Em 1987, a editora norte-americana DC Comics publicava a graphic novel Batman: O Filho do Demônio (Batman: Son of The Demon, no original), escrita por Mike W. Barr e ilustrada por Jerry Bingham. Na história, o Homem-Morcego é obrigado a aliar-se a um de seus mais nefastos inimigos, o ‘imortal’ Ra’s Al Ghul. A publicação, no entanto, é lembrada por um polêmico sub-plot desenvolvido ao longo de suas páginas: nele, Bruce Wayne e Talia, filha do vilão, tem um filho.
Ao final da graphic novel, Batman é induzido a achar que Talia perdeu a criança, o que o faz desistir da idéia de construir uma família, voltando para Gotham e o combate ao crime. A vilã dá a luz a um menino e, em seguida, o deixa num orfanato. O garoto é então adotado por um casal ocidental. Seu único elo de ligação com os pais é um colar incrustado dado por Wayne de presente à sua amante.
O paradeiro do “filho do demônio” ficou nublado durante vários anos. Por um tempo, falou-se que sua história não pertencia a cronologia oficial do Universo DC, sendo um Elseworld (no Brasil, conhecido como Túnel do Tempo). Mas segundo declaração de Dennis O’Neil, ex-editor do grupo Batman e um dos escritores do personagem na Era de Prata, a graphic novel de Barr e Bingham fazia, de fato, parte da cronologia oficial.
Confusões temporais à parte, o escritor escocês Grant Morrison decidiu ressuscitar o plot do filho do Cavaleiro das Trevas ao assumir, na edição #655, a série mensal Batman ao lado do desenhista Andy Kubert. O arco em quatro partes, intitulado “Batman & Son”, apresentou Damian Wayne, a cria do maior detetive do mundo ao lado da terrorista Talia, que agora tocava os negócios do pai, o falecido Ra’s Al Ghul. Encarregado subitamente da guarda do garoto, Bruce Wayne precisou, enquanto combatia o crime em Gotham, controlar o ímpeto assassino de Damian - que, dentre diversas ações intempestivas, deu uma surra em Tim Drake, o Robin, por causa de ciúmes.
Após a conclusão do arco no número #658, Damian sumiu das páginas da série, aparentemente morto. Agora, na simbólica edição #666, ele retorna já adulto: num futuro próximo, ele é o Batman, o protetor da sofrida Gotham City. Com o mundo em colapso, o novo Cavaleiros das Trevas se prepara para impedir o apocalipse iminente.
O NÚMERO DA BESTA
666, conhecido como o Número da Besta, é um conceito originário da bíblia cristã encontrado no Apocalipse do Novo Testamento. No versículo 13:18 do referido livro, temos a seguinte passagem: “Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis.”
O número se referiria ao Anti-Cristo.
Segundo manuscritos gregos, há ainda a teoria de que três crianças nasceriam para tentar dominar o mundo, disseminando a discórdia entre a humanidade. Cada uma delas levaria o número 666. Morrison começou a explorar esse conceito de forma análoga desde o início de seu run na série: em sua primeira edição, a parte um do arco “Batman & Son”, vemos o Coringa enfrentando um falso Batman armado - que revelou-se depois ser um policial. Números à frente, o Cavaleiro das Trevas encontra sua segunda cópia deturpada: um brutamontes parecido com Bane, o vilão que aleijou a criação de Bob Kane no início dos anos 90, que tomou para si as prostitutas e parte de um bairro onde elas faziam seus programas.
É na última parte dessa história que Bruce Wayne fala de um estranho sonho. Nele, o herói teria encontrado três versões de si mesmo. Ele interpretou o sonho como um tipo de mensagem; e restava encontrar o “terceiro Batman”, aquele que, para Wayne, seria o responsável por algum tipo de plano secreto contra ele.
O SEGUNDO ADVENTO
Em Batman #666, Damian assumiu o manto de seu pai, morto numa situação não-explicada na história, anos no futuro. Gotham, assim como o restante do planeta, está condenada pelo terrorismo, poluição e corrupção. Utilizando as habilidades apreendidas em sua infância com o treinamento da Liga dos Assassinos, o novo Batman tenta interceptar o terceiro dos Batmen a assombrar o falecido Bruce Wayne. É ele o responsável pelo assassinato de cinco vilões em diferentes pontos da cidade. Algo que acaba por se revelar como uma enorme pista, um convite para o duelo final entre os homens-morcego.
Morrison, mais uma vez, utiliza de sua bagagem cultural para abrilhantar um ícone da cultura pop norte-americana numa história repleta de referências e alegorias. A começar pelo título da trama: “Batman in Bethlehem”.
‘Bethlehem’ é a maneira como se grafa o nome de Belém, a Terra Santa, em latim. Seu significado, traduzido, quer dizer ‘a casa do pão’. Sua presença no título da história referencia não só a cidade onde Jesus nasceu, mas também ao poema “O Segundo Advento”, do irlandês William B. Yates.
Yates, nascido em Dublin e falecido em Menton, França, foi, além de poeta, dramaturgo, místico e figura pública. Um tipo de artista que se encaixa perfeitamente nas preferências de Morrison - que é também conhecido por uma carreira bem-sucedida no teatro e pela atuação como mago do caos. O poema citado, originalmente batizado de “The Second Coming” e publicado em 1920, fala de um mundo em colapso e da chegada da Besta, o Anti-Cristo, à cidade de Belém.
Na história do Homem-Morcego escrita por Morrison, Gotham City representa não apenas a Belém do poema, mas o mundo à beira da destruição. O que constatamos, por exemplo, quando Damian assiste aos diversos noticiários no monitor da nova Bat-Caverna: terrorismo, problemas ambientais, confusão social… problemas encontrados no mundo real, pontuando outra alegoria proposital do autor.
O Terceiro Batman, responsável pelo assassinato de cinco vilões do submundo de Gotham, é a reencarnação da Besta, o Anti-Cristo de colante escuro, digamos assim. Os cinco criminosos foram mortos em pontos diferentes da cidade; ao se conectar os locais, forma-se um pentagrama. A confronto final, supõe Damian, deveria acontecer no centro dessa projeção.
É interessante notar que, no começo da edição, o quinto vilão encontrado foi morto numa igreja: seu corpo foi pregado de ponta-cabeça numa grande cruz. Se ligarmos pontos a partir de sua cabeça indo até suas mãos e, em seguida, até seus pés, teremos a imagem de um pentagrama invertido. Na cultura chinesa, o símbolo de cinco pontas simboliza um ciclo de destruição - em cada uma de suas extremidades, temos representados um determinado elemento (Terra, Água, Fogo, Madeira e Metal).
O pentagrama na história pode significar uma era de renovação através da destruição. Esta se daria com o confronto entre Damian Wayne e o Terceiro Batman. O símbolo invertido encontrado na igreja pode se referir a uma possível queda dos valores religiosos, principalmente os cristãos, para a sociedade.
Ainda no começo da trama, quando Damian/Batman cita uma passagem do poema de Yates (Things fall apart/ the centre cannot hold/ Mere anarchy is loosed upon the world) para a Comissária Bárbara Gordon, que o completo com o trecho final (And what rough beast/ its hour come round at last/ Slouches towards Bethlehem to be born?), o vigilante afirma: “Bem-vinda à Belém, onde as forças das trevas encontram as forças… da luz.”, e ativa uma granada luminosa.
Na contextualização de Morrison, Damian seria um tipo de messias deturpado. Um Jesus amalucado e de colante necessário para salvar Gotham City do apocalipse iminente.
MORRISIANISMOS
Grant Morrison é conhecido pelo uso constante de metalinguagem em suas obras. Em Homem-Animal, série que o levou a ficar conhecido nos Estados Unidos, temos um dos exemplos mais marcantes disso. Já em “Batman in Bethlehem”, o escritor, de certo modo, se põe sutilmente na pele de Damian Wayne. Algo que percebemos quando, ao chegar na Bat-caverna, o personagem retira o capuz e revela sua cabeça totalmente raspada. Besteira, eu sei, mas em Invisíveis, sua aclamada série publicada sob o selo da Vertigo, King Mob, um dos anti-heróis protagonistas e publicamente conhecido como alter-ego de seu criador, também era careca. Coincidência?
Outro elemento recorrente é a presença de um gato na história. Na aventura apocalíptica do Homem-Morcego em questão, o bichano faz as vezes de Alfred, antigo mordomo e melhor amigo do falecido Bruce Wayne. Não sei ao certo de onde surgiu a preferência e eventual fixação do escritor por esses felinos, mas William S. Burroughs, que além de famoso escritor norte-americano e integrante do movimento beat é uma das principais influências literárias de Morrison, também possuía enorme paixão por gatos. Não é a toa que um de seus livros seja O gato por dentro, um apanhado de notas referentes à experiências particulares e fantasiosas que o escritor de Junky teve com todos os bichanos que passaram por sua vida.
Em Sete Soldados da Vitória, Morrison afirmou que os Sete Homens Misteriosos - vistos nas edições #0 e #1 da máxi-série - representavam cada membro da equipe criativa da publicação: o roteirista, o desenhista, o arte-finalista, o colorista, o letrista, o editor-assistente e o editor. Essa analogia também serve para definir o efeito ex-machina que o autor aplica em boa parte de suas obras, interferindo na resolução do conflito final do plot ou apenas exercendo um tipo de auto-referência.
Em Batman #666, vale a última: quando o Homem-Morcego afirma que “o apocalipse está cancelado. Enquanto assim EU disser.”, na última página da história, entendo como se o escritor escocês também tomasse parte da resolução, nos dizendo que ele contribuiu para que aquele universo ainda existisse depois daquele ponto. Ao final de seu run na série New X-Men, encontramos situação similar quando Jean Grey, como Fênix, permite que o universo mutante continue a viver.
“Batman in Bethlehem” é, definitivamente, a melhor história de Grant Morrison na série Batman. Pelo menos, até agora.