Assisti num telejornal local uma breve matéria sobre ações preventivas realizadas pela Polícia Militar nos últimos dias. A direção da corporação elaborou um esquema de revista em três pontos distintos da capital Maceió, onde motoristas comuns, taxistas e lotações foram parados, digamos, “aleatoriamente” para inspeções. Além de servir para “evitar” possíveis atos criminosos de cidadãos mal-intencionados, as batidas marcaram o batismo dos calouros recém-chegados a instituição.

A iniciativa da PM mostra a situação na qual se encontra a segurança no estado de Alagoas. Tudo bem, quem é da terrinha e não é alienado, sabe muito bem que o bang bang é algo mais do que comum no nosso cotidiano - e que ele tem crescido de modo assustador nos anos recentes. O que não significa que devamos continuar acostumados a ela e, acima de tudo, desistir dos nossos direitos em prol de determinados atos preventivos.

Claro, dada a situação atual, todo mundo acha mais do que normal e justificável iniciativas do tipo acontecerem. Sinceramente, se fui uma delas, acho que não sou mais. E tenho lá meus motivos.

No último sábado fiz algo que alguns definiram como radicalismo, presepada e termos congêneres: trancei o meu cabelo. Fiz aquele penteado afro - e que dói pra cacete, a propósito - no qual se amarram os fios com elástico do começo da sua testa até o fim da nuca. Não tive um motivo específico para isso e nenhum estímulo de alguém pop. Revolta muito mesmo (a definição seria masoquismo, oras!). Deu um estalo na cabeça e a vontade de mudar o visual veio. Simples. Fui ao salão afro com a Ana e encarei três horas na mão da cabelereira, que pegou leve comigo, apesar de todo o sofrimento.

Qual o grande problema dessa mudança e o que tem a ver com o assunto levantado lá no início?

Primeiramente, eu não sou negro. Se fosse, seria bem capaz das pessoas assimilariam o visual com maior tranqüilidade - só eu pensei na formulação cretina de “isso é coisa de negro”? Pois é, ridículo, mas acho que isso serviria como amenizador. Segundo: Maceió é a capital da província das Alagoas. Imagino que num estado como a Bahia - principalmente Salvador -, um pardo, branco ou amarelo poderia passar teoricamente batido com um penteado desses. Você consegue imaginar um lugar onde se valorize mais a cultura negra do que lá? Nem eu. Mas que diabos: moro na terra de Zumbi dos Palmares! Ele deveria representar o negro com mais força do que toda a Bahia.

Utopia, vamos lá. O alagoano deve ser o mais sem memória dos brasileiros. Não todos. Mas a maioria. Quem vai lembrar dum negro que levou a vida roubando dos brancos e fumava unzinho com a rapaziada para celebrar?

Agora visualiza um pardo andando com o cabelo trançado numa cidade retrógrada: você terá as definições que elenquei no quarto parágrafo. Encarei algumas delas por aí - afinal, as pessoas temem aquilo que desconhecem, como diria o Professor Xavier num de seus momentos inspirados. Mas encontrei apoio, também, o que serviu para estreitar certos laços. A Ana ficou com receio disso e outras coisas, assim como meus pais.

Só que aí aconteceu algo que deixou meu pai mais aflito.

Ele havia ido me buscar no trabalho. Antes de voltarmos para casa, fomos até a padaria. No caminho, cruzamos com um grupo de policiais militares parados numa rua em declive que dá para uma das favelas que circundam o bairro onde moramos. Estranhamos a presença deles ali, afinal, quando mais se precisa da segurança pública, acabamos ficando na mão. Ao chegarmos na padaria, meu pai desceu para comprar pão. Fiquei aguardando no carro.

Naquele meio tempo, surgiu o carro dos mesmos policiais militares que estavam há quadras dali. Brecaram de repente. Do automóvel, um deles já deu uma chamada com o rigor tipicamente agressivo das autoridades constituídas num rapaz negro, vestido de boné, camisa florida, bermuda e havainas, que estava encostado no poste defronte a padaria, quase do lado ao carro onde eu estava. Quando desceu, o tal policial, um careca corpulento, sacou a pistola e mandou o sujeito colocar as mãos na cabeça e ficar de cara pro poste. Outro militar ficou responsável pela revista.

A poucos metros da situação - e que havia atraído a atenção de todo mundo na padaria, na banca de jornais e na locadora do lugar -, pude ouvir tudo o que o policial careca falava pro rapaz negro. Perguntou o que ele fazia ali. “Tô esperando um colega meu sair”, foi a resposta que eu entendi. O oficial, claro, não se convenceu. Disse para o rapaz negro que não tinha amigo algum ali e que ele devia circular. Depois que a revista acabou e NADA foi encontrado com ele, o militar careca repetiu a ordem pro sujeito sair dali.

“Tá vendo, fulano. Dizendo que tá esperando o amigo. Não tem amigo nenhum. Ele espera o movimento cair pra depois roubar”, declarou o grandalhão. Não sei se mais alguém ouviu, mas nem precisava. A pirotecnia havia surtido efeito: todo os “cidadãos de bem” ali presentes ficaram vidrados com a ação policial. Eles com certeza se sentiram mais seguros depois de verem aquilo. Meu pai disse que os comentários na padaria aprovaram a intervenção, o que corrobora a minha constatação.

Claro: pegar o primeiro negro pobre que aparecer pela frente e revistá-lo na frente de um bando de brancos de classe média mostra que estamos realmente seguros. Parabéns, polícia militar!

E vocês linkaram os fatos? A ação policial que vi foi a mesma que noticiaram na TV no dia seguinte. Tanto que na matéria o meu bairro foi um dos três escolhidos pela cúpula da polícia. Bairro que, meses atrás, teve sua principal rua interditada por um protesto dos moradores, cansados da violência constante e da desasistência da segurança pública. Coincidência?

Onde o meu cabelo com trançado afro entra no assunto?


Nessa onda de ações preventivas acontecendo na capital alagoana, você não acha que um pardo de cabelo trançado e fumante de cigarro de palha não possa ser parado na rua a qualquer instante, sendo confundido com um maconheiro qualquer? Nada contra os maconheiros, mas a polícia adora a referida classe, não é? Imagina o que é passar pelo mesmo constrangimento que o negro que estava na frente da padaria outro dia? E que, a propósito, voltou lá (com a polícia ainda presente) depois que o mandaram passear, provavelmente para provar que tinha um amigo seu ali. Não vimos o desfecho da situação, mas só a atitude do cara em voltar conta alguma coisa, certo?

Eu acho que vou fumar meu cigarro de palha com a galera do beque que fica no Corredor Cultural Vera Arruda, no Stella Maris, área classe média alta de Maceió. Lá tem um coreto no qual os filhos adolescentes dessa mesma classe média alta fuma unzinho a qualquer hora do dia sem ser incomodada. Na verdade, a coisa tá evoluindo. Meu cunhado - e eu, posteriormente - viu que o crack está chegando por ali. Claro, o uso ainda não é público. Mas como instituições como a polícia militar decidiram que os pontos críticos são mesmo os lugares onde os pretos e pobres moram, não duvido ver uns cachimbos qualquer dia desses.

A situação não é tão preto no branco, eu sei. Mas cansa a estupidez da classe média, que poderia fazer a diferença, ao engolir os fogos de artifícios que lançam na cara dela. É de dar dó como a evolução pára no tempo em algumas partes deste globo.

P.S.: Originalmente, a história sobre o meu cabelo trançado e a repercussão que ele gerou seria comentada num outro texto; um mais divertido, inclusive, a se chamar “É por isso que os X-Men são legais”. Acabou que eu presenciei a ação policial na padaria próxima de casa e juntei tudo numa coisa só, já que a conversa que tive com meu pai antes do ocorrido foi justamente sobre pré-conceito policial. Traduzindo: não, não estou me fazendo de coitadinho nem de perseguido. Apenas aproveitei a oportunidade e aliviei o meu lado cortando um texto. =)