Maicol da Silva, que acordou cedo naquela manhã de segunda-feira, vestia uma camisa branca desbotada, esburacada e que provavelmente tinha estampada em sua frente a imagem de algum político ou a chamada para os jogos internos de um colégio particular de classe média; a bermuda, de cor escura, também estava pra lá de datada e repleta dos adjetivos circulares previamente citados. Como era de costume entre os meninos de sua faixa social, não havia nada entre seus pés corroídos e o chão.

Claro, seu nome não era “Maicol da Silva”. Mas considerando essa mania de pobre em colocar nome estrangeiro e erroneamente grafado (ou mesmo aqueles incrivelmente inventados) em suas queridas párias, não seria de se espantar. Podia ser um “Waldcleydeson Vieira”, “Elton Jonh da Silva”… basta perguntar por nome de pobre para algum professor de cursinho amigo seu, que as respostas vêm fáceis. Eu perguntei. E que fosse ou não Maicol, a questão não está no nome.

Não eram nem sete da manhã e ele já estava lá, no Corredor Cultural Vera Arruda, praça construída em plena área de classe média alta de Maceió, andando de um lado para o outro no coreto do lugar. Os olhos bem atentos ao chão, e vez por outra ele se agachava e tateava em busca de algo. Demorei um tempo para associar os pontos. Maicol estava montando um quebra-cabeças social.

Naquele mesmo coreto semi-depredado, garotos a partir dos quinze anos se reúnem em grupos miúdos a qualquer dia da semana. Perto das quatro da tarde, quando o sol dá uma aliviada na brasa, você pode encontrar esses conjuntos de moçoilos. Uns estão lá para tomar Coca-Cola com alguma bebida quente barata, outros para tocar na viola composições da banda indie hypada do momento e os demais para fumar unzinho. Filhotes de classe média derrubando um baseado: tem coisa mais clichê hoje em dia?

Renatos, Paulos, Brunos da vida. Os nomes, com certeza, foram escolhidos para combinar com a personalidade. Ou então por causa de alguma promessa. Quem sabe o nome de algum apóstolo. Nestas duas últimas opções, temos uma intersecção entre os papais de classe média e os pobres coitados da periferia: a crença. Os primeiros acreditam na isenção daqueles que carregam o seu DNA por esse mundão de Deus, até que eles cometam alguma cagada e os vizinhos descubram, causando constrangimento; os seguintes sabem que os seus, se não estão numa escola, se encontram a mercê das mazelas da vida e podem aparecer a qualquer dia nas manchetes do programa policialesco daquele canal duvidoso.

Uma visual preto e branco, bem sei, mas que serve para ilustrar algo simples no caso do nosso compadre Maicol: até a porcaria da maconha ele tem que catar as sobras para tentar montar o seu próprio baseado. Dos restos, malandro! Imagina ele andando na periferia com um cigarro feitinho no bolso: era capaz de levar um baculejo da PM, uns tapas e gritos na cara. Umas noites ingratas no xadrez para depois ser solto sem ter dado o seu tapa. Enquanto os Renatos, Paulos e Brunos da vida derrubam a sua erva da boa sem serem incomodados: e não seria diferente, já que os pais fazem cosplays de cegos e a PM que atua na segurança da localidade em questão, o Stella Maris, é bancada pela associação dos moradores.

Observo esse mundinho quebrado de uma janela de terceiro andar (e eis uma analogia de fina ironia que não havia percebido antes) que nem minha é. Acho tudo muito feio e sinto pena do Maicol, agachado, forçando a vista além da conta. Mas fico aqui pensando: se eu tivesse um bagulho pronto no bolso, será que eu dividia com ele ou ficava só pra mim? Não sei responder de pronto, porque nem ando com bagulho no bolso, tá sabendo?

Eu só continuo fazendo uma única coisa: sentindo aquela culpa de classe média que apenas assiste a merda acumulada na privada da vida, sabendo que não adianta puxar a descarga. Quantos não gostariam de apontar para mim agora, apontar aquele dedo acusador, mas que sabem muito bem o que é um espelho e o melhor é não passar vergonha à toa? Pois é, já imaginava.

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Este texto foi publicado na segunda edição do fanzine Gaveta, lançado em Maceió no dia 10/11/2007.