Se tem uma coisa que incomoda boa parte dos motoristas alagoanos, é a seguinte: ciclistas na pista. E eles são muitos, das mais diferentes regiões e, ainda por cima, não tem amor a própria vida. Esta última característica é a única que serve para definir a irresponsabilidade desses indivíduos no trânsito.

Mas vá lá: irresponsabilidade corroborada pelas autoridades constituídas. Já que a maioria dos ciclistas de Maceió são trabalhadores que, sem condições de bancar diariamente as viagens no transporte público, juntaram alguns trocados e compraram um bocado de magrelas.

Não é incomum, por exemplo, ver pedreiros que moram na parte alta da cidade, especificamente na periferia, seguirem para as obras nas quais trabalham montados nas bikes.

É fato. Tanto que o assunto já protagonizou diversas reportagens nas duas principais emissoras de TV do Estado, nas quais era apontado justamente o risco de ser ter, nas vias públicas, carros e bicicletas dividindo o mesmo espaço.

A Prefeitura de Maceió, há um bom tempo, começou a (tentar) resolver o problema, construindo vias específicas para os ciclistas transitarem nas regiões da capital onde seu movimento é mais constante. Como na região da Via Expressa, no bairro da Serraria. Mas lembro de ter visto uma reportagem que falava das obras terem sido interrompidas sabe-se lá o porquê.

O que é uma pena: nesta semana, quase atropelamos um ciclista e vimos outro prestes a ser engolido por um ônibus.

O primeiro inventou de cortar um ônibus quando este apanhava passageiros no ponto, e quando nós, no carro, estávamos no direito de executar a ação. O sujeito basicamente se meteu na frente e só saiu quando levou uma buzinada - e deu ao direito de fazer cara feia, vejam só.

O segundo caso aconteceu hoje. Ele foi atravessar a pista, na mão em que seguíamos, para a outra. Atravessou, e ficou esperando o ciclista que vinha naquele sentido passar ou lhe dar passagem - o problema é que ele ficou no meio da pista, e logo atrás vinha um ônibus, embalado.

Eu sei que os ciclistas têm o seu direito e precisam do espaço adequado para transitarem. Mas esses malabarismos que eles fazem no trânsito me tiram do sério!

View Comment (1) RSS Feed for Comments on this Post

Em dezembro de 2004, o canal a cabo norte-americano Bravo lançou um de seus reality shows mais bem-sucedidos: Project Runway (Projeto Passarela, numa tradução livre), competição onde seus participantes são estilistas desconhecidos em busca da fama e fortuna concedidas pelo glamuroso mundo da moda.

A cada semana, os fashion designers recebem tarefas que se resumem à criação de roupas dentro de temas propostos e criadas a partir de um orçamento limitado para a compra dos materiais. Em prazos também apertados, eles interagem numa sala da escola de design Parsons, localizada em Nova York. Entre o corre-corre e o estresse para executarem seus projetos, eles são orientados por Tim Gunn, responsável pela chefia do escritório de criação da Liz Claiborne Inc.

A apresentação do programa fica por conta da alemã Heide Klum, mais conhecida por seu trabalho como modelo (você já deve ter visto o belo rostinho da moça em capas de revistas como a ELLE, Vogue e Marie Clarie); ela também é uma das juradas, ao lado do estilista Michael Kors, da diretora de moda da ELLE e de um(a) convidado(a) rotativo(a).

PERSONAGENS

O grande barato do programa, além das atividades criativas que precisam ser realizadas para a elaboração das roupas, são os concorrentes em si.

Na primeira temporada, encontramos os mais variados tipos de estilistas - algo que provavelmente foi um dos fatores do sucesso do reality show nos EUA. Austin Scarlett e Jay McCarroll, este último o vencedor do programa, foram os centros das atenções. Algo que se deu não apenas por seus talentos, mas graças as suas personalidades e modos exagerados.

Na segunda, no entanto, acabou-se selecionando participantes que, aparentemente, seguiam a linha de postura daqueles vistos na primeira. Santino Rice, que chegou à final, e Nick Verreos pareciam fazer as vezes de Jay e Austin; mas de longe possuíam o mesmo carisma. Acabou que Chloe Dao, rotulada de sem graça pela mídia estadunidense, levou o caneco no final, deixando Daniel Vosovic, o franco-favorito, em segundo lugar.

NOVA TEMPORADA

O canal a cabo People and Arts começa, hoje, a exibir a terceira temporada do show, a partir das 21h. Para quem curte realitys que trabalham a criatividade de seus participantes, vale a pena assistir.

View Comment (1) RSS Feed for Comments on this Post

Nunca fui muito fã de guarda-chuva. E não é de hoje. Quando chove e eu preciso sair, obrigo alguém de casa a me dar carona - com 23 anos, sou motivo de gozação na família por não ter tirado minha habilitação (ainda).

Ontem eu me ferrei: com o carro quebrado e tendo apenas a moto do meu pai para me conduzir, acabei indo para o trabalho de ônibus. E estava chovendo. Fui, então, obrigado a sair com o meu guarda-chuva.

O maldito, preto até o cabo, deve ser maior que a Espada Justiceira do Lyon, líder dos Thundercats. E dá uma trabalheira dos infernos segurá-lo enquanto você saca o dinheiro da carteira para pagar a viagem.

Alguns podem dizer, como meus pais e avós, porque eu comprei um guarda-chuva tão grande. Bem: um menor que eu tive e quebrou, não me guardava de nada, e molhava tanto minhas costas quanto os pés; o médio que veio em seguida não resguardava os sapatos. Acabei apelando para uma versão king size.

O que eu ganhei em segurança contra a chuva, perdi na praticidade de manejar o objeto ao sair por aí. Manejo complicado, diga-se de passagem: consegui a proeza de metê-lo no teto do ônibus, ontem, quando voltava para casa e apanhava o dinheiro no bolso da camisa (!).

View Comments (4) RSS Feed for Comments on this Post

Nos anos 90, David E. Kelley foi um dos papas do entretenimento na TV norte-americana. Criador, roteirista e produtor executivo, começou sua carreira em meados dos anos 80, atuando como roteirista e editor criativo na série dramática L.A. Law, sobre um escritório fictício de advocacia em Los Angeles.

O seriado, criado por Steven Bochco - responsável por sucessos televisivos como Hill Street Blues e Nova York Contra o Crime -, no qual Kelley galgou posições até chegar a produtor executivo, lhe proporcionou dois prêmios Emmy de ‘Roteiro em Série Dramática’. Mas foi ao desenvolver suas próprias criações que ele se tornou popular.

Depois de séries como Picket Fences e Chicago Hope, que, apesar dos diversos prêmios que receberam, não chegaram a apresentar grandes picos de audiência, Kelley acertou o público, em 1997, com duas séries estreladas por advogados: O Desafio (The Practice, no original) e Ally McBeal.

A primeira passou por alguns perrengues quanto ao índice de audiência, mas, após as primeiras temporadas, tornou-se uma verdadeira febre nos EUA. Lembro de ter assistido um breve especial com entrevistas de bastidores que a Fox Brasil costumava passar nos intervalos entre seus programas, onde a atriz Kelli Williams fala que, depois de uma gravação externa num estádio de baseball de Boston (cidade onde a série se passava), o elenco foi a um bar tomar uns drinques. Chegando lá, clientes apontaram para eles dizendo: “Ei, vejam! São os advogados da TV!”.

Ally McBeal, no entanto, foi um sucesso quase que imediato. Estrelada pela divertida Calista Flockhart, tratava das desventuras pessoais da sua personagem no universo de um grande escritório de advocacia. Recheada com humor e algumas tiradas non-sense, o seriado também trabalhava com maestria as situações dramáticas nas quais seus personagens eram inseridos. Kelley ficou responsável pelos roteiros de toda a primeira temporada, montando um time de escritores da segunda em diante.

Ally durou cinco temporadas, de 1997 a 2002.

O canal Fox Life, voltado para o público feminino, reprisa a série regularmente de segunda à sexta. Dias atrás, foi exibido o décimo-sexto episódio da terceira temporada, intitulado “Boy Next Door” (O Garoto da Casa ao Lado, numa tradução/adaptação livre). Nele, o personagem de Gil Bellows, Billy Alan Thomas, interesse romântico da nossa protagonista, descobre que tem um tumor benigno no cérebro. Para evitar complicações futuras, ele agenda a remoção do mesmo com seu médico para depois de um caso que estava resolvendo.

A operação nunca chegou a ser realizada.

Durante seu discurso de encerramento do caso, as alucinações que Billy vinha sofrendo no decorrer do episódio ganham forma nas suas palavras. Ele, utilizando-se como exemplo para discutir o argumento do processo que era julgado no tribunal, afirma ser casado há 12 anos com Ally - e que tem filhos com ela. Num belo monólogo, ele fala que os dois se amam desde a primeira vez que se viram, ainda crianças, e que seu amor duraria para sempre. McBeal, com os olhos marejados, observa a expressão de alegria de Billy transformar-se num vazio quando ele, lentamente, começa a se sentar ao chão, dizendo que precisa descansar.

Billy morreu no chão do tribunal, com Ally, aos prantos, sobre ele.

Estes foi um dos meus episódios preferidos da série. Um dos que me controlei para não chorar. Ally McBeal tinha dessas: ela sempre arranjava um jeito de te puxar para as suas lágrimas. No episódio final da quinta e última temporada, a protagonista encerra o seriado com lágrimas nos olhos. E diz que aquele não deveria ser um momento triste, afinal, várias situações felizes de sua vida terminavam com pessoas chorando. Uma clara mensagem de Kelley aos fãs, que ficavam, a partir daquele momento, órfãos.

Ally McBeal não padeceu apenas por problemas de audiência, mas por um elemento crônico nas criações de Kelley: os personagens pareciam não merecer um final feliz. É claro, o conflito e a dificuldade são itens que movem uma história, que fazem o público criar empatia com os personagens, suas fraquezas e necessidades. Mas Kelley exagerava.

Com O Desafio, seu pesado drama de tribunal, a coisa era ainda mais acentuada: você ficava mal ao final de boa parte dos episódios, tamanha era a violência e o trauma psicológicos pelos quais os personagens passavam. A fórmula, no entanto, funcionou até determinado ponto. O Desafio teve seu orçamento reduzido pela metade em sua última temporada, a oitava, devido ao ibope da mesma. Kelley demitiu parte do elenco principal e pôs James Spader como novo protagonista, no papel do cínico advogado Alan Shore.

A mudança garantiu a criação de uma série derivada, Boston Legal, co-estrelada por Spader e William Shatner, o eterno Capitão Kirk, da Enterprise.

No caso de Ally, não apenas a protagonista passou por diversas marés de azar - seu elenco de apoio, apesar de toda a diversão que acontecia no escritório Cage, Fish & Associados, dificilmente atingia seus objetivos de felicidade pessoal. Apesar destes contras, era um dos seriados mais legais de se acompanhar alguns anos atrás - coisa que meu pai e eu fazíamos, enquanto minha mãe achava completamente sem graça.

David E. Kelley, que é também o sortudo marido da Michelle Pfeiffer, não anda tão em evidência hoje. The Wedding Bells, sua comédia dramática sobre três mulheres que gerenciam um negócio de organização de festas matrimôniais, foi cancelada após sete episódios. Agora ele trabalha na versão de Life on Mars, baseada no livro Hollywood Station, do escritor Joseph Wambaugh.

Ally McBeal, enquanto isso, permanece viva nas reprises do Fox Life. E continuaria assim mesmo sem elas.

View Comments (0) RSS Feed for Comments on this Post

A nova colaboração entre o Felipe Cunha e eu, Eye Gnat’s Season, infelizmente, não foi selecionada para a segunda edição da antologia de terror Dark Horrors 2, da editora canadense Arcana.

O material, no entanto, deve servir para um futuro projeto nosso, apresenta esta e outras histórias em português. O que não impede que continuemos tentando publicar a hq em outras antologias do gênero, caso alguma esteja aberta a submissões.

View Comment (1) RSS Feed for Comments on this Post

A caminho do trabalho, passamos por um motel na região da rodoviária estadual - que é recheada por motéis de estrelas negativas, à propósito.

Passavam das quinze para as oito da manhã, e um casal deixava o lugar numa moto. Nada demais… se eu não notasse que a mulher, uma morena meio mirrada, estava com o pé quebrado e engessado.

É muito “amor” trepar desse jeito, cedinho e com o frio que estava fazendo. Muito.

Ou eu estou enganado?

View Comments (4) RSS Feed for Comments on this Post

Em junho deste ano, o Cine Sesi encerrava a programação referente à comemoração de um ano de atividade de sua única sala de cinema, voltada para a exibição de filmes diferenciados, em sua maioria off-mainstream. A festividade foi coroada com a realização do primeiro Corujão Cine Sesi, no dia 2 do referido mês, com a projeção madrugada adentro de uma trinca de longa-metragens internacionais.

Foram escalados Dias Selvagens, do comentado diretor chinês Kar Wai Wong; C.R.A.Z.Y. - Loucos de amor, excepcional drama familiar canadense de Jean Marc-Valée; e Notas Sobre um Escândalo, adaptação do livro de mesmo nome e estrelado por Cate Blanchett e Judi Dench, na época popular pelas indicações recebidas para o Oscar. As exibições foram pontuadas por rápidos intervalos e inserções artísticas, como o breve show do cantor Elieser Setton e a mostra de clipes de músicos alagoanos.

Apesar da desconfiança de parte do público, dias antes da maratona ocorrer todos os ingressos foram vendidos, deixando alguns cinéfilos na mão. Parte deles, no entanto, foi ao Cine Sesi no dia do evento - os mais persistentes conseguiram comprar entradas para sentar ou deitar-se no chão da sala de exibição. O verdadeiro amontoado de gente que se viu antes do primeiro filme ser projetado foi a prova de que havia - e há - público para filmes independentes e de arte; ausentes durante boa parte do ano nas salas mantidas pelo grupo Severiano Ribeiro, que nem seus blockbusters consegue exibir de modo competente na capital alagoana.

Ao final da maratona, quando a audiência sobrevivente dirigia-se para a mesa com o café-da-manhã oferecido pelo próprio Sesi, a pergunta que permaneceu no ar foi: quando seria o segundo Corujão?

2.0

Não tardou para que os anseios cinéfilos fossem saciados: pouco menos de dois meses após a realização do primeiro Corujão, a direção do Cine Sesi confirmou o segundo. E se o ditado sentencia que “um é pouco, dois é bom…”, sua programação não poderia deixar cair a peteca do primogênito.

Para o Corujão Cine Sesi 2, foram elencados o curta-metragem Texas Hotel, do diretor pernambucano Cláudio Assis (e anterior a Amarelo Manga, onde o “Texas Hotel” do título figura como um dos cenários); o polêmico longa Baixio das Bestas, também de Assis, que teve sua presença no evento confirmada para um bate-papo com a platéia; o espanhol Princesas e o norte-americano Zodíaco, do excelente David Fincher (Se7en e Clube da Luta).

Com data marcada para acontecer no sábado 4 de agosto, os ingressos para o Corujão 2 foram colocados a venda apenas no dia 2. Assim, o evento poderia ser melhor divulgado e os interessados teriam como se organizar para garantir suas entradas. Considerando o público da primeira edição, esperava-se que a procura fosse grande… mas não tão voraz.

Os 160 ingressos disponíveis, que começaram a ser comercializados a partir das 16 horas, esgotaram no próprio dia 2, pouco depois das 18 horas. Inclusive, fui eu o penúltimo a adquirir dois dos quatro que restavam no guichê do Cine Sesi na referida data. Os quinze minutinhos que sai antecipadamente do trabalho e o ônibus que pontualmente catei me ajudaram a não ficar de fora.

Engraçado foi acompanhar a saga dos que chegaram depois de mim, na ingênua expectativa de que ainda haveria uma boa quantidade de ingressos sobrando. Aproveitei a ida ao Cine Sesi e, além de garantir o meu lugar e o da Ana no Corujão, decidi assistir a’O Hospedeiro, filme coreano de monstro. Foi enquanto eu esperava o início de sua sessão, sentado no extenso e frio banco do corredor, que outros cinéfilos deram as caras.

Um grupo acabou ficando por ali, aguardando a possível chegada de Marcos Sampaio, gerente responsável pelo Cine Sesi, para discutir a possibilidade de existirem entradas extras. Fiquei de bate-papo variado com a galera até dar a minha hora. Desejei boa sorte e enfiei-me na sala. Descobri no dia do Corujão que cerca de 16 ou 18 ingressos a mais foram vendidos para aqueles cinéfilos, com a especificação de que eles davam direito a um lugar no chão da sala - e não a cadeiras extras. Um almofadão azul foi fornecido aos corajosos para que eles tivessem o mínimo de conforto durante a maratona.

Dia 4 chegou, e lá fomos nós. Por uma confusão de horário minha, demos as caras quase duas horas e meia antes das portas da sala do Cine Sesi se abrirem - algo que só aconteceu por volta das 23 horas. Mas se engana quem acha que fomos os primeiros: dois sujeitos e uma mocinha já estavam lá, empacotados e no aguardo. Apenas no momento de formar a fila é que tomamos a dianteira, repetindo o feito nérdico - “constrangedor”, diria a Ana - da exibição de 300 de sermos os primeiros a entrar e escolher os lugares na sala.

(Que, na prática, não se repetiu, porque fomos obrigados a dar passagem aos idosos que ali estavam. Paciência.)

TEXAS HOTEL

Os trabalhos foram abertos com o curta-metragem Texas Hotel, dirigido pelo pernambucano porra-louca Cláudio Assis, com roteiro do próprio ao lado de seu parceiro, Hilton Lacerda. Rodado em 1999, o filme mostra o cotidiano ora conturbado ora surreal da hospedagem que lhe dá nome, localizado no centro da cidade do Recife.

A película apresenta elementos e personagens que dariam fama a Assis em seu primeiro longa, o cruel Amarelo Manga.

O veterano Jonas Bloch, por exemplo, interpreta em Texas Hotel uma versão leve e em forma de rascunho daquele que viria a encarnar em Amarelo Manga. No primeiro, a ligação de seu personagem com a morte se resume a um caixão que ele usa para dormir; no segundo, a necrofilia de sua persona fictícia vai do contato visual com cadáveres aos absurdos sonhos com os mesmos, em situações permeadas com um alto teor de excitação.

Em entrevista ao site Contracampo, no entanto, Assis declarou que não “plagiou” a si mesmo, indicando que o roteiro de Amarelo Manga já estava escrito na época em que Texas Hotel era realizado.

Conflitos criativos à parte, Texas Hotel não possui a crueldade visual dos dois longas posteriores do diretor. O que não quer dizer que seja uma produção menos impactante ou mesmo fraca. Há um retrato sincero do (sub)mundo das pessoas que nele aparecerem e uma câmera que se dá ao direito de captar interessantes imagens alegóricas - como a seqüência giratória no quarto da gorda viciada -, além de registrar as ótimas tiradas de humor negro presentes no roteiro. Vale registrar também a passagem do músico Otto no começo do filme, que, junto com outro ator, interpreta um argentino que chega a recepção do hotel querendo uma faca. Coisa boa não podia sair disso…

A ótima trilha sonora ficou por conta de Jorge du Peixe e Lúcio Maia, respectivamente vocal e guitarrista da banda Nação Zumbi.

BAIXIO DAS BESTAS

Texas Hotel, de certo modo, foi exibido como aperitivo para o alardeado prato principal da noite: Baixio das Bestas, o longa mais recente de Cláudio Assis. Deixando a decadência urbana de Amarelo Manga para trás, o diretor partiu para o interior de Pernambuco e sua decadência rural. Um retrato familiar para qualquer cidadão nordestino que já vislumbrou, via telejornal ou in loco, a realidade da população que sobrevive na zona rural.

Sobreviver é, talvez, o principal verbo a ser conjugado por Baixio das Bestas. Algo que toma forma nas duas cenas inicias do filme.

Na primeira delas, imagens de usinas de cana-de-açúcar são exibidas de modo estático e sujo, acompanhadas por um texto em off sobre a perpetuação do sistema monocultural que tanto sangra a população interiorana. Em seguida, na segunda tomada, vemos o velho e desagradável Heitor despir sua jovem neta, Auxiliadora, nos fundos de um bar de beira de estrada. Quando a cena abre, somos apresentados a uma platéia de caminhoneiros nômades, que se masturbam diante dela numa sessão coletiva de pedofilia.

Assis não tem papas na língua. Não só na vida real, como demonstrou no bate-papo após a exibição de seu filme, como com sua câmera. Não há concessões em Baixio…, algo que já havia ficado claro no anterior Amarelo Manga. A diferença principal entre ambos é que não parece haver a exaltação disfarçada na desgraça retratada em Amarelo… no seu longa mais recente. A realidade apocalíptica na zona da mata não parece precisar de atenuantes visuais.

Baixio… foi feito para incomodar. E a visceralidade desse incomodo vai te revirar o estômago. O sexo aqui está longe de ser sinônimo de prazer - há três seqüências com estupros na narrativa. Violência que não serve apenas para retratar uma realidade, mas para atuar como uma alegoria generalizante de como as pessoas naquela região estão presas em engrenagens viciadas, que as impulsionam para a desgraça certa.

Auxiliadora é usada por Heitor, seu avô, com a desculpa de que eles precisam de dinheiro para se sustentar dignamente; para conseguir isso, vale descer diversos degraus na escala do humano. Os agroboys Everardo (numa atuação fantástica de Matheus Nachtergaele) e Cícero (Caio Blat, tão bom quanto seu parceiro de atuação), além de alguns amigos, vivem para beber, fumar maconha, se masturbar num cinema abandonado e fazer orgias ferozes com as parcas prostitutas da cidade. Eles não têm rumo certo na vida, e seu caminho segue direto para a auto-destruição.

No centro do pequeno universo da história, temos também os cortadores-de-cana e autônomos - vivendo à margem das plantações, sonhando com o dia em que o Maracatu, arte popular que eles mantêm com amor surpreendente, seja realmente valorizado. Retratação que pode soar estranho para alguns. Afinal, a imagem que se tem de Pernambuco é a de um estado bairrista (no bom sentido), que sabe ressaltar os valores e tradições de seu fértil terreno cultural.

Ambas as caracterização são verídicas. O que Assis mostra no filme são justamente aqueles - que creio ser a maioria - que ficam de fora. Grupos folclóricos que ganham 1.000 Reais (a serem divididos entre várias pessoas) para uma apresentação, mais o lanche, na capital Recife, e acham tudo aquilo uma maravilha. Não é: essas pessoas guardam as memórias da cultura popular de muitos anos, algumas em vias de extinção, de parte do povo brasileiro. Eles vivem em condições precárias e, hoje, costumam carecer de aprendizes. Jovens em formação que deveriam ser instruídos para perpetuarem o conhecimento que os mais velhos carregam.

Realidade que eu encontro aqui em Alagoas. Não apenas essa “realidade”, mas toda “as realidades” mostradas na película. Além da talentosa execução e das atuações - onde não posso deixar de destacar Mariah Teixeira, a menina Auxiliadora, um assombro de atriz -, Baixio das Bestas é um tratado sobre como a ganância e a ignorância lançaram a população do campo num verdadeiro regime escravo disfarçado.

BATE-PAPO COM CLÁUDIO ASSIS

Cláudio Assis não é uma figura que se destaque na multidão. Apesar do boné e das roupas teoricamente para jovens, ele é um típico senhor descolado contemporâneo - da linha dos que usam All Star, apesar de eu não ter visto um par dos mesmos em seus pés. Quando foi convidado ao palco do Cine Sesi e se arrumou na cadeira branca de plástico, por alguma razão, a platéia se intimidou. A primeira pergunta demorou segundos demais para sair.

Mas saiu. Depois disso, a coisa andou.

Assis não se intimida. Fala tudo, mas sem tentar ser ofensivo. É o seu jeito ser desbocado. Quando perguntado da polêmica com o diretor argentino Hector Babenco, o pernambucano desmentiu que a confusão - ocorrida durante a entrega do Grande Prêmio TAM do Cinema Brasileiro - aconteceu pelo fato de Carandiru ter ganho como Melhor Filme no lugar de seu Amarelo Manga. Mas sim, graças a uma entrevista que Babenco concedeu a um telejornal na Argentina, onde teria chamado o povo brasileiro de idiota.

Assis pontuou que Babenco não tinha liberdade para nos criticar de tal modo, principalmente depois de ter comido da nossa comida e de ter usufruído nossas riquezas - incluindo aqui as verbas federais, vindas das leis de incentivo, para alguns dos filmes dele, como Carandiru.

No decorrer da discussão, sobrou até para as vítimas do acidente com o vôo 3054 da TAM, em Congonhas: para o diretor, a supervalorização da mídia pelo assunto se deveu por se tratarem de pessoas da classe média. Redigido assim, meio que fora de contexto, parece que Assis mostrou desprezo pelo caso e seus vitimados, quando isso não é verdade. Sua crítica estava focada no modus operandi de parte da imprensa em relação ao caso, citado, claro, como um exemplo atual.

Voltando a falar sobre cinema, ele ressaltou a questão da responsabilidade em relação ao dinheiro público que é obtido através das leis de incentivo. Sua intenção não é fazer filmes que sejam extensão dos padrões das novelas da Globo, mas produções que causem reflexão e debate. O que levou a uma integrante da audiência questionar sobre a violência e o sexo em seus filmes. “Porque na vida tem sexo, tem violência”, começou a explicar. E mostrou estranhamento pela reação das pessoas com ambos os elementos. “Tem uma cena de estupro de 11 minutos no Irreversível, e dizem que cult”, destacou, citando também os filmes do diretor Quentin Tarantino. “E os meus filmes são violentos”.

“Eu não faço concessões nos meus filmes”, declarou Assis, num discurso sobre estética e conteúdo de sua obra que durou cerca de dois minutos. Quer queira ou não, o trecho citado no início deste parágrafo é o que melhor define o diretor - um artista que não se encaixa no gosto do mainstream, obviamente, e nem é mesmo unanimidade no cenário indie. Mas que merece ser assistido. Mesmo que apenas uma vez, caso o seu estômago não seja dos mais fortes.

PRINCESAS

Algo no pôster da produção espanhola Princesas, escrito e dirigido por Fernando Léon de Aranoa, denunciava: este seria o filme mais “leve” da maratona do Corujão II. O que viria de bom grado, consideração as exibições anteriores e a seguinte - Zodíaco, de David Fincher. Não apenas a pretensiosa chamada no cartaz (”no mesmo estilo de Almodóvar” ou algo parecido) como a minha expectativa foram por água abaixo.

A proposta do filme não era de todo mau: trata da amizade entre duas prostitutas, uma espanhola e uma dominicana, e dos conflitos entre as profissionais do sexo locais e a invasão das estrangeiras, que, por cobrarem mais barato, estavam abocanhando boa parte de seus clientes. A “vida fácil” e seus revezes ficam responsáveis por colocarem Caye, a nativa, em contato com Zulema, um bela estrangeira.

Aranoa perde a boa história que tinha nas mãos por - além de alongá-la demais - não se definir quanto ao teor de seriedade da mesma. Ele não se decide em tratar com leveza caricata o tema, e acaba enfiando aqui e acolá seqüências com tamanha violência psicológica que mereciam um tratamento mais apurado. Para efeito de exemplificação num contexto brasileiro: numa hora, o filme fica muito novela da Globo para o meu gosto.

Há, sim, alguns méritos da película. Mas eles acabam se tornando irrelevantes quando estamos falando de uma maratona cinéfila, e não existe uma química imediata entre audiência e filme. O que é apenas a minha humilde opinião: afinal, parte do público aplaudiu quando a projeção chegou ao fim. Agora, se foi uma salva irônica ou sincera, cabe a quem estava lá dizer.

ZODÍACO

Sobrou para a nova empreitada do diretor norte-americano David Fincher encerrar o Corujão II do Cine Sesi. Tarefa ingrata, considerando o cansaço visível em parte da platéia e da proposta filme. Da mesma maneira que Se7en se diferenciou dos filmes de serial killer da época e Clube da Luta foi um grande tapa na cara ao analisar o papel do homem nos anos 90 como consumidor-compulsivo, não era de se espantar que Zodíaco tivesse lá seu diferencial quanto às películas de “romance policial” de hoje.

Na história, Jake Gyllenhaal interpretá Robert Graysmith, cartunista do periódico San Francisco Chronicle que, ao se deparar com a primeira notícia referente ao assassinato de estréia do serial killer auto-intitulado Zodíaco, fica fascinado pelo caso. Assim como o personagem de Gyllenhaal, outros serão tragados para o verdadeiro quebra-cabeças armado para se descobrir a identidade do criminoso. Entre eles, o detetive Dave Toschi, numa atuação competente de Mark Ruffalo, e o jornalista Paul Avery, caracterizado pelo (quase) sempre excêntrico Robert Downey Jr.

Adaptação de dois livros do Robert Graysmith da vida real, Zodiac e Zodiac Unmasked: The Identity of Americas Most Elusive Serial Killer Revealed, o filme Zodíaco foge do que se espera de um do gênero: a descoberta da identidade do assassino após uma intensa investigação (leia-se aqui perseguições de carro, corre-corre e qualquer outra coisa para sacudir a adrenalina do espectador). A idéia dele está em mostrar os conflitos causados pelo caso na vida daqueles que se encontraram envolvidos em sua investigação.

Fincher casa a direção de elenco com a de filmagem, aplicando seu estilo e talento sem minimizar as atuações. Quem ficou com os olhos bem abertos durante a exibição, pôde assistir ao melhor filme da noite, IMHO. Da “roqueira” e estilosa cena do primeiro assassinato a seqüência hitchcockiana do porão, Zodíaco pode ser considerado por alguns um filme “parado”. Dependendo das suas expectativas, talvez seja. Para mim, muita coisa aconteceu nas mais de duas horas de filme. As vidas de algumas pessoas saíram dos trilhos - e é este descarrilhamento coletivo que vale o ingresso.

Nota: As fotos que ilustram este post, com exceção da primeira, fazem parte do álbum de imagens do Sesi Alagoas sobre o evento.

View Comments (6) RSS Feed for Comments on this Post

Lá estava eu, sentadinho no meu lugar no ônibus a caminho do trabalho, quando, ao parar num determinado ponto para apanhar mais alguns passageiros, o motorista saltou do veículo e se embrenhou numa viela. Voltou dois minutinhos depois, visivelmente aliviado. O que ele fez fica a cargo da imaginação de cada um. Eu não tive do que reclamar: cheguei no horário da labuta.

View Comments (2) RSS Feed for Comments on this Post

Em 2002, a FOX tupiniquim apresentava, pela primeira vez, o corrido dia do agente Jack Bauer para salvar Los Angeles - e conseqüentemente os EUA - de um atentado terrorista.

24 Horas, que originalmente estreou no ano anterior na América do Norte, estabelecia um modelo pouco usual para uma série de TV: cada episódio correspondia a uma hora em tempo real das vinte e quatro do título da série.

Sucesso instantâneo, o programa estrelado por Kiefer Sutherland - ganhador de diversos prêmios, incluindo o Globo de Ouro - continua até hoje, mesmo com as críticas negativas relacionas as temporadas mais recentes.

24 Horas me arrebatou em 2002, e me perdeu em 2005. A quarta temporada, para mim, foi um lamento só, mostrando como os roteiristas haviam, de algum modo, perdido a mão. Mas lá em 2002 mesmo, outra série também havia me pego pelos colhões - não largando até hoje.

Era um seriado ‘menor’, sem grandes estrelas e centrado nos conflitos morais de uma delegacia de polícia do distrito (fictício) de Farmington, na mesma conturbada L.A. de 24. Exibido no hoje popular canal AXN, tinha como protagonista um carrancudo detetive linha-dura - careca, feio e repleto de desvios morais.

O nome de policial era Vic Mackey. O seriado, The Shield.

O DISTINTIVO

Shield não apresentava grandes novidades em termos de formatação, o que significa que fosse desprovido de qualidades visuais. Filmado com câmeras manuais e nervosas, seu conteúdo não era para o estômago de qualquer um.

No episódio-piloto, Mackey arma uma cilada para um policial infiltrado em seu grupo de elite, a Tropa de Choque, e mete um balaço no rosto do sujeito ao final do referido capítulo. As conseqüências desse disparo reverberam até hoje.

Na próxima sexta-feira, 17, as 21 horas, o AXN leva ao ar o primeiro episódio da sexta temporada da série. “On the Jones” continua os eventos trágicos ocorridos ao final da quinta temporada, quando um dos integrantes da Tropa de Choque é brutalmente assassinado por um de seus colegas.

Mackey, que não sabe disso, não irá descansar até encontrar o assassino do amigo. Mas seus problemas só pioram com a intensificação da perseguição do tenente Jon Kavanaugh, da corregedoria, interpretado magistralmente pelo ganhador do Oscar Forest Whitaker.

Shield é, de longe, meu seriado preferido dos últimos anos. Suas temporadas de 13 episódios dificilmente podem ser comparadas; principalmente as três primeiras. A qualidade do plot geral da série e dos roteiros reflete nas atuações: Michael Chiklis, que estava prestes a se aposentar, mostrou aqui suas qualidades como ator e renovou sua carreira.

Não apenas ele: CCH Pounder, que co-estrelou o ótimo filme Bagda Café, é um dos pontos fortes do programa, juntamente com Jay Karnes, o competente e por vezes hilário detetive Dutch Wagenbach.

O contrato da série foi estendido por mais um ano, possibilitando que The Shield seja encerrada com louvar em 2008, com sua sétima temporada. Já está deixando saudades, com certeza.

View Comments (2) RSS Feed for Comments on this Post

Acabo de receber um e-mail me convidando para a sessão de imprensa de Cão Sem Dono, filme do Beto Brant que adapta o livro do Daniel Galera, que irá estrear em breve no Cine Sesi.

O problema é que a sessão será realizada as 11 da manhã.

Sacanagem.

View Comments (3) RSS Feed for Comments on this Post