais nova incursão da cinematografia nacional na Cidade Baixa da capital baiana. Em “Ó Paí, Ó”, título que vem da expressão regional que significa algo como “olhe aí, olhe” (e similares), adaptação de uma peça teatral, essa incursão está a milhas de distância da visceralidade da película de Sérgio Machado. Não só na intenção como na qualidade do produto final.
Tendo como proposta principal mostrar o outro lado do carnaval de Salvador, e utilizando para tanto o ponto de vista da população do Pelourinho, “Ó Pai, Ó” peca principalmente pelo caricaturismo. Não há reflexão que possa ser levada a sério num filme sem um fio condutor decente em seu roteiro. Lázaro Ramos, que vive Roque, um pintor de carrinhos de café e cantor nas horas vagas, é o estereotipo do baiano legal e descolado que todos estão cansados de ver – e um grande desperdício, considerando a capacidade do ator. Wagner Moura, o negociante de coisas escusas Bocão, usa trejeitos a lá Murilo Benício em “Pé na Jaca” para caracterizar seu personagem, tão desnecessário no contexto geral do filme, mas escada para a única cena decente do filme, quando Roque lhe dá uma esbaforida lição de moral. E se alguém conseguir situar a ex-vocalista da banda Cheiro de Amor, outra recente global, na conjuntura do filme, além de mostrar os seus compactos dotes corporais, por favor, o faça.
A proposta do filme é louvável, mas não há como ser condizente com o mesmo. Principalmente depois do seu final anti-climático e sério, tão dispare do que a história havia sido até ali. Acabou que, com o subir dos créditos finais, conclui que teria sido melhor Ana e eu termos ficado na outra sala de cinema, na qual passava “300” e que entramos por engano, só percebendo o erro quando o logo empoeirado da Warner deu as caras. Leônidas e seus go-go boys tinham mais a dizer sobre alguma coisa do que o arremedo de história criada por Monique Gardenberg.