Quando assisti a Old Boy, a história definitiva sobre vingança conduzida pelo diretor Park Chan-Wook, foi como levar um soco no cérebro. É claro: eu não faço idéia de qual seria a dor de um murro bem dado diretamente na minha massa encefálica. Mas, se fosse para imaginar como ela seria, o referido filme sul-coreano, com certeza, serviria como uma bela comparação.

Segunda película da ‘trilogia da vingança’ do diretor oriental, a história do brutamontes Oh-Dae Su foi, merecidamente, a que mais se destacou: seja pela trama, pela excepcional direção e também pela atuação impecável de todo o seu elenco. Sem dúvida, um clássico da década 00. Mr. Vingança, que ainda não assisti, é o primeiro item dessa empreitada temática cinematográfica. E Lady Vingança, que pude conferir recentemente, é o último.

Se Old Boy lança mão, com maestria, de bem elaboradas cenas de violência gráfica, Lady Vingança caminha por uma trilha oposta. O esmero visual de Chan-Wook não deixa de estar ainda mais apurado no último filme, mas o foco está em acertar com força a audiência onde dói mais: no psicológico.

Lee Geum-ja, encarnada pela linda atriz Lee Young-ae, é a protagonista. Condenada a 13 anos de prisão por um crime pelo qual foi obrigada a assumir a culpa, ela começa a formular o plano definitivo para se vingar de quem a colocou por trás das grades. E aproveita seu tempo na prisão para fazer “amizades” — na verdade, favores angariados ao passar do tempo com diversas internas e que, futuramente, serviriam para a execução de seu estratagema.

A comparação com Old Boy parece inevitável, mas está longe de ser justa. Somos apresentados a Geum-ja assim que ela sai da prisão, tendo o presente complementado com flashbacks constantes de seu tempo encarcerada. Os caminhos distintos seguidos pelos filmes já são vistos a partir daí. Fria e centrada, a protagonista carrega o peso da culpa nos olhos estáticos e na sombra vermelha sobre eles.

Não há como materializar risos com o canto da boca em Lady Vingança devido a estilosas cenas de violência gráfica — mesmo porque só uma cena dessas pode ser identificada na película e, mesmo assim, dá certo incomodo. Há, sim, a revirada no estômago a medida que a trama se revela e as vísceras de Geum-ja ficam expostas. O que parecia ser a busca da expiação dos pecados passados se mostra, na parte final do filme, uma análise sociológica. Justificando em definitivo a razão de Chan-Wook ter optado pela violência psicológica.

Em determinado momento, o questionamento que posso extrair do filme é: até que ponto você seria capaz de levar uma vingança? Esta pergunta faz com que você analise a questão de um modo amplo e reflita sobre quem e como ela atinge. O crime que Geum-ja tenta reparar não afetou apenas a ela. Quando é obrigada a trazer outras pessoas a bordo, o que dá uma guinada de 180° na história, a película dá início a uma série de questionamentos sobre valores sociais e humanos.

Choi Min-sik, o Oh-Dae Su de Old Boy, é aqui o vilão da trama. E aquele que profere uma das frases mais marcantes da mesma. Sua atuação torna impossível não odiá-lo e desprezá-lo como ser humano, tornando sua participação quase que essencial para a apreciação completa do filme. Destaque também para Ji-tae Yu, o vilão da produção citada neste parágrafo, que em Lady Vingança faz uma ponta num de seus momentos simbólicos mais contundentes.

E a redenção encontrada na cena final vale todo o pesadelo psicológico que Geum-ja — e você, como audiência — passa desde o descortinar do filme.