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A Cerca Real dos Macacos

Havia esta estrada de terra batida. Não era muito larga, mas não se podia chamá-la de estreita. Em tempos de chuva, podia se ter certeza da sua intransitabilidade. Mesmo veículos altos, com tração nas quatro rodas, não seriam jogados nas crateras formadas numa velocidade acima dos trinta quilômetros horários. No estado recente, isso não seria problema — o único efeito colateral, nuvens de poeira cortante de tonalidade bege, recairia sobre os eventuais transeuntes interioranos.

A estrada era margeada, de ambos os lados, por cercas de arame farpado que pareciam não ter fim. Dentro do enorme espaço que elas delimitavam, via-se algumas casas carcomidas, ocupadas por pequenos produtores rurais e seus rebanhos minguados. Mas não se iluda, caro leitor: no interior de Alagoas, alguns poucos empresários é quem têm o direito real a propriedade das terras. Esses produtores são o que chamamos de agregados. Foi num pequeno curral destes agregados que se desenrolou a parábola a seguir.

Passavam das quarto da tarde. Ao lado esquerdo da estrada de terra batida, em determinado ponto do trajeto, a cerca subia, ficando centímetros acima do nível da pista. Neste trecho, havia um pequeno pasto. Não passavam das dez cabeças os bovinos ali presentes. A maioria estava deitada, banhando-se de sol. Dois deles, no entanto, estavam de pé: cabeças e chifres roçando, como se uma disputa tomasse forma. Um era branco. O outro, preto.

O branco deu uma cabeçada de leve, afastando o oponente de si por poucos centímetros. Isso foi suficiente para que, utilizando suas patas traseiras, tomasse impulso para o alto. As dianteiras dançaram no ar, a cabeça inclinando-se ainda mais rumo ao céu. Se o sol fosse o de meio dia e os chifres constituídos de aço, estes reluziriam. O preto não teve muito tempo para tomar qualquer atitude de defesa: levou uma nova e certeira cabeçada, forte, bem no meio do juízo.

Assim, o branco provava sua superioridade no curral perante o preto.

Em solo tombado

Há uma certa magia para mim no que diz respeito ao interior de Alagoas e suas cidades. Principalmente as de importância histórica. E não porque eu as conheça de longa data, mas pelo fato de que, nos últimos anos, fui tomado gradativamente por uma consciência alagoana. Aprendi a apreciar, sem imposição de terceiros, a Maceió, minha cidade. Em seguida, foi se formando uma boa curiosidade em relação ao interior, seu estilo de vida e peculiaridades. Já fui a Piranhas e fiquei apaixonado pelas casinhas antigas pintadas em tons berrantes e ao banho morno no São Francisco; em Delmiro Gouveia, terra natal da Ana, a história do empreendedor (e tomador de filhas alheias) de naturalidade cearense, que teve seu nome dado à cidade, me deu xurumelas na cabeça; passei por Viçosa, Atalaia, Pilar, Marimbondo e vi as feiras itinerantes, com gente carregando osso de baleia na capota de carro, mostrando cobras e convencendo o povo a comprar os elixires naturais que curam de hemorróida a problemas pulmonares.

Minha última visita foi a União dos Palmares, aquele lugar que aprendemos nas aulas de História ser a terra de Zumbi: o negro considerado o maior dos líderes da resistência quilombola contra o governo português; que matou o antigo líder Ganga Zumba quando este fez acordo com a Coroa; que dizem ter se casado com uma branca raptada por suas próprias mãos; que foi esquartejado e teve seu pênis colocado na boca morta, e por isso alguns estudiosos acham que o sujeito também teve sua cota homossexual (há uma teoria que afirma que esse tipo de coisa só acontecia com quem se sabia ser gay, mas em União me disseram que essa idéia já havia caído por terra).

Os três dias passados por lá se deram graças a Ana, que foi a cidade a trabalho — a instituição que ela representa esteve envolvida em atividades referentes a Semana da Consciência Negra, aberta em União, oficialmente, na noite da última sexta, 16 de novembro. Chegamos no município na quarta, depois das nove da noite. Ana resolveu algumas pendengas e, depois, fomos diretos fazer o check-in no hotel. A incursão na história da cidade que um dia foi chamada de Cerca Real dos Macacos começaria mesmo no dia seguinte.

A Lagoa dos Negros

No dia 15, data da (cof, cof) Proclamação da República, evento que envolveu um determinado alagoano, saímos a rua para desbravar a tão falada terra de Zumbi. Conheci, graças a Ana, algumas lideranças políticas, culturais e sociais da cidade. Uma delas foi o Elson Davi. O camarada é formado em Ciências Sociais, possuindo habilitação, também, em ciências políticas e antropologia. É professor, compositor, músico e vocal da banda Escrúpulo Douda. Tudo isso com 24 anos. Ele foi o nosso cicerone — e a pessoa que me esclareceu a questão do homossexualismo do líder de Palmares.

Depois de resolvermos questões relacionadas ao evento e de um almoço carregado n’A Porteira, restaurante fora dos limites da cidade e que só se chega através da BR, demos início ao passeio “turístico”. O primeiro lugar a ser visitado não poderia ser outro: a famosa Serra da Barriga e o Parque Memorial Quilombo dos Palmares (oficialmente inaugurado na noite do dia 19, segunda).

A subida, mesmo de carro, não deixa de ser um martírio. Se hoje o acesso, mesmo com a terra planada e coberta de paralelepípedos em certos trechos, é moroso, imagine nos tempos de quilombo? Este é um dos primeiros motivos óbvios identificados para a escolha do lugar como QG de Zumbi. Outros você descobre quando chega ao topo.

O Parque Memorial é bonito, formado por algumas poucas construções que caracterizam, hoje, as que existiam no passado. Em diversos pontos, há caixas de som, onde, ao pressionar os botões de um painel, é ativado o depoimento de algum artista negro falando um pouco sobre a história de Zumbi e do Quilombo. Figuras como Carlinhos Brown, Leci Brandão e o alagoano Djavan estão presentes nesses áudios. Segundo soube, foram gastos mais de 1 milhão de Reais na construção do Parque. Uma pena que não pensaram em realizar escavações arqueológicas antes de limparem o terreno. Este “pequeno” erro de logística deve ter custado um bocado de dados históricos de suma importância sobre a história dos negros. Pelo menos, foi o que chegou aos meus ouvidos.

Andando pelo Parque, temos algumas atalaias, pontos altos de onde se monta guarda. É possível ver tudo ao redor da Serra de cada uma delas. A visão, além de uma beleza ímpar, traz uma reflexão acerca da realidade do Estado: a perder de vista, as terras que circundam o Quilombo pertencem apenas a três pessoas. Três, segundo o Elson. Usineiros, políticos, empresários, gente de influência; eles são tudo isso, os três senhores de engenho. E pode apostar que um ou outro tem fama de Coronel. No interior de Alagoas, coronel sem patente é o que não falta. É a nossa sina, ser comandado por quem tomou o poder na base da bala e do cabresto.

Elson, como um bom cicerone, recomendou um lugar de beleza ainda maior no Quilombo (se é que isso era possível): a Lagoa dos Negros.

Para chegar a ela, era preciso seguir por uma descida de barro batido e repleto de pequenas valas; que, se percorrida por alguém desatento, resultaria numa tremenda queda. Para chegar a descida propriamente dita, você passa pelas residências dos poucos moradores que sobraram na Serra da Barriga. Poucos negros, pelo que pude constatar, a propósito. E é uma das coisas que se precisa ser dita sobre o(s) quilombo(s): apesar dos negros serem a maioria e aqueles que regiam a cultura daquela(s) pequena(s) sociedade(s), havia ali índios, brancos e qualquer outro a viver a margem e contra o governo português.

A chegada a Lagoa dos Negros é de encher os olhos. Se você acredita na idéia do Paraíso cristão, deixa eu te contar uma coisa, amigo(a): os negros encontraram uma versão palpável no Planeta Terra. É um lugar que impõe ao visitante uma aura de paz — e falo sério no que diz respeito ao impor. Ana e eu nos sentamos calados por um bom tempo, apenas observando o cenário. Ela teve que insistir para que fôssemos embora.

“Você ouviu isso?”, Ana perguntou quando nos dirigíamos a saída da Lagoa.
“O quê, amor?”
“Um barulho como se fosse de um gato, sei lá.”
“Não, não ouvi nada.”
“É, deve ter sido a árvore rangendo.”
“É.”

Mistério.

Muquém

O fim do dia foi marcado com uma visita a comunidade quilombola do Muquém, localizada na região periférica de União. Lá aconteceria um desfile da beleza negra com meninas e moças do lugar. Chegamos justamente no momento no qual elas eram maquiadas com elementos da cultura afro. É também no Muquém que reside Dona Irinéia, a artesã de maior renome na região, responsável por um belíssimo trabalho com cerâmica. Ela nos recepcionou, fazendo festa quando a Ana chegou — ambas se conhecem por causa do trabalho da Ana e que não cabe explicar aqui, né?

Como o desfile ia atrasar e nós tínhamos outros compromissos, sendo que o principal deles era descansar um pouco, voltamos para o hotel. No caminho, havia uma estrada de terra batida (…).

Interlúdio

Quinta a noite foi o momento de uma leve confraternização, dá licença. E aqui abro espaço para divulgar o ótimo Chimbra’s Bar (Chimbra = Bola de gude, para os estrangeiros), no centro de União. Foi por lá que encontramos o Allison, do Mr. Freeze, tocando também com um grupo de Maceió que agora me foge o nome (quando lembrar, corrijo o texto). Não demorou muito para que nosso compadre Elson subisse ao palco e nos brindasse com suas habilidades musicais.

Passamos fácil das três da manhã no ritmo do Chimbra’s. Na sexta, quase que não levantamos. Mas conseguimos.

Solenidade

Sexta-feira 16 foi dia de correria, estresse e bastidores que não podem ser lançados gratuitamente na Internet. Deus está de olho e (in)fiéis podem fazer mal uso de certas informações. Mas o esforço não foi em vão. Quando a noite caiu, autoridades municipais e estaduais marcaram presença na abertura oficial da Semana da Consciência Negra em União dos Palmares. Entre eles, o sr. Osvaldo Viegas, nobre secretário de cultura de Alagoas e homem de cultura vasta. Seu longo discurso valeu cada minuto; inclusive pelas alfinetadas carinhosas que deu na representante da Fundação Palmares que compunha a mesa solene.

O que me leva a um parênteses: (Eu não fazia idéia qual era a maior finalidade da Fundação Palmares. Descobri isso apenas em União: ela atua no gerenciamento da Serra da Barriga. Em bom português, ela manda e desmanda lá no Quilombo dos Palmares. A pegadinha, digamos assim, está no fato dela ser um órgão federal. Município e Estado, além de não terem, pelo que entendi, direitos reais sobre o local, não levam nada em termos financeiros. Claro, se a Serra fosse administrada pelo Município ou pelo Estado, era bem capaz de nem existir mais! Ou de ter virado uma plantação de cana. Enfim… fiquei com a pulga atrás da orelha.)

A abertura, realizada no auditório da Prefeitura e acompanhada pelo vice-prefeito Kiu — que devia ganhar as eleições ano que vem, pelo trabalho que anda fazendo na cidade —, foi seguida de um debate com dois professores da UNEAL (Universidade Estadual de Alagoas), mediada pelo Elson. Um deles, do qual não lembro o nome agora, veio da Paraíba após prestar concurso no interior daqui. Fascinado pela história dos negros, quando chegou a União dos Palmares, terra de Zumbi e marco da resistência negra, mal encontrou vestígios da mesma. Segundo ele, a explicação surgiu quase que de imediato: os brancos venceram. Ponto.

A cena (verídica, por mais que pareça que eu esteja usando meu talento de escritor de ficção para enganá-los com lições de moral) com os bois resumia o que o professor havia falado. Os negros foram mortos, arrasados. Os poucos que sobraram vivem à margem da sociedade, esquecidos por um povo (branco) que renega que sua cidade é uma referência para a cultura social afro-brasileira. Alguém me disse, e omito aqui o nome para não lhe causar problemas, que União dos Palmares é a cidade que apresenta o pior tipo de racismo que existe. E não deve ser difícil imaginar o porquê.

Eco

A viagem a União e o contato com o Quilombo dos Palmares me trouxe novos pensamentos sobre a realidade sócio-cultural de Alagoas, algo que só vem a acrescentar a consciência que ando tomando do meu Estado. Que tem muita coisa de querido, mas diversas outras de indignação. Vergonha não. Chega de ter vergonha da nossa História, por mais cretina que ela possa ser em alguns momentos.

Agradecimentos especiais

A Neide, pela ótima recepção, bom humor e a companhia na hora de fumar; ao Elson, nosso cicerone oficial e agora grande amigo em União; a Martha e a Lúcia, que animaram ainda mais o trabalho; ao Chimbras pela conta da noitada; e a Ana, claro, que me rebocou com todo o meu concedimento para a viagem e, juntos, vivemos momentos para lembrar por anos a fio.

As fotos que ilustram este post foram tiradas na Lagoa dos Negros, e podem ser vistas numa resolução maior no meu Flickr.

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Assisti num telejornal local uma breve matéria sobre ações preventivas realizadas pela Polícia Militar nos últimos dias. A direção da corporação elaborou um esquema de revista em três pontos distintos da capital Maceió, onde motoristas comuns, taxistas e lotações foram parados, digamos, “aleatoriamente” para inspeções. Além de servir para “evitar” possíveis atos criminosos de cidadãos mal-intencionados, as batidas marcaram o batismo dos calouros recém-chegados a instituição.

A iniciativa da PM mostra a situação na qual se encontra a segurança no estado de Alagoas. Tudo bem, quem é da terrinha e não é alienado, sabe muito bem que o bang bang é algo mais do que comum no nosso cotidiano - e que ele tem crescido de modo assustador nos anos recentes. O que não significa que devamos continuar acostumados a ela e, acima de tudo, desistir dos nossos direitos em prol de determinados atos preventivos.

Claro, dada a situação atual, todo mundo acha mais do que normal e justificável iniciativas do tipo acontecerem. Sinceramente, se fui uma delas, acho que não sou mais. E tenho lá meus motivos.

No último sábado fiz algo que alguns definiram como radicalismo, presepada e termos congêneres: trancei o meu cabelo. Fiz aquele penteado afro - e que dói pra cacete, a propósito - no qual se amarram os fios com elástico do começo da sua testa até o fim da nuca. Não tive um motivo específico para isso e nenhum estímulo de alguém pop. Revolta muito mesmo (a definição seria masoquismo, oras!). Deu um estalo na cabeça e a vontade de mudar o visual veio. Simples. Fui ao salão afro com a Ana e encarei três horas na mão da cabelereira, que pegou leve comigo, apesar de todo o sofrimento.

Qual o grande problema dessa mudança e o que tem a ver com o assunto levantado lá no início?

Primeiramente, eu não sou negro. Se fosse, seria bem capaz das pessoas assimilariam o visual com maior tranqüilidade - só eu pensei na formulação cretina de “isso é coisa de negro”? Pois é, ridículo, mas acho que isso serviria como amenizador. Segundo: Maceió é a capital da província das Alagoas. Imagino que num estado como a Bahia - principalmente Salvador -, um pardo, branco ou amarelo poderia passar teoricamente batido com um penteado desses. Você consegue imaginar um lugar onde se valorize mais a cultura negra do que lá? Nem eu. Mas que diabos: moro na terra de Zumbi dos Palmares! Ele deveria representar o negro com mais força do que toda a Bahia.

Utopia, vamos lá. O alagoano deve ser o mais sem memória dos brasileiros. Não todos. Mas a maioria. Quem vai lembrar dum negro que levou a vida roubando dos brancos e fumava unzinho com a rapaziada para celebrar?

Agora visualiza um pardo andando com o cabelo trançado numa cidade retrógrada: você terá as definições que elenquei no quarto parágrafo. Encarei algumas delas por aí - afinal, as pessoas temem aquilo que desconhecem, como diria o Professor Xavier num de seus momentos inspirados. Mas encontrei apoio, também, o que serviu para estreitar certos laços. A Ana ficou com receio disso e outras coisas, assim como meus pais.

Só que aí aconteceu algo que deixou meu pai mais aflito.

Ele havia ido me buscar no trabalho. Antes de voltarmos para casa, fomos até a padaria. No caminho, cruzamos com um grupo de policiais militares parados numa rua em declive que dá para uma das favelas que circundam o bairro onde moramos. Estranhamos a presença deles ali, afinal, quando mais se precisa da segurança pública, acabamos ficando na mão. Ao chegarmos na padaria, meu pai desceu para comprar pão. Fiquei aguardando no carro.

Naquele meio tempo, surgiu o carro dos mesmos policiais militares que estavam há quadras dali. Brecaram de repente. Do automóvel, um deles já deu uma chamada com o rigor tipicamente agressivo das autoridades constituídas num rapaz negro, vestido de boné, camisa florida, bermuda e havainas, que estava encostado no poste defronte a padaria, quase do lado ao carro onde eu estava. Quando desceu, o tal policial, um careca corpulento, sacou a pistola e mandou o sujeito colocar as mãos na cabeça e ficar de cara pro poste. Outro militar ficou responsável pela revista.

A poucos metros da situação - e que havia atraído a atenção de todo mundo na padaria, na banca de jornais e na locadora do lugar -, pude ouvir tudo o que o policial careca falava pro rapaz negro. Perguntou o que ele fazia ali. “Tô esperando um colega meu sair”, foi a resposta que eu entendi. O oficial, claro, não se convenceu. Disse para o rapaz negro que não tinha amigo algum ali e que ele devia circular. Depois que a revista acabou e NADA foi encontrado com ele, o militar careca repetiu a ordem pro sujeito sair dali.

“Tá vendo, fulano. Dizendo que tá esperando o amigo. Não tem amigo nenhum. Ele espera o movimento cair pra depois roubar”, declarou o grandalhão. Não sei se mais alguém ouviu, mas nem precisava. A pirotecnia havia surtido efeito: todo os “cidadãos de bem” ali presentes ficaram vidrados com a ação policial. Eles com certeza se sentiram mais seguros depois de verem aquilo. Meu pai disse que os comentários na padaria aprovaram a intervenção, o que corrobora a minha constatação.

Claro: pegar o primeiro negro pobre que aparecer pela frente e revistá-lo na frente de um bando de brancos de classe média mostra que estamos realmente seguros. Parabéns, polícia militar!

E vocês linkaram os fatos? A ação policial que vi foi a mesma que noticiaram na TV no dia seguinte. Tanto que na matéria o meu bairro foi um dos três escolhidos pela cúpula da polícia. Bairro que, meses atrás, teve sua principal rua interditada por um protesto dos moradores, cansados da violência constante e da desasistência da segurança pública. Coincidência?

Onde o meu cabelo com trançado afro entra no assunto?


Nessa onda de ações preventivas acontecendo na capital alagoana, você não acha que um pardo de cabelo trançado e fumante de cigarro de palha não possa ser parado na rua a qualquer instante, sendo confundido com um maconheiro qualquer? Nada contra os maconheiros, mas a polícia adora a referida classe, não é? Imagina o que é passar pelo mesmo constrangimento que o negro que estava na frente da padaria outro dia? E que, a propósito, voltou lá (com a polícia ainda presente) depois que o mandaram passear, provavelmente para provar que tinha um amigo seu ali. Não vimos o desfecho da situação, mas só a atitude do cara em voltar conta alguma coisa, certo?

Eu acho que vou fumar meu cigarro de palha com a galera do beque que fica no Corredor Cultural Vera Arruda, no Stella Maris, área classe média alta de Maceió. Lá tem um coreto no qual os filhos adolescentes dessa mesma classe média alta fuma unzinho a qualquer hora do dia sem ser incomodada. Na verdade, a coisa tá evoluindo. Meu cunhado - e eu, posteriormente - viu que o crack está chegando por ali. Claro, o uso ainda não é público. Mas como instituições como a polícia militar decidiram que os pontos críticos são mesmo os lugares onde os pretos e pobres moram, não duvido ver uns cachimbos qualquer dia desses.

A situação não é tão preto no branco, eu sei. Mas cansa a estupidez da classe média, que poderia fazer a diferença, ao engolir os fogos de artifícios que lançam na cara dela. É de dar dó como a evolução pára no tempo em algumas partes deste globo.

P.S.: Originalmente, a história sobre o meu cabelo trançado e a repercussão que ele gerou seria comentada num outro texto; um mais divertido, inclusive, a se chamar “É por isso que os X-Men são legais”. Acabou que eu presenciei a ação policial na padaria próxima de casa e juntei tudo numa coisa só, já que a conversa que tive com meu pai antes do ocorrido foi justamente sobre pré-conceito policial. Traduzindo: não, não estou me fazendo de coitadinho nem de perseguido. Apenas aproveitei a oportunidade e aliviei o meu lado cortando um texto. =)

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Em 1987, a editora norte-americana DC Comics publicava a graphic novel Batman: O Filho do Demônio (Batman: Son of The Demon, no original), escrita por Mike W. Barr e ilustrada por Jerry Bingham. Na história, o Homem-Morcego é obrigado a aliar-se a um de seus mais nefastos inimigos, o ‘imortal’ Ra’s Al Ghul. A publicação, no entanto, é lembrada por um polêmico sub-plot desenvolvido ao longo de suas páginas: nele, Bruce Wayne e Talia, filha do vilão, tem um filho.

Ao final da graphic novel, Batman é induzido a achar que Talia perdeu a criança, o que o faz desistir da idéia de construir uma família, voltando para Gotham e o combate ao crime. A vilã dá a luz a um menino e, em seguida, o deixa num orfanato. O garoto é então adotado por um casal ocidental. Seu único elo de ligação com os pais é um colar incrustado dado por Wayne de presente à sua amante.

O paradeiro do “filho do demônio” ficou nublado durante vários anos. Por um tempo, falou-se que sua história não pertencia a cronologia oficial do Universo DC, sendo um Elseworld (no Brasil, conhecido como Túnel do Tempo). Mas segundo declaração de Dennis O’Neil, ex-editor do grupo Batman e um dos escritores do personagem na Era de Prata, a graphic novel de Barr e Bingham fazia, de fato, parte da cronologia oficial.

Confusões temporais à parte, o escritor escocês Grant Morrison decidiu ressuscitar o plot do filho do Cavaleiro das Trevas ao assumir, na edição #655, a série mensal Batman ao lado do desenhista Andy Kubert. O arco em quatro partes, intitulado “Batman & Son”, apresentou Damian Wayne, a cria do maior detetive do mundo ao lado da terrorista Talia, que agora tocava os negócios do pai, o falecido Ra’s Al Ghul. Encarregado subitamente da guarda do garoto, Bruce Wayne precisou, enquanto combatia o crime em Gotham, controlar o ímpeto assassino de Damian - que, dentre diversas ações intempestivas, deu uma surra em Tim Drake, o Robin, por causa de ciúmes.

Após a conclusão do arco no número #658, Damian sumiu das páginas da série, aparentemente morto. Agora, na simbólica edição #666, ele retorna já adulto: num futuro próximo, ele é o Batman, o protetor da sofrida Gotham City. Com o mundo em colapso, o novo Cavaleiros das Trevas se prepara para impedir o apocalipse iminente.

O NÚMERO DA BESTA

666, conhecido como o Número da Besta, é um conceito originário da bíblia cristã encontrado no Apocalipse do Novo Testamento. No versículo 13:18 do referido livro, temos a seguinte passagem: “Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis.”

O número se referiria ao Anti-Cristo.

Segundo manuscritos gregos, há ainda a teoria de que três crianças nasceriam para tentar dominar o mundo, disseminando a discórdia entre a humanidade. Cada uma delas levaria o número 666. Morrison começou a explorar esse conceito de forma análoga desde o início de seu run na série: em sua primeira edição, a parte um do arco “Batman & Son”, vemos o Coringa enfrentando um falso Batman armado - que revelou-se depois ser um policial. Números à frente, o Cavaleiro das Trevas encontra sua segunda cópia deturpada: um brutamontes parecido com Bane, o vilão que aleijou a criação de Bob Kane no início dos anos 90, que tomou para si as prostitutas e parte de um bairro onde elas faziam seus programas.

É na última parte dessa história que Bruce Wayne fala de um estranho sonho. Nele, o herói teria encontrado três versões de si mesmo. Ele interpretou o sonho como um tipo de mensagem; e restava encontrar o “terceiro Batman”, aquele que, para Wayne, seria o responsável por algum tipo de plano secreto contra ele.

O SEGUNDO ADVENTO

Em Batman #666, Damian assumiu o manto de seu pai, morto numa situação não-explicada na história, anos no futuro. Gotham, assim como o restante do planeta, está condenada pelo terrorismo, poluição e corrupção. Utilizando as habilidades apreendidas em sua infância com o treinamento da Liga dos Assassinos, o novo Batman tenta interceptar o terceiro dos Batmen a assombrar o falecido Bruce Wayne. É ele o responsável pelo assassinato de cinco vilões em diferentes pontos da cidade. Algo que acaba por se revelar como uma enorme pista, um convite para o duelo final entre os homens-morcego.

Morrison, mais uma vez, utiliza de sua bagagem cultural para abrilhantar um ícone da cultura pop norte-americana numa história repleta de referências e alegorias. A começar pelo título da trama: “Batman in Bethlehem”.

‘Bethlehem’ é a maneira como se grafa o nome de Belém, a Terra Santa, em latim. Seu significado, traduzido, quer dizer ‘a casa do pão’. Sua presença no título da história referencia não só a cidade onde Jesus nasceu, mas também ao poema “O Segundo Advento”, do irlandês William B. Yates.

Yates, nascido em Dublin e falecido em Menton, França, foi, além de poeta, dramaturgo, místico e figura pública. Um tipo de artista que se encaixa perfeitamente nas preferências de Morrison - que é também conhecido por uma carreira bem-sucedida no teatro e pela atuação como mago do caos. O poema citado, originalmente batizado de “The Second Coming” e publicado em 1920, fala de um mundo em colapso e da chegada da Besta, o Anti-Cristo, à cidade de Belém.

Na história do Homem-Morcego escrita por Morrison, Gotham City representa não apenas a Belém do poema, mas o mundo à beira da destruição. O que constatamos, por exemplo, quando Damian assiste aos diversos noticiários no monitor da nova Bat-Caverna: terrorismo, problemas ambientais, confusão social… problemas encontrados no mundo real, pontuando outra alegoria proposital do autor.

O Terceiro Batman, responsável pelo assassinato de cinco vilões do submundo de Gotham, é a reencarnação da Besta, o Anti-Cristo de colante escuro, digamos assim. Os cinco criminosos foram mortos em pontos diferentes da cidade; ao se conectar os locais, forma-se um pentagrama. A confronto final, supõe Damian, deveria acontecer no centro dessa projeção.

É interessante notar que, no começo da edição, o quinto vilão encontrado foi morto numa igreja: seu corpo foi pregado de ponta-cabeça numa grande cruz. Se ligarmos pontos a partir de sua cabeça indo até suas mãos e, em seguida, até seus pés, teremos a imagem de um pentagrama invertido. Na cultura chinesa, o símbolo de cinco pontas simboliza um ciclo de destruição - em cada uma de suas extremidades, temos representados um determinado elemento (Terra, Água, Fogo, Madeira e Metal).

O pentagrama na história pode significar uma era de renovação através da destruição. Esta se daria com o confronto entre Damian Wayne e o Terceiro Batman. O símbolo invertido encontrado na igreja pode se referir a uma possível queda dos valores religiosos, principalmente os cristãos, para a sociedade.

Ainda no começo da trama, quando Damian/Batman cita uma passagem do poema de Yates (Things fall apart/ the centre cannot hold/ Mere anarchy is loosed upon the world) para a Comissária Bárbara Gordon, que o completo com o trecho final (And what rough beast/ its hour come round at last/ Slouches towards Bethlehem to be born?), o vigilante afirma: “Bem-vinda à Belém, onde as forças das trevas encontram as forças… da luz.”, e ativa uma granada luminosa.

Na contextualização de Morrison, Damian seria um tipo de messias deturpado. Um Jesus amalucado e de colante necessário para salvar Gotham City do apocalipse iminente.

MORRISIANISMOS

Grant Morrison é conhecido pelo uso constante de metalinguagem em suas obras. Em Homem-Animal, série que o levou a ficar conhecido nos Estados Unidos, temos um dos exemplos mais marcantes disso. Já em “Batman in Bethlehem”, o escritor, de certo modo, se põe sutilmente na pele de Damian Wayne. Algo que percebemos quando, ao chegar na Bat-caverna, o personagem retira o capuz e revela sua cabeça totalmente raspada. Besteira, eu sei, mas em Invisíveis, sua aclamada série publicada sob o selo da Vertigo, King Mob, um dos anti-heróis protagonistas e publicamente conhecido como alter-ego de seu criador, também era careca. Coincidência?

Outro elemento recorrente é a presença de um gato na história. Na aventura apocalíptica do Homem-Morcego em questão, o bichano faz as vezes de Alfred, antigo mordomo e melhor amigo do falecido Bruce Wayne. Não sei ao certo de onde surgiu a preferência e eventual fixação do escritor por esses felinos, mas William S. Burroughs, que além de famoso escritor norte-americano e integrante do movimento beat é uma das principais influências literárias de Morrison, também possuía enorme paixão por gatos. Não é a toa que um de seus livros seja O gato por dentro, um apanhado de notas referentes à experiências particulares e fantasiosas que o escritor de Junky teve com todos os bichanos que passaram por sua vida.

Em Sete Soldados da Vitória, Morrison afirmou que os Sete Homens Misteriosos - vistos nas edições #0 e #1 da máxi-série - representavam cada membro da equipe criativa da publicação: o roteirista, o desenhista, o arte-finalista, o colorista, o letrista, o editor-assistente e o editor. Essa analogia também serve para definir o efeito ex-machina que o autor aplica em boa parte de suas obras, interferindo na resolução do conflito final do plot ou apenas exercendo um tipo de auto-referência.

Em Batman #666, vale a última: quando o Homem-Morcego afirma que “o apocalipse está cancelado. Enquanto assim EU disser.”, na última página da história, entendo como se o escritor escocês também tomasse parte da resolução, nos dizendo que ele contribuiu para que aquele universo ainda existisse depois daquele ponto. Ao final de seu run na série New X-Men, encontramos situação similar quando Jean Grey, como Fênix, permite que o universo mutante continue a viver.

“Batman in Bethlehem” é, definitivamente, a melhor história de Grant Morrison na série Batman. Pelo menos, até agora.

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O Senador Renan Calheiros chegou por esses dias à Maceió, capital das Alagoas - Estado que o elegeu como um dos senadores mais votados do país. Calheiros veio acompanhar a perícia que a Polícia Federal realizará na documentação que o próprio forneceu, e que provaria sua inocência no escândalo dos bois dourados.

Na manhã de hoje, o senador concedeu entrevista ao Bom Dia Alagoas, da rede Gazeta (afiliada da Globo no Estado), e para o programa policialesco Plantão Alagoas, da TV Alagoas (SBT e ex-Band). Neste último, Calheiros comentou sobre a invasão da fazenda do deputado Olavo Calheiros, seu parente, na cidade de Murici - reduto da família C e que tem como prefeito seu filho, Renan Jr. -, por parte de um numeroso grupo de trabalhadores rurais. Para o político, a invasão foi uma ação planejada. Só não foram dados nomes aos ‘bois’.

Sobre a pressão que sofre dentro do congresso nacional, Renan afirma que só sai de lá se apresentarem provas concretas de sua culpa. O que não deve acontecer, já que ele se declara inocente acima de tudo, e que irá atestar isso. Mas, se mesmo sem evidências quiserem tirá-lo da presidência do senado, Calheiros declarou que só sairá do posto se o jogarem numa fogueira ou se o puserem numa forca. Palavras calmamente ditas pelo próprio, acredite.

Ele diz uma coisa dessas porque sabe que 99% do Senador iria junto.

O que não significa que isso seja empecilho para que a Igreja Católica deixe passar a oportunidade de realizar o revival de uma de suas maiores empreitadas santas.

ATESTADO DE ÓBITO

Outros que não estão para brincadeira são os médicos que prestam serviço para o Estado: em greve há pouco mais de dois meses, eles começaram a cumprir o processo de demissão em massa depois da mais uma tentativa frustrada de conseguir aumento salarial por parte do governo. Quinze hematologistas e neurologistas entregaram na última sexta 20 seus pedidos de demissão.

Mais devem abandonar o barco caso o impasse entre classe e Estado prossiga.

A Procuradoria Geral do Estado, no entanto, veio acrescentar mais lenha à fogueira: além de converter a demissão em exoneração, impedindo os servidores que se demitiram de voltar ao serviço público antes de um período de cinco anos, entrará com uma ação de crime de omissão de socorro no Ministério Público. Quantas pessoas precisarão morrer para que esta ação seja, de fato, realizada, ainda não se sabe.

A classe média assiste a tudo impassível. Comenta aqui e acolá sobre os médicos concursados que não costumam dar as caras para cumprir as horas necessárias de serviço nos postos de saúde e hospitais públicos, pois estão ocupados demais em seus consultórios particulares. Quem sabe alguns desses sejam seus doutores privados.

SEGURA NÓIS

Se os médicos começaram a soltar os cachorros na última sexta 20, os moradores do Feitosa, onde resido, também: eles bloquearam o trecho da principal avenida que corta o bairro no final da tarde, deixando o trânsito nos dois sentidos um verdadeiro caos. Vi de perto a situação, já que estava retornando do trabalho para casa no horário do protesto - e que me obrigou a seguir a pé da rodoviária até a residência dos meus pais, coisa de um quilômetro ou mais.

Bloqueando a avenida com tonéis, os moradores protestavam por mais segurança no bairro após a ocorrência de um assalto, próximo a paralisação, naquele mesmo dia. Não consegui apurar se alguém foi ferido ou morto durante o roubo.

Na edição de hoje do Jornal da Pajuçara Manhã (Record), apresentado pelo jornalista Ricardo Mota, foi apresentada uma matéria sobre a violência no bairro. Os moradores entrevistados, visivelmente exaustos com a situação, afirmam que querem cercar as entradas/saídas das favelas que circundam a região. O Feitosa está espremido entre alguns complexos de favelas da capital alagoana, e os assaltos não têm hora e local para acontecer. Pontos de ônibus, padarias, mercearias, residências…

Tenho sorte: moro num condomínio fechado. Relativamente “fechado”, é claro. As coisas vão complicar se os bandidos furarem o nosso complexo sistema de segurança: constituído por uma guarita e um porteiro (desarmado, é claro). Ainda bem que ainda guardamos um facão enferrujado num quartinho. Se o meliante não morrer das estocadas, quem sabe ele não pegue alguma infecção feroz.

O quê? Você acha que eu vou bancar a classe média paz, amor e hipocrisia? Não que eu seja do tipo armamentista… mas se bater, leva de volta. Na medida do possível. É só não me deixar mais assustado do que já estou.

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Alagoas não vive um momento difícil apenas no âmbito nacional. Antes dos bois inflacionados do Senador Calheiros e outros fatos atingirem as manchetes principais do Jornal Nacional, internamente o caos se instalou por estas bandas no início do ano; para ser mais específico, no começo do mandato do ex-Senador e agora Governador Téo Vilela Filho.

Greves em diversos setores do estado, explosão da criminalidade e os escândalos de sempre vindos das entranhas do sistema. Até problemas com o fim do lixão da capital e a posterior instalação de um aterro sanitário causaram comoções variadas. Dentre as paralisações, a que continua vigorosamente a ocupar espaço no cenário alagoano é dos médicos do sistema público.

Eles batem o pé e querem aumento de salário para a categoria. Ameaçaram realizar uma demissão em massa caso não fossem atendidos. E compraram uma briga feia com a ex-Secretaria de Administração, agora chamada de Gestão de alguma coisa, e seu respectivo secretário; o fogo foi levemente controlado com a intervenção do Ministério Público, que decidiu ajudar nas negociações com o Estado.

Ontem, domingo 16, eles realizaram um ato de protesto na orla da Ponta Verde.

Na edição de hoje do Jornal da Manhã, na TV Pajuçara/Record, o apresentador e jornalista Ricardo Mota chamou a atenção para um ponto interessante da ação do sindicato dos médicos: por que a realização do mesmo se deu num bairro de classe média alta da capital, quando o interessante deveria se voltar para população carente, que é a principal consumidora dos serviços de atendimento de saúde pública do Estado?

Incrível também, ainda segundo Mota, como essa parcela da população ainda não explodiu em nenhum tipo de movimento social contra os médicos e o Estado. É vergonhoso como eles se mantém nos papéis de telespectadores da quebra-de-braço entre as duas instituições. Se no brasileiro como um todo é ausente o sentimento adequado de revolta social, no alagoano isso parece ser ainda mais agravante.

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O nome de Alagoas tornou-se lugar-comum nos últimos meses - principalmente nos 30 dias mais recentes - em todos os meios informativos do país. Os motivos, para a infelicidade dos conterrâneos que acompanham os fatos escabrosos, são os tropeços embriagados do governo azul de Téo Vilela Filho e o escandaloso affair do Presidente do Senado Renan Calheiros, do PMDB, com seus bois dourados (a Mônica Veloso deveria ser preocupação da Playboy, perita em acolher mulheres traídas, demitidas e que sofreram qualquer outro tipo de baque em sua vida pública).

O alagoano, considerando estas situações em particular, atua como de costume: se sente envergonhado, diminuído perante o resto da nação. O que seria uma atitude compreensível, caso Alagoas fosse a terra de pessoas honestas e puras e decentes e cristãs; e se os corruptos e ladrões e assassinos e calhordas só existissem nos demais estados componentes da Federação. Ambas as situações, obviamente, são mais do que irreais. Não que sentir vergonha de viver num mar de corruptos seja errado.

Mas meter a cara embaixo da terra porque Alagoas tem lá seus corruptos, pera lá.

A baixa auto-estima do alagoano não vale mais do que merda de minhoca. Porque a merda de minhoca, ao menos, aduba. A baixa auto-estima do alagoano, para um outro que já conseguiu se desfazer dessa maldição, é vexatória. Coisa que, como muitos sabem, não é de hoje. A situação é tão caricata que basta um alagoano se “dar bem” em outras bandas que isso é motivo de “celebração”.

O problema é que eles não enxergam o melhor da atual situação do estado: a oportunidade de mudanças definitivas em nosso contexto político e social.

Observemos os movimentos acontecidos nos seis meses deste primeiro semestre: greve de professores, greve de médicos e, por fim, a greve dos motoristas e cobradores do transporte público, que quase lançou a cidade no caos definitivo. As mancadas da atual gestão estadual e o embrólio do caso do Senador Calheiros abriram brechas para as reclamações, ironias e movimentos de paralisação. Apesar de um ou outro oportunista, eles (os movimentos) são justificáveis.

Mas nada disso seria possível se não fosse pela menina dos olhos do estado: Maceió, nossa sereia.

Porque crimes de mando, pistolagem, corrupção nos poderes públicos, trabalho escravo… tudo de torto acontece no interior. Pelo que sinto, e faço questão de usar essa expressão porque não posso compravar através de dados, que a cultura da população interiorana já assimilou esse status quo. Mas aconteceu em Maceió? Nossa, é o fim do mundo. É a sociedade civil organizada encontrando o apocalipse do séc. XXI. Revolta que você identifica nas passeatas, realizadas ao longo das orlas dos bairros de classe média alta, que pedem pela paz.

É triste, mas a verdade é essa. Maceió é uma ilha dentro de seu próprio estado.

No entanto, essa mesma ilha é a solução de boa parte dos problemas; o que nos faz voltar a idéia jogada parágrafos acima.

Estão em Maceió os indivíduos com real oportunidade de manifestação política, intelectual e cultural capazes de provocar algum estrago nos alicerces da Velha Guarda. São as pessoas que movimentam um show do Otto, por exemplo, porque elas estão com sede de novo e não se contentam mais com os shows de forró e brega pasteurizados de sempre; que lotam uma sessão tripla de filmes de arte, madrugada adentro, na salinha do Cine Sesi, porque o descaso com a distribuição e os arrasa-quarteirões hypados trazidos pelo Severiano Ribeiro não são o bastante; e que conseguem, diferente da prefeitura da capital e de certos órgãos, movimentar uma cena cultural em Jaraguá, o nosso Recife Antigo decadente, digamos.

Não cito tais grupos por serem descolados, na moda ou similares. Mas porque são os estudantes de jornalismo frustrados por só terem opção, em seu meio propriamente dito, numa única empresa, e tentam se resolver com fanzines e outros tipos de manifestações; o graduando de Direito que, com uma câmera digital na mão e uma ideologia na cabeça, mostrou o império escravocrata que a indústria da cana-de-açúcar mantém com nossos sertanejos; e o pessoal da música, sempre tentando estabelecer terreno. São as pessoas que, insatisfeitas, querem mudar o cenário. E que, ao menos, tentam fazer por onde. Com as bases políticas e mandatárias em crise, a brecha foi aberta para o golpe.

São eles que mantêm a minha crença na mudança. Que caminha paulatinamente, mas caminha.

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Maceió, o nome que batiza a capital alagoana, nasceu de uma expressão indígena do idioma tupi: Massayó-k, “o que tapa o alagadiço”. Li em algum livro ou numa matéria de jornal, porque a minha educação sobre a história do meu estado foi uma bela porcaria, que essa expressão também poderia significar “senhor do mar”. Ambas, considerando tanto a história quanto a geografia da cidade, têm bastante sentido.

Mas eu fico com “o que tapa o alagadiço”.

Porque eu gosto de imaginar que essa tradução, chamemos assim, referencia aos mangues encontrados comumente nas proximidades da faixa litorânea da cidade antes da colonização aqui chegar. Com o estabelecimento da ordem e progresso, o homem precisou aterrar o mangue para fixar sua morada, modificando a paisagem e transformando a natureza em estruturas cimentadas.

Esqueçamos por um momento que eu também sou filho do urbano e do tecnológico, e morreria de tédio depois de duas semanas numa área rural sem toda essa porcaria que injetamos em nossos cérebros para viver, para considerar a questão metafórica: porque eu quero dizer que nós somos aquilo que tapamos o alagadiço. Caranguejos disputando espaço na escuridão sob os galhos da vegetação vigente, ora nos protegendo ora garfando com as patas nossos supostos inimigos. Supostos porque, pela lógica do universo, nós somos irmãos e esse é o nosso espaço.

O nosso meio.

E é exatamente aí onde quero chegar: no nosso meio ambiente social e na hipocrisia clichê da classe média aparvalhada. Porque, vejam só, eles/nós – ou Os Outros, se você está por dentro dos esquemas pop contemporâneos – estão assustados com a violência que tomou de assalto as ruas, casas e estabelecimentos das áreas nobres da cidade de Maceió. E decidiram tomar uma atitude: fizeram uma passeata pela orla da capital, todos vestindo branco, pedindo paz.

Não venho por meio desta crônica ironizar a iniciativa, mesmo achando-a um desperdício de tempo, nem pelo motivo que a originou: dois filhos da classe média assassinados recentemente de modo brutal. Um deles, proprietário de um posto de combustível, foi alvejado por assaltantes que tentavam roubar seu estabelecimento. O outro, segundo os rumores, após discutir por causa de um rabo de saia num barzinho/boate da juventude abastada, foi fuzilado com dez tiros pela outra parte do bate-boca, que parece ter perdido a disputa.

As duas mortes revelam (mais uma vez) a fragilidade de uma sociedade que, diferentes daquelas que são reféns de traficantes e do crime organizado, sempre esteve encoleirada por oligarquias familiares. Elas que são responsáveis pela concentração de renda absurda existente em Alagoas e dos crimes de mando (ou pistolagem, se preferir) brutais que só aqui são tão corriqueiros. A pistola no coldre dos senhores do mar sempre regeu a Lei para aqueles que formavam a lama do mangue.

Mas o que me irrita é constatar uma classe média hipócrita, que não reconhece os pecados que ela própria cometeu e comete – e isso ficou bem claro no discurso do organizador da caminhada pela paz que aconteceu, e que assisti hoje no Jornal da Manhã, com Ricardo Mota. Quando entrevistado, o sujeito, um empresário que também se chama Pablo, disse, mais ou menos, que se “algo parecido voltasse a ocorrer no nosso meio, mais caminhadas seriam feitas”.

Ah…

Precisou que dois filhos de pais instruídos fossem mortos, mais uma vez, para que a classe média se apavorasse. Ignorando o fato de que um deles foi morto por um colega de mesmo nível social. O importante é que o “nosso meio” foi atingido, e precisamos tomar providências. Vamos nos vestir de branco e pedir paz para dormirmos mais tranqüilos. Com certeza, os pais e demais parentes dos rapazes assassinados vão se sentir vingados.

É claro que não vão. Ações como essas não podem nem ser consideradas paliativas. São ilusórias. E imagino que os familiares estejam se agarrando a qualquer coisa na esperança de que a justiça seja feita, e a eles dedico meus pêsames e energias positivas. Da mesma maneira que sinto pesar pelos filhos da periferia e de seus pais e mães, que nem caminhada pela paz tem.

Não que este seja um discurso engajado de um pseudo-esquerdista metido a intelectualóide social – mas de outro filho da classe média que sente desgosto com discursos de mau-gosto. Imagino que a iniciativa do empresário-xará tenha sido feita com a melhor das intenções, só fica entalado na garganta essa coisa do “nosso meio”. Porque Maceió, toda a cidade, é o nosso meio.

E você nunca se sentirá seguro numa cidade em que os pobres só ficam mais pobres e são jogados para debaixo do tapete sempre quando quem manda tem a oportunidade, onde dez filhos de famílias de sobrenomes fortes espancam quem querem e, quando a polícia prepara-se para fazer seu trabalho, levam uma carteirada e temem por sua vida. Informações dadas pelo próprio Ricardo Mota hoje, após a matéria sobre a caminhada pela paz.

A Matrix é mais tangível do que essa paz quando consideramos a realidade social do “nosso meio”, caranguejo.

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