Assistindo a um episódio da nova temporada de Family Guy, conhecido pelas bandas tupiniquins como Uma Família da Pesada, em sua nova casa (o canal FX), algo incomum aconteceu: eu simplesmente não consegui gargalhar genuinamente. E olha que sou, ao lado da Ana, um grande apreciador da série animada.

Tanto que, quando ela comprou o box com a primeira temporada, tiramos um sábado para assistirmos numa só tacada os dois DVDs do pacote. Rimos até não aguentarmos mais do humor besta e non-sense de Peter Griffin e sua família, cortesia do criador Seth McFarlane e um bando de roteiristas definitivamente chapados.

E aí você me pergunta se a série decaiu ou se o episódio em questão foi abaixo da média, pro que eu te digo que não tem nada a ver com nenhuma das duas coisas. O ponto se resume a um tema que vem incomodando boa parte da audiência brasileira: a dublagem.

ÁUDIO ORIGINAL vs DUBLAGEM

Mas quebrou a cara quem imaginou que eu iria reclamar da dublagem brasileira neste caso. Pelo contrário: é ela quem faz a diferença e deixa a série Uma Família da Pesada mais divertida. Porque no que diz respeito a desenhos animados, a dublagem brasileira dificilmente erra a mão - e cospe no prato que comeu aquele que disser que todas (as dublagens) se resumem a produções porcamente mal-adaptadas ao nosso idioma.

É claro que certas referências e artifícios do idioma original se perdem na dublagem, assim como o trabalho de voz de dubladores competentes (notem que estou na praia das animações, e não dos filmes e seriados live action); mas você só vai sacar certas coisas se realmente entende o idioma de origem, compadre.

No que diz respeito ao mundo da animação, somos agraciados com interpretações de merda apenas quando são empurrados globais e outros pseudo-famosos dentro dos estúdios de dublagem - manobras realizadas no intuito de chamar atenção do público para certas produções. Na maioria dos casos, recebemos dublagens excepcionais. Não é a toa que o dublador do Homem-Morcego em Batman Animated, a série noventista clássica produzida por Paul Dini e Bruce Timm, foi eleito um dos melhores do mundo a fazer a voz do personagem.

Infelizmente, existem coisas como a versão em português de South Park para nos envergonhar.

FILMES (NA TV) & SÉRIES

Não se dublam mais filmes e seriados como antigamente, tempos áureos da Sessão da Tarde. Qual a graça de assistir películas como Goonies e Curtindo a vida adoidado no áudio original? Nossa, seriados como Homicídio, MacGayver, Lei & Ordem (a série clássica), Nova York Contra o Crime, O Desafio… todos eram muito bem dublados e não destoavam da temática da série.

Não que eu seja a favor de assistir 24 Horas com aquela dublagem aterrorizante da Globo e da Fox - se depois da quarta temporada meu gás para as aventuras de Jack Bauer foi para o espaço, perder o áudio original me afasta completamente das exibições nas tevês fechada e aberta. Aqui funciona a teoria do costume, chamemos assim, na qual o telespectador está familiarizado a tempo suficiente com as versões dubladas que, para ele, assistir a versão com o áudio de origem não passaria de um mero ato de curiosidade.

Isso até pode ser verdade com séries e filmes exibidos nas tevês abertas. E seria mais verdade ainda SE a qualidade das dublagens destes segmentos fossem competentes como antigamente.

NA TELA GRANDE A HISTÓRIA MUDA

Se o filme em cartaz não for uma animação em longa-metragem, pode apostar que não irei assisti-la se a cópia em questão for dublada. Como foi o caso de Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado, que teve apenas uma cópia enviada para Maceió - a dublada! Bem capaz do filme sair de cartaz e eu ficar chupando dedo até chegar o DVD. Não só eu, imagino. Me dá um pavor nérdico imaginar que o filme de ação mais esperado do ano, Transformers, venha a ser exibido aqui com o áudio em português.

Fui convertido para frequentador de salas de cinema pela minha mãe, que me levava para assistir um bocado de coisas. Segundo a teoria do costume, minha mente só aceita que eu vá assistir filmes (com gente de carne e osso atuando) com o som original rodando porque fui condicionado para tal. O que, de certo modo, não deixa de ser uma verdade.

TECLA SAP?

Pode parecer estranho e contraditório, mas é a minha preferência: fico com minha versão dublada de Uma Família da Pesada com muito gosto. Mas se é para assistir 24 Horas, que seja para ouvir Jack Bauer gritar “Drop the gun! Now!” e ler a legenda “Largue a arma! Agora!” no canto inferior da telinha.