Quem me conhece bem, sabe da minha má-fama com comida. Meu cardápio é mais limitado do que “insira a sua analogia engraçadinha entre as aspas, por favor”. É motivo de discussões hilárias com a Ana, meus pais, avós e amigos. Apesar de reconhecer minha limitação, os esforços para tornar o meu paladar mais apurado são mínimos; algo que admito sem vergonha alguma por me considerar um tipo (in)comum de cara-de-pau. Foi difícil, no entanto, não ficar babando ao assistir a nova animação da Pixar: Ratatouille.
Sob o comando habilidoso de Brad Bird, a película animada não se restringe a ser deslumbrante apenas nos itens culinários que desfilam na tela diante dos nossos olhos - a textura e os gestos dos personagens, assim como o retrato fascinante da Cidade Luz, são de deixar qualquer telespectador embasbacado. O que há de melhor da animação norte-americana hoje tem gravada em si a marca da Pixar. O conteúdo de qualidade, outro fator importante do estúdio, está também presente, fazendo de Ratatouille uma de suas melhores produções.
Na história, o ratinho Remy tem na cabeça um sonho (quase) impossível de ser realizado: transformar-se num cozinheiro, um chef. Sua condição de rato torna, obviamente, tudo extremamente complicado. Morando no interior da França com uma colônia de ratos liderada por seu pai, sua vida dá uma guinada quando ele começa a acompanhar o programa de TV culinário do renomado Auguste Gusteau, chef do famoso restaurante Gusteau’s, em Paris. As coisas se complicam quando a proprietária do aparelho televisivo, uma velhinha solitária, apanha o protagonista em sua cozinha, bem no meio de seus ingredientes.
Após a colônia ser descoberta pela velhinha, os ratos precisam debandar o quanto antes. Na fuga através do esgoto, Remy se perde do pai, do irmão e dos amigos. E acaba parando na capital francesa, dando de cara justamente com o restaurante de seu ídolo - que morrera recentemente e teve seu posto de chef assumido pelo arremedo de gente Skinner, que se aproveita da boa fama do Gusteau’s para vender comida semi-pronta.
Através de Linguini, o jovem faxineiro recém-contratado do estabelecimento, Remy terá a chance de colocar em prática seus dotes culinários.
A tarefa de conduzir essa história ficou por conta do diretor Brad Bird, também responsável pelo roteiro do longa animado. O trabalho, no entanto, não surgiu da mente do mesmo diretor d’Os Incríveis: o animador Jan Pinkava, de Vida de Inseto e Toy Story 2, foi o responsável pela concepção original. Seu roteiro, entretanto, enfrentou problemas com os chefões da Pixar. Com o projeto prestes a entrar no cronograma de produção, Bird foi convocado em cima da hora para assumir o script e a direção do mesmo. E, sem dúvida, foi uma das mais acertadas decisões que [os chefes] poderiam ter tomado.
Com Os Incríveis, Bird fez o que Tim Story e a Sony/Marvel não conseguiram: uma das melhores aventuras do Quarteto Fantástico em muito tempo. Com Ratatouille, cozinhou uma bela história sobre a busca pelo sonho (aquele que todos temos em algum momento da vida) e a aceitação (por parte dos outros e de si próprio). Definição simplória, eu sei. Mas todas as sutilezas e reflexões que o filme traz só podem ser apreciadas, de fato, ao se assisti-lo. Um saboreio que não se dará com gargalhadas estrondosas, mas com risos gostosos e algumas lágrimas de emoção.
No meu ranking pessoal, os [meus] três longas preferidos da Pixar ficam entre Monstros S.A., o mais engraçado; Os Incríveis, os mais aventuresco; e agora Ratatouille, o mais tocante. E é justamente isso que eu espero do estúdio: mais.

