Currently browsing Cinema, which has no sub-categories
    .

Citar Neil Gaiman numa conversa sem associá-lo a Sandman é mais que improvável. Mesmo que ele tenha escrito romances que caíram no gosto da crítica e do público — Deuses Americanos, Filhos de Anansi e Stardust; este último adaptado para o cinema em 2007 —, a obra em quadrinhos de cerca de 60 edições é o referencial mor para qualquer um que conheça o mínimo sobre sua produção.

Isso não quer dizer que sua literatura seja menor ou deva ser desconsiderada perante Sandman. Seria um erro grosseiro. Gaiman, de certo modo, sempre foi um prosador. Sua passagem pelas histórias em quadrinhos foi uma benção para o meio e uma prova incontestável do potencial do mesmo para seus detratores. Mas o que está em questão aqui não é a invasão britânica nos quadrinhos norte-americanos por Neil, Alan, Grant e outros na década de 1980. E sim o retorno, digamos, do roteirista que mostrou a América como um punhado de areia daria vida a um pesadelo.

Ao lado de Roger Avary, parceiro de Quentin Tarantino em Pulp Fiction, Gaiman soube aliar suas qualidades como prosador as de roteirista em A Lenda de Beowulf, animação dirigida por Robert Zemeckis.

Com o fim de Sandman e sua partida para o mundo dos livros, as eventuais passagens do escritor pelo universo da Nona Arte não foram das mais notáveis. 1062 e Eternos, mini-séries que escreveu para a Marvel Comics, foram tiros no escuro com raros lampejos das belas caracterizações e diálogos soberbos, ambos marcas registradas do autor de Orquídea Negra. Compará-los a obras literárias do calibre de Coraline e Stardust, por exemplo, são de um disparate sem tamanho.

A Lenda de Beowulf, adaptação do poema anglo-saxão de autoria desconhecida do século 8, exigiria de Gaiman o timing narrativo dos seus tempos de bom roteirista de quadrinhos. Ou não: quem sabe a presença de Roger Avary foi o elemento-chave para o que se vê na tela — o casamento perfeito entre ação e uma história afiada, pontuada com diálogos ora bem-humorados, ora maduros.

A trama é enxuta: Beowulf, famoso herói e aventureiro, vai as terras gélidas de Heorot defender o Rei Hrotgar e seus súditos do cruel monstro Grendel. A tarefa se mostra complexa quando surge na equação a mãe de Grendel, interpretada através da captação de movimento pela bocuda preferida de todos Angelina Jolie.

A animação em si é estranha nos primeiros minutos. Para quem já assistiu o longa animado Final Fantasy VII, sabe que o resultado obtido pelo diretor Zemeckis ainda é capaz de ir mais longe, seja pela questão dos movimentos dos personagens em cena ou pela rigidez de certas expressões faciais. Mas estes minutos passam e a ótima trama que está se formando é capaz de segurar a atenção da audiência.

O roteiro produzido a quatro mãos, no início da película animada, possui certo ar simplista, beirando a uma inocente história de capa e espada. Longe disso. Com a progressão dos acontecimentos, Beowulf e outros personagens são lançados em questionamentos morais intricados, que ecoam até a última cena do filme. Há diálogos cômicos e sérios, mas nenhum meio-termo piegas, que se fique registrado. A ação é sanguinolenta e heróica, disfarçada justamente pelo elemento “animação” da produção. Objetos são jogados diante da tela ou a câmera dá rodopios nervosos para ocultar a brutalidade dos confrontos.

A Lenda de Beowulf não é um clássico instantâneo. Mas sim, uma grande obra de fantasia medieval, sem os excessos e certos clichês do gênero. Algo que me fará lembrar do Neil Gaiman roteirista inspirado de quadrinhos. E de Roger Avary, o fiel escudeiro.

View Comments (0) RSS Feed for Comments on this Post

Heath Ledger caracterizado como Coringa = meda!

Dark Knight tem tudo para ser o X-Men 2 do Homem-Morcego, se é que vocês me entendem.

Via Judão.

View Comments (2) RSS Feed for Comments on this Post

Quando assisti a Old Boy, a história definitiva sobre vingança conduzida pelo diretor Park Chan-Wook, foi como levar um soco no cérebro. É claro: eu não faço idéia de qual seria a dor de um murro bem dado diretamente na minha massa encefálica. Mas, se fosse para imaginar como ela seria, o referido filme sul-coreano, com certeza, serviria como uma bela comparação.

Segunda película da ‘trilogia da vingança’ do diretor oriental, a história do brutamontes Oh-Dae Su foi, merecidamente, a que mais se destacou: seja pela trama, pela excepcional direção e também pela atuação impecável de todo o seu elenco. Sem dúvida, um clássico da década 00. Mr. Vingança, que ainda não assisti, é o primeiro item dessa empreitada temática cinematográfica. E Lady Vingança, que pude conferir recentemente, é o último.

Se Old Boy lança mão, com maestria, de bem elaboradas cenas de violência gráfica, Lady Vingança caminha por uma trilha oposta. O esmero visual de Chan-Wook não deixa de estar ainda mais apurado no último filme, mas o foco está em acertar com força a audiência onde dói mais: no psicológico.

Lee Geum-ja, encarnada pela linda atriz Lee Young-ae, é a protagonista. Condenada a 13 anos de prisão por um crime pelo qual foi obrigada a assumir a culpa, ela começa a formular o plano definitivo para se vingar de quem a colocou por trás das grades. E aproveita seu tempo na prisão para fazer “amizades” — na verdade, favores angariados ao passar do tempo com diversas internas e que, futuramente, serviriam para a execução de seu estratagema.

A comparação com Old Boy parece inevitável, mas está longe de ser justa. Somos apresentados a Geum-ja assim que ela sai da prisão, tendo o presente complementado com flashbacks constantes de seu tempo encarcerada. Os caminhos distintos seguidos pelos filmes já são vistos a partir daí. Fria e centrada, a protagonista carrega o peso da culpa nos olhos estáticos e na sombra vermelha sobre eles.

Não há como materializar risos com o canto da boca em Lady Vingança devido a estilosas cenas de violência gráfica — mesmo porque só uma cena dessas pode ser identificada na película e, mesmo assim, dá certo incomodo. Há, sim, a revirada no estômago a medida que a trama se revela e as vísceras de Geum-ja ficam expostas. O que parecia ser a busca da expiação dos pecados passados se mostra, na parte final do filme, uma análise sociológica. Justificando em definitivo a razão de Chan-Wook ter optado pela violência psicológica.

Em determinado momento, o questionamento que posso extrair do filme é: até que ponto você seria capaz de levar uma vingança? Esta pergunta faz com que você analise a questão de um modo amplo e reflita sobre quem e como ela atinge. O crime que Geum-ja tenta reparar não afetou apenas a ela. Quando é obrigada a trazer outras pessoas a bordo, o que dá uma guinada de 180° na história, a película dá início a uma série de questionamentos sobre valores sociais e humanos.

Choi Min-sik, o Oh-Dae Su de Old Boy, é aqui o vilão da trama. E aquele que profere uma das frases mais marcantes da mesma. Sua atuação torna impossível não odiá-lo e desprezá-lo como ser humano, tornando sua participação quase que essencial para a apreciação completa do filme. Destaque também para Ji-tae Yu, o vilão da produção citada neste parágrafo, que em Lady Vingança faz uma ponta num de seus momentos simbólicos mais contundentes.

E a redenção encontrada na cena final vale todo o pesadelo psicológico que Geum-ja — e você, como audiência — passa desde o descortinar do filme.

View Comments (3) RSS Feed for Comments on this Post

Sexta-feira é dia de filme novo em cartaz. Lá fui eu conferir a programação nas parcas salas da capital alagoana na Agenda Cultural do portal GazetaWeb, e saber se havia algo do meu interesse a ser exibido… quando me deparo com algo muito estranho: o filme da Sessão de Arte, que ocorre no Cine Iguatemi às sextas a noite e aos sábados pela manhã, e que é organizada pelo crítico Elinaldo Barros:

Tudo bem. Não concordo 100% com o gosto do Elinaldo para filmes, o que é completamente natural: mas filmeco velho do Van Damme na Sessão de Arte?! Tinha algo muito errado nisso.

Conferindo a programação através do Alagoas 24 Horas, descobri que o filme a ser exibido se chamava mesmo Infernosó não era o do Van Damme:

O que aconteceu? Bem, imagino que algum chefe preguiçoso mandou o(a) estagiário(a) - de Jornalismo ou de Ciências da Computação; vai saber quem cuida do que nos grandes portais - responsável pela Agenda Cultural da GazetaWeb atualizar a página, passando para ele a lista dos filmes novos. O(A) estagiário(a) deve ter consultado Deus, e acabou optando pelo segundo link encontrado. Na cabeça dele, se encaixou melhor com o perfil de algo chamado Sessão de Arte.

Estagiários. Ruim com eles

PS.: Nada contra os colegas de classe - sim, também sou um de vocês. Mas eu não podia perder a piada, né? No mais, a burrada feita independe do grau de contratação da anta que a executou.

View Comments (4) RSS Feed for Comments on this Post

Depois de o Sexto Sentido, o roteirista e diretor M. Night Shyamalan arregimentou um fervoroso grupo de fãs - e detratores, também. Não apenas pela qualidade de suas histórias e direção e direção de atores, mas pela surpresa que seus filmes costumavam reservar em seus finais.

O oba-oba em cima de suas produções são intensos, e tudo quanto é repórter quer dar o spoiler que pode revelar a surpresa ou o alicerce central do mistério que envolve suas criações. The Happening, a nova empreitada do diretor, não foge de enfrentar a mesma situação.

O filme conta a história de uma família da Filadélfia, liderada pelo personagem interpretado pelo ator Mark Wahlberg, que precisa sobreviver em meio a uma catástrofe ambiental.

Acontece que caiu na rede um spoiler - sempre ele - que pode estragar a surpresa do filme. Ler fica a cargo de cada um… mas eu não resisti e dei uma conferida. Depois de errar a mão em A Dama na Água, Shyamalan tem tudo para nos entregar uma nova pérola cinematográfica.

Leia ou aguarde até 2008.

View Comments (2) RSS Feed for Comments on this Post

Em junho deste ano, o Cine Sesi encerrava a programação referente à comemoração de um ano de atividade de sua única sala de cinema, voltada para a exibição de filmes diferenciados, em sua maioria off-mainstream. A festividade foi coroada com a realização do primeiro Corujão Cine Sesi, no dia 2 do referido mês, com a projeção madrugada adentro de uma trinca de longa-metragens internacionais.

Foram escalados Dias Selvagens, do comentado diretor chinês Kar Wai Wong; C.R.A.Z.Y. - Loucos de amor, excepcional drama familiar canadense de Jean Marc-Valée; e Notas Sobre um Escândalo, adaptação do livro de mesmo nome e estrelado por Cate Blanchett e Judi Dench, na época popular pelas indicações recebidas para o Oscar. As exibições foram pontuadas por rápidos intervalos e inserções artísticas, como o breve show do cantor Elieser Setton e a mostra de clipes de músicos alagoanos.

Apesar da desconfiança de parte do público, dias antes da maratona ocorrer todos os ingressos foram vendidos, deixando alguns cinéfilos na mão. Parte deles, no entanto, foi ao Cine Sesi no dia do evento - os mais persistentes conseguiram comprar entradas para sentar ou deitar-se no chão da sala de exibição. O verdadeiro amontoado de gente que se viu antes do primeiro filme ser projetado foi a prova de que havia - e há - público para filmes independentes e de arte; ausentes durante boa parte do ano nas salas mantidas pelo grupo Severiano Ribeiro, que nem seus blockbusters consegue exibir de modo competente na capital alagoana.

Ao final da maratona, quando a audiência sobrevivente dirigia-se para a mesa com o café-da-manhã oferecido pelo próprio Sesi, a pergunta que permaneceu no ar foi: quando seria o segundo Corujão?

2.0

Não tardou para que os anseios cinéfilos fossem saciados: pouco menos de dois meses após a realização do primeiro Corujão, a direção do Cine Sesi confirmou o segundo. E se o ditado sentencia que “um é pouco, dois é bom…”, sua programação não poderia deixar cair a peteca do primogênito.

Para o Corujão Cine Sesi 2, foram elencados o curta-metragem Texas Hotel, do diretor pernambucano Cláudio Assis (e anterior a Amarelo Manga, onde o “Texas Hotel” do título figura como um dos cenários); o polêmico longa Baixio das Bestas, também de Assis, que teve sua presença no evento confirmada para um bate-papo com a platéia; o espanhol Princesas e o norte-americano Zodíaco, do excelente David Fincher (Se7en e Clube da Luta).

Com data marcada para acontecer no sábado 4 de agosto, os ingressos para o Corujão 2 foram colocados a venda apenas no dia 2. Assim, o evento poderia ser melhor divulgado e os interessados teriam como se organizar para garantir suas entradas. Considerando o público da primeira edição, esperava-se que a procura fosse grande… mas não tão voraz.

Os 160 ingressos disponíveis, que começaram a ser comercializados a partir das 16 horas, esgotaram no próprio dia 2, pouco depois das 18 horas. Inclusive, fui eu o penúltimo a adquirir dois dos quatro que restavam no guichê do Cine Sesi na referida data. Os quinze minutinhos que sai antecipadamente do trabalho e o ônibus que pontualmente catei me ajudaram a não ficar de fora.

Engraçado foi acompanhar a saga dos que chegaram depois de mim, na ingênua expectativa de que ainda haveria uma boa quantidade de ingressos sobrando. Aproveitei a ida ao Cine Sesi e, além de garantir o meu lugar e o da Ana no Corujão, decidi assistir a’O Hospedeiro, filme coreano de monstro. Foi enquanto eu esperava o início de sua sessão, sentado no extenso e frio banco do corredor, que outros cinéfilos deram as caras.

Um grupo acabou ficando por ali, aguardando a possível chegada de Marcos Sampaio, gerente responsável pelo Cine Sesi, para discutir a possibilidade de existirem entradas extras. Fiquei de bate-papo variado com a galera até dar a minha hora. Desejei boa sorte e enfiei-me na sala. Descobri no dia do Corujão que cerca de 16 ou 18 ingressos a mais foram vendidos para aqueles cinéfilos, com a especificação de que eles davam direito a um lugar no chão da sala - e não a cadeiras extras. Um almofadão azul foi fornecido aos corajosos para que eles tivessem o mínimo de conforto durante a maratona.

Dia 4 chegou, e lá fomos nós. Por uma confusão de horário minha, demos as caras quase duas horas e meia antes das portas da sala do Cine Sesi se abrirem - algo que só aconteceu por volta das 23 horas. Mas se engana quem acha que fomos os primeiros: dois sujeitos e uma mocinha já estavam lá, empacotados e no aguardo. Apenas no momento de formar a fila é que tomamos a dianteira, repetindo o feito nérdico - “constrangedor”, diria a Ana - da exibição de 300 de sermos os primeiros a entrar e escolher os lugares na sala.

(Que, na prática, não se repetiu, porque fomos obrigados a dar passagem aos idosos que ali estavam. Paciência.)

TEXAS HOTEL

Os trabalhos foram abertos com o curta-metragem Texas Hotel, dirigido pelo pernambucano porra-louca Cláudio Assis, com roteiro do próprio ao lado de seu parceiro, Hilton Lacerda. Rodado em 1999, o filme mostra o cotidiano ora conturbado ora surreal da hospedagem que lhe dá nome, localizado no centro da cidade do Recife.

A película apresenta elementos e personagens que dariam fama a Assis em seu primeiro longa, o cruel Amarelo Manga.

O veterano Jonas Bloch, por exemplo, interpreta em Texas Hotel uma versão leve e em forma de rascunho daquele que viria a encarnar em Amarelo Manga. No primeiro, a ligação de seu personagem com a morte se resume a um caixão que ele usa para dormir; no segundo, a necrofilia de sua persona fictícia vai do contato visual com cadáveres aos absurdos sonhos com os mesmos, em situações permeadas com um alto teor de excitação.

Em entrevista ao site Contracampo, no entanto, Assis declarou que não “plagiou” a si mesmo, indicando que o roteiro de Amarelo Manga já estava escrito na época em que Texas Hotel era realizado.

Conflitos criativos à parte, Texas Hotel não possui a crueldade visual dos dois longas posteriores do diretor. O que não quer dizer que seja uma produção menos impactante ou mesmo fraca. Há um retrato sincero do (sub)mundo das pessoas que nele aparecerem e uma câmera que se dá ao direito de captar interessantes imagens alegóricas - como a seqüência giratória no quarto da gorda viciada -, além de registrar as ótimas tiradas de humor negro presentes no roteiro. Vale registrar também a passagem do músico Otto no começo do filme, que, junto com outro ator, interpreta um argentino que chega a recepção do hotel querendo uma faca. Coisa boa não podia sair disso…

A ótima trilha sonora ficou por conta de Jorge du Peixe e Lúcio Maia, respectivamente vocal e guitarrista da banda Nação Zumbi.

BAIXIO DAS BESTAS

Texas Hotel, de certo modo, foi exibido como aperitivo para o alardeado prato principal da noite: Baixio das Bestas, o longa mais recente de Cláudio Assis. Deixando a decadência urbana de Amarelo Manga para trás, o diretor partiu para o interior de Pernambuco e sua decadência rural. Um retrato familiar para qualquer cidadão nordestino que já vislumbrou, via telejornal ou in loco, a realidade da população que sobrevive na zona rural.

Sobreviver é, talvez, o principal verbo a ser conjugado por Baixio das Bestas. Algo que toma forma nas duas cenas inicias do filme.

Na primeira delas, imagens de usinas de cana-de-açúcar são exibidas de modo estático e sujo, acompanhadas por um texto em off sobre a perpetuação do sistema monocultural que tanto sangra a população interiorana. Em seguida, na segunda tomada, vemos o velho e desagradável Heitor despir sua jovem neta, Auxiliadora, nos fundos de um bar de beira de estrada. Quando a cena abre, somos apresentados a uma platéia de caminhoneiros nômades, que se masturbam diante dela numa sessão coletiva de pedofilia.

Assis não tem papas na língua. Não só na vida real, como demonstrou no bate-papo após a exibição de seu filme, como com sua câmera. Não há concessões em Baixio…, algo que já havia ficado claro no anterior Amarelo Manga. A diferença principal entre ambos é que não parece haver a exaltação disfarçada na desgraça retratada em Amarelo… no seu longa mais recente. A realidade apocalíptica na zona da mata não parece precisar de atenuantes visuais.

Baixio… foi feito para incomodar. E a visceralidade desse incomodo vai te revirar o estômago. O sexo aqui está longe de ser sinônimo de prazer - há três seqüências com estupros na narrativa. Violência que não serve apenas para retratar uma realidade, mas para atuar como uma alegoria generalizante de como as pessoas naquela região estão presas em engrenagens viciadas, que as impulsionam para a desgraça certa.

Auxiliadora é usada por Heitor, seu avô, com a desculpa de que eles precisam de dinheiro para se sustentar dignamente; para conseguir isso, vale descer diversos degraus na escala do humano. Os agroboys Everardo (numa atuação fantástica de Matheus Nachtergaele) e Cícero (Caio Blat, tão bom quanto seu parceiro de atuação), além de alguns amigos, vivem para beber, fumar maconha, se masturbar num cinema abandonado e fazer orgias ferozes com as parcas prostitutas da cidade. Eles não têm rumo certo na vida, e seu caminho segue direto para a auto-destruição.

No centro do pequeno universo da história, temos também os cortadores-de-cana e autônomos - vivendo à margem das plantações, sonhando com o dia em que o Maracatu, arte popular que eles mantêm com amor surpreendente, seja realmente valorizado. Retratação que pode soar estranho para alguns. Afinal, a imagem que se tem de Pernambuco é a de um estado bairrista (no bom sentido), que sabe ressaltar os valores e tradições de seu fértil terreno cultural.

Ambas as caracterização são verídicas. O que Assis mostra no filme são justamente aqueles - que creio ser a maioria - que ficam de fora. Grupos folclóricos que ganham 1.000 Reais (a serem divididos entre várias pessoas) para uma apresentação, mais o lanche, na capital Recife, e acham tudo aquilo uma maravilha. Não é: essas pessoas guardam as memórias da cultura popular de muitos anos, algumas em vias de extinção, de parte do povo brasileiro. Eles vivem em condições precárias e, hoje, costumam carecer de aprendizes. Jovens em formação que deveriam ser instruídos para perpetuarem o conhecimento que os mais velhos carregam.

Realidade que eu encontro aqui em Alagoas. Não apenas essa “realidade”, mas toda “as realidades” mostradas na película. Além da talentosa execução e das atuações - onde não posso deixar de destacar Mariah Teixeira, a menina Auxiliadora, um assombro de atriz -, Baixio das Bestas é um tratado sobre como a ganância e a ignorância lançaram a população do campo num verdadeiro regime escravo disfarçado.

BATE-PAPO COM CLÁUDIO ASSIS

Cláudio Assis não é uma figura que se destaque na multidão. Apesar do boné e das roupas teoricamente para jovens, ele é um típico senhor descolado contemporâneo - da linha dos que usam All Star, apesar de eu não ter visto um par dos mesmos em seus pés. Quando foi convidado ao palco do Cine Sesi e se arrumou na cadeira branca de plástico, por alguma razão, a platéia se intimidou. A primeira pergunta demorou segundos demais para sair.

Mas saiu. Depois disso, a coisa andou.

Assis não se intimida. Fala tudo, mas sem tentar ser ofensivo. É o seu jeito ser desbocado. Quando perguntado da polêmica com o diretor argentino Hector Babenco, o pernambucano desmentiu que a confusão - ocorrida durante a entrega do Grande Prêmio TAM do Cinema Brasileiro - aconteceu pelo fato de Carandiru ter ganho como Melhor Filme no lugar de seu Amarelo Manga. Mas sim, graças a uma entrevista que Babenco concedeu a um telejornal na Argentina, onde teria chamado o povo brasileiro de idiota.

Assis pontuou que Babenco não tinha liberdade para nos criticar de tal modo, principalmente depois de ter comido da nossa comida e de ter usufruído nossas riquezas - incluindo aqui as verbas federais, vindas das leis de incentivo, para alguns dos filmes dele, como Carandiru.

No decorrer da discussão, sobrou até para as vítimas do acidente com o vôo 3054 da TAM, em Congonhas: para o diretor, a supervalorização da mídia pelo assunto se deveu por se tratarem de pessoas da classe média. Redigido assim, meio que fora de contexto, parece que Assis mostrou desprezo pelo caso e seus vitimados, quando isso não é verdade. Sua crítica estava focada no modus operandi de parte da imprensa em relação ao caso, citado, claro, como um exemplo atual.

Voltando a falar sobre cinema, ele ressaltou a questão da responsabilidade em relação ao dinheiro público que é obtido através das leis de incentivo. Sua intenção não é fazer filmes que sejam extensão dos padrões das novelas da Globo, mas produções que causem reflexão e debate. O que levou a uma integrante da audiência questionar sobre a violência e o sexo em seus filmes. “Porque na vida tem sexo, tem violência”, começou a explicar. E mostrou estranhamento pela reação das pessoas com ambos os elementos. “Tem uma cena de estupro de 11 minutos no Irreversível, e dizem que cult”, destacou, citando também os filmes do diretor Quentin Tarantino. “E os meus filmes são violentos”.

“Eu não faço concessões nos meus filmes”, declarou Assis, num discurso sobre estética e conteúdo de sua obra que durou cerca de dois minutos. Quer queira ou não, o trecho citado no início deste parágrafo é o que melhor define o diretor - um artista que não se encaixa no gosto do mainstream, obviamente, e nem é mesmo unanimidade no cenário indie. Mas que merece ser assistido. Mesmo que apenas uma vez, caso o seu estômago não seja dos mais fortes.

PRINCESAS

Algo no pôster da produção espanhola Princesas, escrito e dirigido por Fernando Léon de Aranoa, denunciava: este seria o filme mais “leve” da maratona do Corujão II. O que viria de bom grado, consideração as exibições anteriores e a seguinte - Zodíaco, de David Fincher. Não apenas a pretensiosa chamada no cartaz (”no mesmo estilo de Almodóvar” ou algo parecido) como a minha expectativa foram por água abaixo.

A proposta do filme não era de todo mau: trata da amizade entre duas prostitutas, uma espanhola e uma dominicana, e dos conflitos entre as profissionais do sexo locais e a invasão das estrangeiras, que, por cobrarem mais barato, estavam abocanhando boa parte de seus clientes. A “vida fácil” e seus revezes ficam responsáveis por colocarem Caye, a nativa, em contato com Zulema, um bela estrangeira.

Aranoa perde a boa história que tinha nas mãos por - além de alongá-la demais - não se definir quanto ao teor de seriedade da mesma. Ele não se decide em tratar com leveza caricata o tema, e acaba enfiando aqui e acolá seqüências com tamanha violência psicológica que mereciam um tratamento mais apurado. Para efeito de exemplificação num contexto brasileiro: numa hora, o filme fica muito novela da Globo para o meu gosto.

Há, sim, alguns méritos da película. Mas eles acabam se tornando irrelevantes quando estamos falando de uma maratona cinéfila, e não existe uma química imediata entre audiência e filme. O que é apenas a minha humilde opinião: afinal, parte do público aplaudiu quando a projeção chegou ao fim. Agora, se foi uma salva irônica ou sincera, cabe a quem estava lá dizer.

ZODÍACO

Sobrou para a nova empreitada do diretor norte-americano David Fincher encerrar o Corujão II do Cine Sesi. Tarefa ingrata, considerando o cansaço visível em parte da platéia e da proposta filme. Da mesma maneira que Se7en se diferenciou dos filmes de serial killer da época e Clube da Luta foi um grande tapa na cara ao analisar o papel do homem nos anos 90 como consumidor-compulsivo, não era de se espantar que Zodíaco tivesse lá seu diferencial quanto às películas de “romance policial” de hoje.

Na história, Jake Gyllenhaal interpretá Robert Graysmith, cartunista do periódico San Francisco Chronicle que, ao se deparar com a primeira notícia referente ao assassinato de estréia do serial killer auto-intitulado Zodíaco, fica fascinado pelo caso. Assim como o personagem de Gyllenhaal, outros serão tragados para o verdadeiro quebra-cabeças armado para se descobrir a identidade do criminoso. Entre eles, o detetive Dave Toschi, numa atuação competente de Mark Ruffalo, e o jornalista Paul Avery, caracterizado pelo (quase) sempre excêntrico Robert Downey Jr.

Adaptação de dois livros do Robert Graysmith da vida real, Zodiac e Zodiac Unmasked: The Identity of Americas Most Elusive Serial Killer Revealed, o filme Zodíaco foge do que se espera de um do gênero: a descoberta da identidade do assassino após uma intensa investigação (leia-se aqui perseguições de carro, corre-corre e qualquer outra coisa para sacudir a adrenalina do espectador). A idéia dele está em mostrar os conflitos causados pelo caso na vida daqueles que se encontraram envolvidos em sua investigação.

Fincher casa a direção de elenco com a de filmagem, aplicando seu estilo e talento sem minimizar as atuações. Quem ficou com os olhos bem abertos durante a exibição, pôde assistir ao melhor filme da noite, IMHO. Da “roqueira” e estilosa cena do primeiro assassinato a seqüência hitchcockiana do porão, Zodíaco pode ser considerado por alguns um filme “parado”. Dependendo das suas expectativas, talvez seja. Para mim, muita coisa aconteceu nas mais de duas horas de filme. As vidas de algumas pessoas saíram dos trilhos - e é este descarrilhamento coletivo que vale o ingresso.

Nota: As fotos que ilustram este post, com exceção da primeira, fazem parte do álbum de imagens do Sesi Alagoas sobre o evento.

View Comments (6) RSS Feed for Comments on this Post

Acabo de receber um e-mail me convidando para a sessão de imprensa de Cão Sem Dono, filme do Beto Brant que adapta o livro do Daniel Galera, que irá estrear em breve no Cine Sesi.

O problema é que a sessão será realizada as 11 da manhã.

Sacanagem.

View Comments (3) RSS Feed for Comments on this Post

Quem me conhece bem, sabe da minha má-fama com comida. Meu cardápio é mais limitado do que “insira a sua analogia engraçadinha entre as aspas, por favor”. É motivo de discussões hilárias com a Ana, meus pais, avós e amigos. Apesar de reconhecer minha limitação, os esforços para tornar o meu paladar mais apurado são mínimos; algo que admito sem vergonha alguma por me considerar um tipo (in)comum de cara-de-pau. Foi difícil, no entanto, não ficar babando ao assistir a nova animação da Pixar: Ratatouille.

Sob o comando habilidoso de Brad Bird, a película animada não se restringe a ser deslumbrante apenas nos itens culinários que desfilam na tela diante dos nossos olhos - a textura e os gestos dos personagens, assim como o retrato fascinante da Cidade Luz, são de deixar qualquer telespectador embasbacado. O que há de melhor da animação norte-americana hoje tem gravada em si a marca da Pixar. O conteúdo de qualidade, outro fator importante do estúdio, está também presente, fazendo de Ratatouille uma de suas melhores produções.

Na história, o ratinho Remy tem na cabeça um sonho (quase) impossível de ser realizado: transformar-se num cozinheiro, um chef. Sua condição de rato torna, obviamente, tudo extremamente complicado. Morando no interior da França com uma colônia de ratos liderada por seu pai, sua vida dá uma guinada quando ele começa a acompanhar o programa de TV culinário do renomado Auguste Gusteau, chef do famoso restaurante Gusteau’s, em Paris. As coisas se complicam quando a proprietária do aparelho televisivo, uma velhinha solitária, apanha o protagonista em sua cozinha, bem no meio de seus ingredientes.

Após a colônia ser descoberta pela velhinha, os ratos precisam debandar o quanto antes. Na fuga através do esgoto, Remy se perde do pai, do irmão e dos amigos. E acaba parando na capital francesa, dando de cara justamente com o restaurante de seu ídolo - que morrera recentemente e teve seu posto de chef assumido pelo arremedo de gente Skinner, que se aproveita da boa fama do Gusteau’s para vender comida semi-pronta.

Através de Linguini, o jovem faxineiro recém-contratado do estabelecimento, Remy terá a chance de colocar em prática seus dotes culinários.

A tarefa de conduzir essa história ficou por conta do diretor Brad Bird, também responsável pelo roteiro do longa animado. O trabalho, no entanto, não surgiu da mente do mesmo diretor d’Os Incríveis: o animador Jan Pinkava, de Vida de Inseto e Toy Story 2, foi o responsável pela concepção original. Seu roteiro, entretanto, enfrentou problemas com os chefões da Pixar. Com o projeto prestes a entrar no cronograma de produção, Bird foi convocado em cima da hora para assumir o script e a direção do mesmo. E, sem dúvida, foi uma das mais acertadas decisões que [os chefes] poderiam ter tomado.

Com Os Incríveis, Bird fez o que Tim Story e a Sony/Marvel não conseguiram: uma das melhores aventuras do Quarteto Fantástico em muito tempo. Com Ratatouille, cozinhou uma bela história sobre a busca pelo sonho (aquele que todos temos em algum momento da vida) e a aceitação (por parte dos outros e de si próprio). Definição simplória, eu sei. Mas todas as sutilezas e reflexões que o filme traz só podem ser apreciadas, de fato, ao se assisti-lo. Um saboreio que não se dará com gargalhadas estrondosas, mas com risos gostosos e algumas lágrimas de emoção.

No meu ranking pessoal, os [meus] três longas preferidos da Pixar ficam entre Monstros S.A., o mais engraçado; Os Incríveis, os mais aventuresco; e agora Ratatouille, o mais tocante. E é justamente isso que eu espero do estúdio: mais.

View Comment (1) RSS Feed for Comments on this Post

Em maio deste ano, o Cine Sesi Alagoas comemorou um ano de atividade. Para celebrar a data, montou toda uma programação especial - exibiu diversos filmes nacionais na mostra Semana Sesi Brasil e realizou o primeiro Corujão Cine Sesi. Este último superou todas as expectativas e simplesmente lotou a sala do antigo Cine Art Pajuçara, para a surpresa da direção da casa e do próprio público.

Em agosto, o Cine Sesi irá realizar a segunda edição do Corujão, que tem tudo para ser ainda melhor.

Na tela, serão exibidos o curta-metragem Texas Hotel e o elogiado longa Baixio das Bestas, produções nacionais dirigidas pelo pernambucano porralouca Cláudio Assis (Amarelo Manga); o espanhol Princesas e o norte-americano Zodíaco, do excelente David Fincher (S7ven e Clube da Luta).

Após a exibição de Baixio…, teremos um bate-papo especial com o diretor Cláudio Assis, que teve sua participação confirmada pela direção do Cine Sesi. Com certeza, um evento especial para qualquer cinéfilo que se preze.

Os ingressos, que custam a bagatela de R$ 12 a inteira e R$ 6 a meia entrada, começam a ser vendidos a partir do dia 2 de agosto, e estarão disponíveis até durar o estoque.

O Corujão começa a partir das 22:30, que será aberto pelo Coral do Sesi, seguindo madrugada adentro. Como da primeira vez, a maratona deve terminar lá pelas 5 ou 6 da manhã, e o público contará com mais um café-da-manhã especial.

View Comment (1) RSS Feed for Comments on this Post

O hype é uma coisinha realmente maliciosa. Esperava-se que 2007 seria “o” ano das continuações. Homem-Aranha 3, Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado, Piratas do Caribe 3: No Fim do Mundo, Shrek Terceiro passaram… e nenhum pareceu merecer levar o título de blockbuster norte-americano da temporada. O vencedor, no entanto, acabou caindo nas mãos de uma película estreante: o revival em live action de Transformers, os brinquedos mais famosos da empresa Hasbro.

Não que o hype estivesse necessariamente a favor da película produzida pela Dreamworks de Steven Spielberg. Pelo contrário: além do pavor óbvio dos fãs dos personagens em ver uma transposição aquém do esperado na tela grande (mesmo com o poderio dos efeitos especiais de hoje, o receio foi tremendo), a coisa ficou séria quando o nome de Michael Bay foi anunciado como diretor do filme. Quem não se perguntou se a escolha do sujeito que comandou “pérolas” como Pearl Harbor e A Rocha foi uma lástima, que atire a primeira pedra.

Mas se os primeiros trailers impressionaram, o filme em si fez muita gente morder a língua. Eu mordi: Transformers é um primor de efeitos especiais e de nerdices por minuto quadrado. Michael Bay, finalmente, foi 100% bem-sucedido numa empreitada cinematográfica.

Há uma história rasa (e com um bocado de furos, claro), mas que cumpre bem o seu papel. Basicamente, trata da guerra de milhares de anos entre os Autobots e Decepticons, originários do planeta Cybertron. O conflito chega à Terra quando as máquinas orgânicas disputam a posse do All Spark, item capaz de dar a vitória certa para qualquer um dos lados em combate. O que nos leva a Sam, personagem interpretado por Shia Lebeouf, o atual detentor da localização do artefato. Ao lado da gatíssima atriz Megan Fox e sua barriga moldada à mão, Lebeouf topa com figuras do naipe de John Turturro, Anthony Anderson (impagáveis) e John Voight. Mesmo encarando este mar de experiência, o jovem ator é o que mais se destaca. É ele quem nos faz acreditar (além dos efeitos especiais, claro) que aqueles robôs realmente estão ali.

Ao longo do filme, podemos identificar diversos momentos com a marca de Bay. Quem já assistiu ao menos dois filmes do sujeito irá reconhecê-los. Mas não há exageros, e isso se deve, claro, a presença de Spielberg na produção. Foi o renomado diretor que vendeu a idéia de Transformers para Bay como um filme sobre um garoto e o seu primeiro carro. Durante as duas horas e vinte de projeção, você encontrará esta idéia na tela - fundida com ação frenética, humor impecável e uma trilha sonora constituída por diversos clássicos dos anos 80 (cortesia do ex-fusquinha e atual camaro Bumblebee). Até um pouco de breguice, também: tem coisa mais boba do que ouvir o som da transformação original do desenho animado e achar isso simplesmente o máximo?

Ah, dane-se. Estamos falando do blockbuster do ano aqui. Todo o entretenimento e nostalgia que ele trouxe vale a babação.

View Comments (3) RSS Feed for Comments on this Post