Se eu acreditasse em Deus, diria que hoje ele arriou as calças e colocou sua bunda cabeluda – porque Deus depilaria os cabelos da bunda, afinal? – sobre Maceió, só de sacanagem. Sua bunda, eventualmente, bloqueou o sol e lançou sobre nossas cabeças nuvens assustadoramente cinzas; daquelas de filme apocalíptico de algum arrasa-quarteirão de verão com orçamento inflacionado e efeitos especiais estilosos.

Mas eu não acredito Nele, e isso me impede, por questões de respeito aos amigos, parentes e desconhecidos que crêem em Sua pessoa, de começar esta crônica com a analogia pervertida e quase satânica do parágrafo acima. Porque só alguém tomado pelo Capeta – ou o próprio Demo – pensaria que um dia nublado teria a cara do fiofó cabeludo do Criador.

Independente de quem é o cu sobre nossas cabeças – e eu não quero nem pensar de quem é o pau que mijou por seis horas seguidas nesse arremedo de cidade –, hoje não era para ser um dia assim. Deveria mesmo não ter nenhuma nuvem no céu, evitando assim que o sol fosse atrapalhado por qualquer guarda-chuva natural. Mas talvez seja um pensamento muito Pollyana para uma sexta-feira. Imaginar que amanhã não é mais um dia de expediente poderia ser o bastante.

Mas nunca é.

PS.: (Imagine que este postscriptum foi anotado à mão numa folha de um bloco de notas. É neste que a crônica acima foi rascunhada. Apenas imagine, e assim o texto ficará um pouco mais romântico… romântico no sentido sujo dessa noção, daqueles autores que se embebedam e usam drogas e fumam compulsivamente e sofrem de amores perdidos e freqüentam cabarés e são uns perdedores que só serão reconhecidos após a sua morte. Fechamos o parênteses.)

Esta crônica foi escrita sobre o efeito do filme “O Cheiro do Ralo”, do diretor Heitor Dhalia, adaptação do livro de mesmo nome do (ex)quadrinhista Lourenço Mutarelli. Porque não há como sair imune das belezas e podridões que esta película é capaz de gerar. Uma delas é a fixação por bundas e analogias que ela traz, vista aqui no início do texto.

E por mais que a bunda de Paula Braun seja um monumento da natureza, é preciso exorcizar a coisificação filha da puta que o protagonista – vivido por um Selton Melo mais que inspirado – joga no teu cérebro como um meme do mau.

Saravá, Pai Frankenstein!