Paulo chega à faculdade de medicina em cima da hora. Puxa das costas forradas com o jaleco branco a mochila dos livros, sacando de um bolso uma caixinha prateada. Desta, leva a boca uma das duas pílulas de ecstasy que ainda lhe restavam. O barato bate ainda nos corredores do hospital universitário, a poucos metros da sala onde seu professor e companheiros de classe estudam o caso de uma paciente. A breve ambientação do filme é fechada com as preliminares de sexo casual que ele terá com uma das colegas de turma e com o encontro com Léon, estudante de Ciências Sociais com o qual divide uma casa humilde na periferia do Rio, para quem repete o seu lema: É proibido proibir.
Esta última seqüência parece anunciar que “Proibido Proibir” cairia no superficialismo da filosofia adolescente do personagem interpretado por Caio Blat. Mas o diretor Jorge Durán, que assina o roteiro ao lado de mais três colaboradores, não está interessado em simular falsa profundidade. A trinca de cenas existe para que a audiência possa se familiarizar de imediato com a casca externa do personagem Paulo, e, ao longo do filme, abri-la. Seu estilo de vida descolado e permeado por belezas fúteis serve de alegoria para a desconstrução que a câmera de Durán promove da cidade do Rio de Janeiro, pano-de-fundo da trama. Léon, interpretado por Alexandre Rodrigues, o Buscapé de Cidade de Deus, e Letícia, caracterizada sem muita eficiência pela global Maria Flor, são também agentes catalisadores dessa proposta.
Na história, Léon namora Letícia, estudante de arquitetura e filha da classe média. Quando é introduzida na vida cotidiana dos amigos, Paulo se sente atraído pela moça. A revelação desse novo sentimento para o personagem vem acompanhada da dissecação visual do Rio de Janeiro. Durán atravessa a camada aparente da Cidade Maravilhosa e nos mostra uma realidade plausível, onde a ação humana — os prédios mal-cuidados e abandonados — e a desumana — a violência surreal nas favelas — se confundem. Ele não age de modo a exaltar os aspectos chocantes do que capta, como Cláudio Assis em Amarelo Manga. A realidade emulada no roteiro faz esse trabalho por si só.
O mérito do filme está justamente no trato cadenciado de sua trama que, aliado a uma câmera bem pensada e atores imersos em seus papéis — com destaque para Blat, excepcional —, termina isento de um final feliz ou anti-climático. Como a própria vida, a história pela qual Paulo, Léon e Letícia passam não terminará naquele mirante com vista paradisíaca. Cabe a audiência se permitir imaginar que, um dia, eles estarão bem e resolvidos.