“Don’t believe the hype” foi a frase que ecoou na minha mente ao término da sessão de Harry Potter e a Ordem da Fênix. Pelo menos, em hypes como o promovido pelo Omelete. Leitor fiel de boa parte das resenhas - e dos resenhistas, conseqüentemente - cinematográficas do site, fiquei besta como eles se deram ao trabalho de encher a bola da adaptação do quinto livro da série comandada pela britânica J.K. Rowling; e ainda indicá-lo como provável melhor filme da franquia até agora.

Opiniões à parte, o quinto Potter está longe de bater o terceiro, …e o Prisioneiro de Azkaban, dirigido pelo excepcional Alfonso Cuarón (Filhos da Esperança). David Yates (The Girl in the Café), o segundo britânico a rodar um dos episódios da série cinematográfica, até se esforça nesse sentido. A seqüência de abertura, na qual Harry e Duda, seu primo, correm por uma enorme área rural e são pegos de surpresa por uma dupla de Dementadores, mostra que o diretor não está para brincadeiras.

Se Cuarón marcou o seu filme por trabalhar com precisão os elementos de inocência e podridão oculta desenvolvidos por Rowling no(s) livro(s), criando um modelo a ser seguido, Mike Newell (Harry Potter e o Cálice de Fogo) e agora David Yates não podiam deixar barato. Newell, que havia acabado de conduzir a direção do sem sal O Sorriso de Monalisa, teve certo êxito; mas não superou o antecessor. Yates, por outro lado, errou a mão.

Em pouco mais de uma hora e meia de exibição, a história caminha arrastada, com cortes bruscos e atuações levemente afetadas - algo que remete aos dois primeiros Potter, ambos do diretor Chris Columbus (Esqueceram de mim I e II). Pelo menos no que diz respeito ao casting infanto-juvenil. Emma Watson, a Hermione, não nos dá o gostinho das interpretações destacadas dos filmes de Cuarón e Newell. Em seu lugar, a novata e esquisita Evanna Lynch, atuando no papel da também estranha Luna Lovegood, é quem ganha destaque quando participa da película.

O roteiro também não ajuda. Considerando a história do livro, era de se esperar: a cada edição da série Harry Potter, a escritora J.K. Rowling vai aumentando o número de páginas; tanto para desenvolver melhor o universo que criou, como para colocar a molecada para ler mais (o que, neste caso, é sempre benéfico). Mas é sentido no filme que peças ou situações faltaram. Fatos revelados, como a trágica morte dos pais do coadjuvante Neville, pareciam carecer de mais relevância. No entanto, com o foco voltado para a estranha conexão entre Harry e Valdemort, o restante ficou espremido. E é aqui que Yates se perde.

Tentando conciliar seu estilo próprio, calcado na direção do elenco, com o da série, ele criou uma indecisão que incomoda o telespectador mais crítico. Há, sim, bons momentos nas interpretações de Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint, a trinca de protagonistas. Momentos que se perdem no decorrer da própria história que precisa ser contada; e aí vemos os atores com os botões de automático ligado. Inclusive os excelentes Gary Oldman, Brendan Gleeson e David Thewlis, espremidos pelo rolo-compressor dos 138 minutos da projeção.

O quinto Harry Potter vale pelos efeitos especiais e por certas seqüências de ação, assim como algumas risadas, mas de longe corresponde ao hype de costume do(s) estúdio(s) e de certos veículos de cultura pop.