Tinha essa nuvem imensa e negra cruzando o céu sobre o quarteirão onde meus avós moram durante o horário de almoço. Voava a passos de tartaruga, por mais absurda que esta definição possa parecer, num dia que, até então, estava pra lá de ensolarado. Tomei umas agulhadas irrelevantes de chuva na minha caminhada do ponto de ônibus até o edifício deles (meus avós).
Costumo almoçar por lá durante a semana, já que fica melhor e mais prático do que ir para casa - e eu nem moro longe do trabalho, mas só tenho uma opção de ônibus para comer a comida da minha mãe. Em virtude dessa situação maior, faço a alegria dos meus avós com a minha companhia durante o horário de almoço, já que tudo quanto é ônibus eu posso pegar para chegar ao apartamento deles.
Não passava de meio dia e quinze quando eu levei as tais agulhadas.
Enchi a barriga com um prato considerável de feijão, arroz, macarrão, farinha e frango à milanesa. Amanhã, eu vou comer a mesma coisa, mas com uma carne assada no lugar do frango. Pois é, meu cardápio não é dos meus variados, e não estou disposto a dar mais trabalho a minha avó, que segue - junto com meu avô - um determinado tipo de alimentação. Dia desses, a Ana falou que se soubesse que eu era tão fresco para a comida, era capaz de ter abortado o nosso relacionamento, vejam só.
Sorte minha, então, de ter driblado a atenção dela no nosso primeiro fim de semana juntos - isso depois do nosso rolo em Salvador -, quando ela me preparou um almoço meio… estranho. Não lembro do nome do prato, mas acho que a cor do conteúdo era branca. O que um sujeito não faz pela mulher da sua vida, hein, mesmo quando ele ainda não sabia ao certo isso?
Bem, depois de me fartar com o almoço preparado pela minha segunda mãe, fui digeri-lo na frente do computador do meu segundo pai. Conferi e-mails, conversei no MSN e no GTalk e matei o tempo. Mas não se preocupem: foi uma morte indolor, garanto. Nesse meio tempo, começou a chover de verdade.
Voltei para o trabalho apenas quando as balas d’água voltaram a ser agulhas refrescantes. Catei o ônibus rápido, toquei para o prédio da empresa, guardei a bolsa no armário, tentei fumar o cigarro da tarde (não tô conseguindo passar da metade do maldito desde ontem, merda) e sentei na minha cadeira. Botei a mão no mouse e clareei a tela do micro.
Amanhã, tudo de novo. Ou não.

