Tinha essa nuvem imensa e negra cruzando o céu sobre o quarteirão onde meus avós moram durante o horário de almoço. Voava a passos de tartaruga, por mais absurda que esta definição possa parecer, num dia que, até então, estava pra lá de ensolarado. Tomei umas agulhadas irrelevantes de chuva na minha caminhada do ponto de ônibus até o edifício deles (meus avós).
Costumo almoçar por lá durante a semana, já que fica melhor e mais prático do que ir para casa - e eu nem moro longe do trabalho, mas só tenho uma opção de ônibus para comer a comida da minha mãe. Em virtude dessa situação maior, faço a alegria dos meus avós com a minha companhia durante o horário de almoço, já que tudo quanto é ônibus eu posso pegar para chegar ao apartamento deles.
Não passava de meio dia e quinze quando eu levei as tais agulhadas.
Enchi a barriga com um prato considerável de feijão, arroz, macarrão, farinha e frango à milanesa. Amanhã, eu vou comer a mesma coisa, mas com uma carne assada no lugar do frango. Pois é, meu cardápio não é dos meus variados, e não estou disposto a dar mais trabalho a minha avó, que segue - junto com meu avô - um determinado tipo de alimentação. Dia desses, a Ana falou que se soubesse que eu era tão fresco para a comida, era capaz de ter abortado o nosso relacionamento, vejam só.
Sorte minha, então, de ter driblado a atenção dela no nosso primeiro fim de semana juntos - isso depois do nosso rolo em Salvador -, quando ela me preparou um almoço meio… estranho. Não lembro do nome do prato, mas acho que a cor do conteúdo era branca. O que um sujeito não faz pela mulher da sua vida, hein, mesmo quando ele ainda não sabia ao certo isso?
Bem, depois de me fartar com o almoço preparado pela minha segunda mãe, fui digeri-lo na frente do computador do meu segundo pai. Conferi e-mails, conversei no MSN e no GTalk e matei o tempo. Mas não se preocupem: foi uma morte indolor, garanto. Nesse meio tempo, começou a chover de verdade.
Voltei para o trabalho apenas quando as balas d’água voltaram a ser agulhas refrescantes. Catei o ônibus rápido, toquei para o prédio da empresa, guardei a bolsa no armário, tentei fumar o cigarro da tarde (não tô conseguindo passar da metade do maldito desde ontem, merda) e sentei na minha cadeira. Botei a mão no mouse e clareei a tela do micro.
Amanhã, tudo de novo. Ou não.


Danilo Valeta said:
Eu tenho um amigo que a comida preferida da vida dele é strogonoff de carne. Se pudesse, ele comeria strogonoff de carne todo dia, no almoço e no jantar. Talvez até no café-da-manhã.
A primeira vez que ele comeu strogonoff de carne ele tinha uns 22 anos. Porque ele tinha certeza de que ele nunca iria gostar de uma coisa com um nome tão esquisito.
Mas e tu? Qual o motivo dessa frescura com comida, afinal?
2 hours after the fact.Pablo Casado said:
Cara, uma das minhas memórias mais antigas sobre esse lance com comida, é a do meu pai me forçando a comer umas verduras que ele tinha colocado no meu almoço. Se eu não comesse, ficava de castigo.
O pior é que lá em casa só eu sou assim, de dar vexame quando o assunto é comida. Talvez seja também pelo fato de ter passado vários dos meus fins de semana na infância e adolescência com meus avós, e minha avó só preparava o que eu gostava.
Fiquei mimado e chato. Quando eu vejo um prato novo na minha frente, minha garganta aperta. A Ana tenta corrigir isso… mas o tratamento vai demorar pra dar efeito, hahaha.
19 hours after the fact.Danilo Valeta said:
Lá em casa também fomos educados a comer na base da cinta. Tava no prato, tinha que comer. Só com meu irmão mais novo não foi assim, a única coisa que ele comia era arroz com a casquina no bife à milanesa.
Como ele comia só a casquinha, alguém tinha que comer o bife sem casquinha. E se por acaso o desafortunado irmão se recusasse a comer bife sem casquinha, era cinta. Adivinha…?
—x—
Mas enfim, depois que eu mudei para SP que eu revi meus modos culinários. Primeiro, porque eu tinha que cozinhar, e se aos 18 anos você vai se dar ao trabalho de cozinhar, precisa ser algo que você REALMENTE goste de comer.
22 hours after the fact.Segundo, SP era uma cidade cheia de coisas novas, e vivendo a vida toda no meio do mato eu queria provar TUDO! Então quando alguém me levava para alguma festa esquisita onde os comes/bebes/outros eram diferentes, eu sempre ia lá provar. Algumas coisas eu gostei, outras não, e outras eu ADOREI, como o caso da cozinha mexicana. E aí eu gostei tanto que já aprendi a cozinhar 3 pratos mexicanos e já andei bisbilhotando as receitas de outros dois.
Ter namorado, naquela época, uma ajudante de cozinha e uma barwoman ajudou, é claro.
Pablo Casado said:
Hahahaha. Sensacional.
Pior que até pra culinária regional e local eu tenho limites. Por exemplo: eu adoro cuscuz com ovo. E a Ana me ensinou a gostar (muito) de farofa de cuscuz, que é uma mistura dele com ovo, salsicha e cebola bem picadinha. Como até passar mal e ficar aos peidos. Literalmente.
Eu detesto macarronada - macarrão propriamente dito só como acompanhado de algumas coisas. Mas a umas duas semanas, minha cunhada fez um jantar com uns pratos que ela descobriu na viagem que fez por alguns países da Europa recentemente.
E tinha esse caldeirão com um macarrão fino e com um caldo transparente. Tá, vamos lá provar… e adorei o troço, pra surpresa da Ana e de todo mundo (minha má reputação já é pública e notória na família dela também, argh).
Claro, gostei também porque a sopa era salgada pra caramba. Mas não era uma sopa qualquer. Não sei o nome, mas gostei. Aos pouquinhos vou gostando de coisas novas.
É que nem o cigarro: vou parando, mas devagarzinho pra curtir enquanto dá.
22 hours after the fact.