A Cerca Real dos Macacos
Havia esta estrada de terra batida. Não era muito larga, mas não se podia chamá-la de estreita. Em tempos de chuva, podia se ter certeza da sua intransitabilidade. Mesmo veículos altos, com tração nas quatro rodas, não seriam jogados nas crateras formadas numa velocidade acima dos trinta quilômetros horários. No estado recente, isso não seria problema — o único efeito colateral, nuvens de poeira cortante de tonalidade bege, recairia sobre os eventuais transeuntes interioranos.
A estrada era margeada, de ambos os lados, por cercas de arame farpado que pareciam não ter fim. Dentro do enorme espaço que elas delimitavam, via-se algumas casas carcomidas, ocupadas por pequenos produtores rurais e seus rebanhos minguados. Mas não se iluda, caro leitor: no interior de Alagoas, alguns poucos empresários é quem têm o direito real a propriedade das terras. Esses produtores são o que chamamos de agregados. Foi num pequeno curral destes agregados que se desenrolou a parábola a seguir.
Passavam das quarto da tarde. Ao lado esquerdo da estrada de terra batida, em determinado ponto do trajeto, a cerca subia, ficando centímetros acima do nível da pista. Neste trecho, havia um pequeno pasto. Não passavam das dez cabeças os bovinos ali presentes. A maioria estava deitada, banhando-se de sol. Dois deles, no entanto, estavam de pé: cabeças e chifres roçando, como se uma disputa tomasse forma. Um era branco. O outro, preto.
O branco deu uma cabeçada de leve, afastando o oponente de si por poucos centímetros. Isso foi suficiente para que, utilizando suas patas traseiras, tomasse impulso para o alto. As dianteiras dançaram no ar, a cabeça inclinando-se ainda mais rumo ao céu. Se o sol fosse o de meio dia e os chifres constituídos de aço, estes reluziriam. O preto não teve muito tempo para tomar qualquer atitude de defesa: levou uma nova e certeira cabeçada, forte, bem no meio do juízo.
Assim, o branco provava sua superioridade no curral perante o preto.
Em solo tombado
Há uma certa magia para mim no que diz respeito ao interior de Alagoas e suas cidades. Principalmente as de importância histórica. E não porque eu as conheça de longa data, mas pelo fato de que, nos últimos anos, fui tomado gradativamente por uma consciência alagoana. Aprendi a apreciar, sem imposição de terceiros, a Maceió, minha cidade. Em seguida, foi se formando uma boa curiosidade em relação ao interior, seu estilo de vida e peculiaridades. Já fui a Piranhas e fiquei apaixonado pelas casinhas antigas pintadas em tons berrantes e ao banho morno no São Francisco; em Delmiro Gouveia, terra natal da Ana, a história do empreendedor (e tomador de filhas alheias) de naturalidade cearense, que teve seu nome dado à cidade, me deu xurumelas na cabeça; passei por Viçosa, Atalaia, Pilar, Marimbondo e vi as feiras itinerantes, com gente carregando osso de baleia na capota de carro, mostrando cobras e convencendo o povo a comprar os elixires naturais que curam de hemorróida a problemas pulmonares.
Minha última visita foi a União dos Palmares, aquele lugar que aprendemos nas aulas de História ser a terra de Zumbi: o negro considerado o maior dos líderes da resistência quilombola contra o governo português; que matou o antigo líder Ganga Zumba quando este fez acordo com a Coroa; que dizem ter se casado com uma branca raptada por suas próprias mãos; que foi esquartejado e teve seu pênis colocado na boca morta, e por isso alguns estudiosos acham que o sujeito também teve sua cota homossexual (há uma teoria que afirma que esse tipo de coisa só acontecia com quem se sabia ser gay, mas em União me disseram que essa idéia já havia caído por terra).
Os três dias passados por lá se deram graças a Ana, que foi a cidade a trabalho — a instituição que ela representa esteve envolvida em atividades referentes a Semana da Consciência Negra, aberta em União, oficialmente, na noite da última sexta, 16 de novembro. Chegamos no município na quarta, depois das nove da noite. Ana resolveu algumas pendengas e, depois, fomos diretos fazer o check-in no hotel. A incursão na história da cidade que um dia foi chamada de Cerca Real dos Macacos começaria mesmo no dia seguinte.
A Lagoa dos Negros
No dia 15, data da (cof, cof) Proclamação da República, evento que envolveu um determinado alagoano, saímos a rua para desbravar a tão falada terra de Zumbi. Conheci, graças a Ana, algumas lideranças políticas, culturais e sociais da cidade. Uma delas foi o Elson Davi. O camarada é formado em Ciências Sociais, possuindo habilitação, também, em ciências políticas e antropologia. É professor, compositor, músico e vocal da banda Escrúpulo Douda. Tudo isso com 24 anos. Ele foi o nosso cicerone — e a pessoa que me esclareceu a questão do homossexualismo do líder de Palmares.
Depois de resolvermos questões relacionadas ao evento e de um almoço carregado n’A Porteira, restaurante fora dos limites da cidade e que só se chega através da BR, demos início ao passeio “turístico”. O primeiro lugar a ser visitado não poderia ser outro: a famosa Serra da Barriga e o Parque Memorial Quilombo dos Palmares (oficialmente inaugurado na noite do dia 19, segunda).
A subida, mesmo de carro, não deixa de ser um martírio. Se hoje o acesso, mesmo com a terra planada e coberta de paralelepípedos em certos trechos, é moroso, imagine nos tempos de quilombo? Este é um dos primeiros motivos óbvios identificados para a escolha do lugar como QG de Zumbi. Outros você descobre quando chega ao topo.
O Parque Memorial é bonito, formado por algumas poucas construções que caracterizam, hoje, as que existiam no passado. Em diversos pontos, há caixas de som, onde, ao pressionar os botões de um painel, é ativado o depoimento de algum artista negro falando um pouco sobre a história de Zumbi e do Quilombo. Figuras como Carlinhos Brown, Leci Brandão e o alagoano Djavan estão presentes nesses áudios. Segundo soube, foram gastos mais de 1 milhão de Reais na construção do Parque. Uma pena que não pensaram em realizar escavações arqueológicas antes de limparem o terreno. Este “pequeno” erro de logística deve ter custado um bocado de dados históricos de suma importância sobre a história dos negros. Pelo menos, foi o que chegou aos meus ouvidos.
Andando pelo Parque, temos algumas atalaias, pontos altos de onde se monta guarda. É possível ver tudo ao redor da Serra de cada uma delas. A visão, além de uma beleza ímpar, traz uma reflexão acerca da realidade do Estado: a perder de vista, as terras que circundam o Quilombo pertencem apenas a três pessoas. Três, segundo o Elson. Usineiros, políticos, empresários, gente de influência; eles são tudo isso, os três senhores de engenho. E pode apostar que um ou outro tem fama de Coronel. No interior de Alagoas, coronel sem patente é o que não falta. É a nossa sina, ser comandado por quem tomou o poder na base da bala e do cabresto.
Elson, como um bom cicerone, recomendou um lugar de beleza ainda maior no Quilombo (se é que isso era possível): a Lagoa dos Negros.
Para chegar a ela, era preciso seguir por uma descida de barro batido e repleto de pequenas valas; que, se percorrida por alguém desatento, resultaria numa tremenda queda. Para chegar a descida propriamente dita, você passa pelas residências dos poucos moradores que sobraram na Serra da Barriga. Poucos negros, pelo que pude constatar, a propósito. E é uma das coisas que se precisa ser dita sobre o(s) quilombo(s): apesar dos negros serem a maioria e aqueles que regiam a cultura daquela(s) pequena(s) sociedade(s), havia ali índios, brancos e qualquer outro a viver a margem e contra o governo português.
A chegada a Lagoa dos Negros é de encher os olhos. Se você acredita na idéia do Paraíso cristão, deixa eu te contar uma coisa, amigo(a): os negros encontraram uma versão palpável no Planeta Terra. É um lugar que impõe ao visitante uma aura de paz — e falo sério no que diz respeito ao impor. Ana e eu nos sentamos calados por um bom tempo, apenas observando o cenário. Ela teve que insistir para que fôssemos embora.
“Você ouviu isso?”, Ana perguntou quando nos dirigíamos a saída da Lagoa.
“O quê, amor?”
“Um barulho como se fosse de um gato, sei lá.”
“Não, não ouvi nada.”
“É, deve ter sido a árvore rangendo.”
“É.”
Mistério.
Muquém
O fim do dia foi marcado com uma visita a comunidade quilombola do Muquém, localizada na região periférica de União. Lá aconteceria um desfile da beleza negra com meninas e moças do lugar. Chegamos justamente no momento no qual elas eram maquiadas com elementos da cultura afro. É também no Muquém que reside Dona Irinéia, a artesã de maior renome na região, responsável por um belíssimo trabalho com cerâmica. Ela nos recepcionou, fazendo festa quando a Ana chegou — ambas se conhecem por causa do trabalho da Ana e que não cabe explicar aqui, né?
Como o desfile ia atrasar e nós tínhamos outros compromissos, sendo que o principal deles era descansar um pouco, voltamos para o hotel. No caminho, havia uma estrada de terra batida (…).
Interlúdio
Quinta a noite foi o momento de uma leve confraternização, dá licença. E aqui abro espaço para divulgar o ótimo Chimbra’s Bar (Chimbra = Bola de gude, para os estrangeiros), no centro de União. Foi por lá que encontramos o Allison, do Mr. Freeze, tocando também com um grupo de Maceió que agora me foge o nome (quando lembrar, corrijo o texto). Não demorou muito para que nosso compadre Elson subisse ao palco e nos brindasse com suas habilidades musicais.
Passamos fácil das três da manhã no ritmo do Chimbra’s. Na sexta, quase que não levantamos. Mas conseguimos.
Solenidade
Sexta-feira 16 foi dia de correria, estresse e bastidores que não podem ser lançados gratuitamente na Internet. Deus está de olho e (in)fiéis podem fazer mal uso de certas informações. Mas o esforço não foi em vão. Quando a noite caiu, autoridades municipais e estaduais marcaram presença na abertura oficial da Semana da Consciência Negra em União dos Palmares. Entre eles, o sr. Osvaldo Viegas, nobre secretário de cultura de Alagoas e homem de cultura vasta. Seu longo discurso valeu cada minuto; inclusive pelas alfinetadas carinhosas que deu na representante da Fundação Palmares que compunha a mesa solene.
O que me leva a um parênteses: (Eu não fazia idéia qual era a maior finalidade da Fundação Palmares. Descobri isso apenas em União: ela atua no gerenciamento da Serra da Barriga. Em bom português, ela manda e desmanda lá no Quilombo dos Palmares. A pegadinha, digamos assim, está no fato dela ser um órgão federal. Município e Estado, além de não terem, pelo que entendi, direitos reais sobre o local, não levam nada em termos financeiros. Claro, se a Serra fosse administrada pelo Município ou pelo Estado, era bem capaz de nem existir mais! Ou de ter virado uma plantação de cana. Enfim… fiquei com a pulga atrás da orelha.)
A abertura, realizada no auditório da Prefeitura e acompanhada pelo vice-prefeito Kiu — que devia ganhar as eleições ano que vem, pelo trabalho que anda fazendo na cidade —, foi seguida de um debate com dois professores da UNEAL (Universidade Estadual de Alagoas), mediada pelo Elson. Um deles, do qual não lembro o nome agora, veio da Paraíba após prestar concurso no interior daqui. Fascinado pela história dos negros, quando chegou a União dos Palmares, terra de Zumbi e marco da resistência negra, mal encontrou vestígios da mesma. Segundo ele, a explicação surgiu quase que de imediato: os brancos venceram. Ponto.
A cena (verídica, por mais que pareça que eu esteja usando meu talento de escritor de ficção para enganá-los com lições de moral) com os bois resumia o que o professor havia falado. Os negros foram mortos, arrasados. Os poucos que sobraram vivem à margem da sociedade, esquecidos por um povo (branco) que renega que sua cidade é uma referência para a cultura social afro-brasileira. Alguém me disse, e omito aqui o nome para não lhe causar problemas, que União dos Palmares é a cidade que apresenta o pior tipo de racismo que existe. E não deve ser difícil imaginar o porquê.
Eco
A viagem a União e o contato com o Quilombo dos Palmares me trouxe novos pensamentos sobre a realidade sócio-cultural de Alagoas, algo que só vem a acrescentar a consciência que ando tomando do meu Estado. Que tem muita coisa de querido, mas diversas outras de indignação. Vergonha não. Chega de ter vergonha da nossa História, por mais cretina que ela possa ser em alguns momentos.
Agradecimentos especiais
A Neide, pela ótima recepção, bom humor e a companhia na hora de fumar; ao Elson, nosso cicerone oficial e agora grande amigo em União; a Martha e a Lúcia, que animaram ainda mais o trabalho; ao Chimbras pela conta da noitada; e a Ana, claro, que me rebocou com todo o meu concedimento para a viagem e, juntos, vivemos momentos para lembrar por anos a fio.
As fotos que ilustram este post foram tiradas na Lagoa dos Negros, e podem ser vistas numa resolução maior no meu Flickr.
Gaveta #2 no Overmundo - votaí!
Posted at: 4:13 pm, filed under: Paraíso das Águas, The book is on the table.A Carla jogou o .pdf da segunda edição do Gaveta lá nas bandas do Overmundo. Dá um pulo por lá e baixa de grátis. A única coisa que pedimos em troca é o seu voto - que será efetivado mediante um cadastro de um minuto no portal - para levar o zine a primeira página do site.
Aproveite e leia a resenha do lançamento dessa segunda edição e o Prensas, a minha crônica publicada nela.
A equipe agradece.
O que você guarda na sua gaveta?
Posted at: 8:46 pm, filed under: Paraíso das Águas, Cronismo Diário, The book is on the table.O sol do último sábado era daqueles de deixar o couro humano em tom crocante - o tipo que tudo quanto é turista pálido do sul quer conseguir quando dá as caras por aqui -; capaz, obviamente, de deixar nossas roupas mais pesadas graças ao suor vomitado aos montes pelos poros.
Ana e eu botamos nossos pés na rua lá pela 16 e 10 da tarde. Nosso destino já estava certo no mapa astral etílico do referido fim de semana: Botequim Paulista, lugar de caber na palma da mão, lá nas bandas da Amélia Rosa. O motivo: lançamento da segunda edição do fanzine Gaveta.
BRITÂNICOS
O encontro estava marcado para as 16 horas. A Carla pediu uma postura britânica quanto ao horário. Mas alguém tinha que bancar o poser da história, e como precisei resolver umas pendengas antes do lançamento, Ana e eu acabamos chegando no Botequim lá pelas 16 e 20.
Para a nossa surpresa, não fomos nem de longe os descolados atrasados do lançamento: chegamos primeiro que todos e, ainda por cima, quando o bar estava sendo aberto. Maravilha.
Nos jogamos numa das mesas e pedimos uma gelada. Se lá pelas cinco ninguém desses as caras, bem, íamos embora. Paciência.
CONFRATERNIZAÇÃO
Não havíamos terminado a primeira garrafa quando, no horizonte (leia-se dobrando a esquina), vimos um pequeno bando se aproximar. Identifiquei, de cara, o Ramiro e Carol entre eles. Menos mal.
Nos cumprimentamos, saudamos a Carla (que só conhecíamos da virtualidade) e as convidadas que eles trouxeram. Colocamos mais uma mesa e outras cadeiras, pedimos mais copos e outra cerveja. Não demorou para que mais convidados chegassem. Inclusive a Larissa. 
O lançamento da segunda edição do Gaveta passou das dez pessoas presentes, vejam só.
APAGÃO
Bebíamos, falávamos bobagens paralelamente, bebíamos mais e, vez por outra, comentávamos sobre quem ia para o show do Nando Reis, a rola naquela mesma noite. E bebíamos mais.
Até que, antes da noite cair de fato, ficou escuro de repente. De repente de fazer todo mundo levantar os braços e gritar êêêêê. Muita sorte faltar energia bem no meio daquela orgia alcoólica, e que meio servia de esquente para o show do Nando e os Infernais.
Alguns ligaram e descobriram que havia faltado energia na cidade toda. Que meda.
Com a previsão da luz voltar lá pelas duas da manhã e a possibilidade enorme do cancelamento do show, novas garrafas de cerveja chegavam à mesa numa velocidade ainda maior. E por que não?
Carla, Daniel, Ramiro e Larissa entornaram uma rodada de sagatiba (esse o nome daquele veneno, right?), enquanto Ana, eu e Carol estávamos satisfeitos em ficar com a loira fria e a cria de Piotr Smirnov, respectivamente.
Melhor prevenir e não misturar para depois não dar zica, né, Ramiro?
HAJA LUZ
Quando a luz voltou, lá pelas 20 - ou depois dela -, eu já não sabia quantos copos havia bebido. Cigarros devem ter sido uns 5. Hm, 6. 7 de palha, vai memória. O show do Nando Reis pareceu ser algo tangível novamente.
Ficamos mais um pouco. Já havíamos conversado bobagem, putaria, sobre o maníaco, drogas - o que levou a uma velhinha sem noção a se meter no meio do papo e clamar pelos bons costumes e a moral; Ana deu-lhe uma cortada que a véia foi buscar a dentadura em casa - e outras coisas.
Perto das 21, deixamos nossa colaboração para a conta, nos despedimos contentes e fomos embora.
O show do Nando não rolou (porque o hotel vizinho ao lugar da apresentação entrou com uma ação judicial, alegando poluição sonora, em cima da hora), eu fui dormir bêbado e sujo, vomitei lá pelas 5 da manhã, e só uma coisa ficou certa no meu domingo de ressaca:
O lançamento do Gaveta #2 foi um sucesso. Porque as pessoas fizeram acontecer.
* * *
As fotos que ilustram este post foram tiradas pela (ou com a máquina da) Larissa. Ela publicou mais algumas no seu fotolog aqui e aqui. O mesmo fizeram a Carla e o Ramiro. As demais fotos da Larissa estão no meu flickr.
Aproveite e leia Prensas, minha crônica publicada nessa edição do zine.
Maicol da Silva, que acordou cedo naquela manhã de segunda-feira, vestia uma camisa branca desbotada, esburacada e que provavelmente tinha estampada em sua frente a imagem de algum político ou a chamada para os jogos internos de um colégio particular de classe média; a bermuda, de cor escura, também estava pra lá de datada e repleta dos adjetivos circulares previamente citados. Como era de costume entre os meninos de sua faixa social, não havia nada entre seus pés corroídos e o chão.
Claro, seu nome não era “Maicol da Silva”. Mas considerando essa mania de pobre em colocar nome estrangeiro e erroneamente grafado (ou mesmo aqueles incrivelmente inventados) em suas queridas párias, não seria de se espantar. Podia ser um “Waldcleydeson Vieira”, “Elton Jonh da Silva”… basta perguntar por nome de pobre para algum professor de cursinho amigo seu, que as respostas vêm fáceis. Eu perguntei. E que fosse ou não Maicol, a questão não está no nome.
Não eram nem sete da manhã e ele já estava lá, no Corredor Cultural Vera Arruda, praça construída em plena área de classe média alta de Maceió, andando de um lado para o outro no coreto do lugar. Os olhos bem atentos ao chão, e vez por outra ele se agachava e tateava em busca de algo. Demorei um tempo para associar os pontos. Maicol estava montando um quebra-cabeças social.
Naquele mesmo coreto semi-depredado, garotos a partir dos quinze anos se reúnem em grupos miúdos a qualquer dia da semana. Perto das quatro da tarde, quando o sol dá uma aliviada na brasa, você pode encontrar esses conjuntos de moçoilos. Uns estão lá para tomar Coca-Cola com alguma bebida quente barata, outros para tocar na viola composições da banda indie hypada do momento e os demais para fumar unzinho. Filhotes de classe média derrubando um baseado: tem coisa mais clichê hoje em dia?
Renatos, Paulos, Brunos da vida. Os nomes, com certeza, foram escolhidos para combinar com a personalidade. Ou então por causa de alguma promessa. Quem sabe o nome de algum apóstolo. Nestas duas últimas opções, temos uma intersecção entre os papais de classe média e os pobres coitados da periferia: a crença. Os primeiros acreditam na isenção daqueles que carregam o seu DNA por esse mundão de Deus, até que eles cometam alguma cagada e os vizinhos descubram, causando constrangimento; os seguintes sabem que os seus, se não estão numa escola, se encontram a mercê das mazelas da vida e podem aparecer a qualquer dia nas manchetes do programa policialesco daquele canal duvidoso.
Uma visual preto e branco, bem sei, mas que serve para ilustrar algo simples no caso do nosso compadre Maicol: até a porcaria da maconha ele tem que catar as sobras para tentar montar o seu próprio baseado. Dos restos, malandro! Imagina ele andando na periferia com um cigarro feitinho no bolso: era capaz de levar um baculejo da PM, uns tapas e gritos na cara. Umas noites ingratas no xadrez para depois ser solto sem ter dado o seu tapa. Enquanto os Renatos, Paulos e Brunos da vida derrubam a sua erva da boa sem serem incomodados: e não seria diferente, já que os pais fazem cosplays de cegos e a PM que atua na segurança da localidade em questão, o Stella Maris, é bancada pela associação dos moradores.
Observo esse mundinho quebrado de uma janela de terceiro andar (e eis uma analogia de fina ironia que não havia percebido antes) que nem minha é. Acho tudo muito feio e sinto pena do Maicol, agachado, forçando a vista além da conta. Mas fico aqui pensando: se eu tivesse um bagulho pronto no bolso, será que eu dividia com ele ou ficava só pra mim? Não sei responder de pronto, porque nem ando com bagulho no bolso, tá sabendo?
Eu só continuo fazendo uma única coisa: sentindo aquela culpa de classe média que apenas assiste a merda acumulada na privada da vida, sabendo que não adianta puxar a descarga. Quantos não gostariam de apontar para mim agora, apontar aquele dedo acusador, mas que sabem muito bem o que é um espelho e o melhor é não passar vergonha à toa? Pois é, já imaginava.
* * *
Este texto foi publicado na segunda edição do fanzine Gaveta, lançado em Maceió no dia 10/11/2007.
Lançamento do Gaveta #2
Posted at: 7:40 pm, filed under: Paraíso das Águas, Linha de Produção, The book is on the table.
Lançamento da segunda edição do fanzine Gaveta, capitaneado pela Carla, Carol e Ramiro e com colaboração de um bocadinho de gente. Dentre elas, este que vos digita.
Recebi o convite via e-mail da Carla e imagino que a divulgação seja irrestrita a todos da terrinha que estejam afim de conhecer o trabalho da galera.
“Sejam ingleses”, hah.
Quando o zine cair em campo, publico aqui a minha crônica que integra o seu miolo. Aproveito para agradecer o Ramiro e as meninas pelo convite e o espaço aberto para colaborar.
Lá vou eu conferir as manchetes dos sites de notícias de Alagoas, para saber as últimas novidades do meu querido estado, e dou de cara com a seguinte nota:
Aposentado paga R$ 300 por virgindade e mulher usa mertiolate para enganá-lo
Isso tira o mau-humor de qualquer (não-)cristão numa manhã de qualquer dia da semana.
E foi algo que me lembrou, quase que instantâneamente, do caso com outro velhinho da terrinha:
Na manhã de hoje, uma ocorrência extremamente desagradável aconteceu após o café-da-manhã. Eu estava no apartamento da Ana, onde, depois da nossa refeição matinal, terminávamos de nos aprontar para trabalhar. Então ela me chama para ir a janela da sala: “Amor, o tarado tá aqui.”
O tal tarado é um cretino montado numa bicicleta vermelha, moreno, de bigode e cabelo curto, que na manhã de hoje trajava um short e uma camisa regata. Ana viu o sujeito algum tempo atrás, em outra parte do bairro da Jatiúca, próximo do conjunto de classe média Stella Maris, onde reside. Ele fica em pontos específicos do bairro, sempre pela parte da manhã (quando as pessoas estão indo para o trabalho ou para a escola), mostrando o pinto para as mulheres e meninas que passam próximas a ele.
Quando ela me chamou para olhar a cara do sujeito, ele estava sentado num banco do Corredor Cultural Vera Arruda, parte mais “chique” do Stella Maris, próximo do passeio que dá para a rua do colégio Contato. Já passavam das 7 e o movimento era intenso: pessoas indo trabalhar, gente praticando cooper e adolescentes chegando tanto ao Contato como ao Anchieta, a outra escola particular neste trecho específico.
Ficamos observando o filho da puta (há melhor termo que ‘filho da puta’ num caso desses?). De repente, uma menina de no máximo 15 anos, aluna do Contato, seguia para o colégio tranqüilamente. Ela estava no campo de visão do calhorda. Quando a garota estava a uns cinco metros, ele puxou uma parte do short e colocou o pinto pra fora.
Neste momento eu levantei o braço, pronto para gritar ‘Pega tarado!’. A Ana acabou me segurando - claro, mancada minha gritar da janela da casa da minha namorada. Mas a gesticulação serviu: o tarado, com a maior cara lisa, se arrumou, montou na bicicleta e entrou na rua oposta a do colégio Contato. E ainda acenou pra mim.
Ana ligou para o PM Box do bairro - que é mantido, se não me engano, pela associação dos moradores do Stella Maris. O oficial que atendeu afirmou que tinha conhecimento das atividades do canalha, mas não havia, ainda, conseguido capturá-lo em flagrante.
Nervoso, assim que cheguei ao trabalho, liguei para o Contato. A recepcionista que me atendeu, um exemplo de frieza, ouviu toda a minha história e disse que não sabia de nenhuma reclamação de alunas da instituição sobre o assunto. E ficou de passar a denúncia para a direção - porque o colégio precisa zelar pela segurança de seus discentes nas imediações do mesmo, não é verdade? Mas do jeito que fui atendido, duvido muito que o caso tenha sido levado até a direção.
Não satisfeito, mandei um e-mail e liguei logo em seguida para a redação do Alagoas 24 Horas, para saber se a minha mensagem havia caído na caixa de entrada deles. A repórter que me atendeu disse que não, então aproveitei e contei tudo. Detalhe por detalhe. Ela disse que apuraria a história junto ao pessoal do PM Box e colocaria uma nota no ar.
Ou seja: o “morador” que fez a denúncia fui eu. E precisou alguém que nem é do bairro fazê-lo, já que, segundo o Sargento da PM, o tarado está aprontando das suas há alguns dias.
Não sei se ele dará um tempo a partir da próxima segunda, considerando que alguém o pegou no flagra, para depois retornar as suas atividades. Mas uma coisa eu garanto: ele dando as caras na região, eu sou o primeiro da fila a meter a mão nas fuças desse filho da puta. Ah, pode apostar que sim.
Sem o mínimo de tempo e cabeça para escrever esses dias. A “culpa” é do trabalho, claro. Mas o volume de coisas só me faz melhorar no que faço, além de me abrir um leque de oportunidades dentro da instituição na qual me encontro.
O que também não significa que o blog ficará de lado por muito tempo ou que minhas outras atividades serão deixadas para trás. Estou esperando a brecha necessária para cair de cabeça no roteiro da quinta edição da minha série Bit Hunter Girl, principalmente agora que o Pablo já desenhou a quarta e está trabalhando nas retículas. O site, por sua vez, está quase lá. Que o diga o meu camarada Júnior Gama, que tá ajudando dum jeito incrível.
As coisas com quadrinhos não param por aí: Felipe e eu continuamos confabulando duas produções - uma para este ano e a outra pro começo de 2008. Como ambas estão próximas de saírem, como esperamos que ocorra, novidades serão divulgadas em breve. ‘Güenta aí.
E esse fim de semana deve rolar show do Wado para lavar a alma; onde é capaz de rolar um crossover entre alguns blogueiros da terrinha. A Carla desafiou, e quer saber se blogueiro toma umas ou se só fica sentado na frente do micro. O Ramiro e a Carol devem completar o grupo e acabar com essa coisa da gente só se esbarrar nas salas de cinema da vida e não ter tempo de trocar umas idéias.
Precisava postar para descarregar o estresse. Sério. Até porque já estou me vendo semana que vem trazendo trabalho para casa. E ainda dizem que estagiário não faz nada, né?
Assisti num telejornal local uma breve matéria sobre ações preventivas realizadas pela Polícia Militar nos últimos dias. A direção da corporação elaborou um esquema de revista em três pontos distintos da capital Maceió, onde motoristas comuns, taxistas e lotações foram parados, digamos, “aleatoriamente” para inspeções. Além de servir para “evitar” possíveis atos criminosos de cidadãos mal-intencionados, as batidas marcaram o batismo dos calouros recém-chegados a instituição.
A iniciativa da PM mostra a situação na qual se encontra a segurança no estado de Alagoas. Tudo bem, quem é da terrinha e não é alienado, sabe muito bem que o bang bang é algo mais do que comum no nosso cotidiano - e que ele tem crescido de modo assustador nos anos recentes. O que não significa que devamos continuar acostumados a ela e, acima de tudo, desistir dos nossos direitos em prol de determinados atos preventivos.
Claro, dada a situação atual, todo mundo acha mais do que normal e justificável iniciativas do tipo acontecerem. Sinceramente, se fui uma delas, acho que não sou mais. E tenho lá meus motivos.
No último sábado fiz algo que alguns definiram como radicalismo, presepada e termos congêneres: trancei o meu cabelo. Fiz aquele penteado afro - e que dói pra cacete, a propósito - no qual se amarram os fios com elástico do começo da sua testa até o fim da nuca. Não tive um motivo específico para isso e nenhum estímulo de alguém pop. Revolta muito mesmo (a definição seria masoquismo, oras!). Deu um estalo na cabeça e a vontade de mudar o visual veio. Simples. Fui ao salão afro com a Ana e encarei três horas na mão da cabelereira, que pegou leve comigo, apesar de todo o sofrimento.
Qual o grande problema dessa mudança e o que tem a ver com o assunto levantado lá no início?
Primeiramente, eu não sou negro. Se fosse, seria bem capaz das pessoas assimilariam o visual com maior tranqüilidade - só eu pensei na formulação cretina de “isso é coisa de negro”? Pois é, ridículo, mas acho que isso serviria como amenizador. Segundo: Maceió é a capital da província das Alagoas. Imagino que num estado como a Bahia - principalmente Salvador -, um pardo, branco ou amarelo poderia passar teoricamente batido com um penteado desses. Você consegue imaginar um lugar onde se valorize mais a cultura negra do que lá? Nem eu. Mas que diabos: moro na terra de Zumbi dos Palmares! Ele deveria representar o negro com mais força do que toda a Bahia.
Utopia, vamos lá. O alagoano deve ser o mais sem memória dos brasileiros. Não todos. Mas a maioria. Quem vai lembrar dum negro que levou a vida roubando dos brancos e fumava unzinho com a rapaziada para celebrar?
Agora visualiza um pardo andando com o cabelo trançado numa cidade retrógrada: você terá as definições que elenquei no quarto parágrafo. Encarei algumas delas por aí - afinal, as pessoas temem aquilo que desconhecem, como diria o Professor Xavier num de seus momentos inspirados. Mas encontrei apoio, também, o que serviu para estreitar certos laços. A Ana ficou com receio disso e outras coisas, assim como meus pais.
Só que aí aconteceu algo que deixou meu pai mais aflito.
Ele havia ido me buscar no trabalho. Antes de voltarmos para casa, fomos até a padaria. No caminho, cruzamos com um grupo de policiais militares parados numa rua em declive que dá para uma das favelas que circundam o bairro onde moramos. Estranhamos a presença deles ali, afinal, quando mais se precisa da segurança pública, acabamos ficando na mão. Ao chegarmos na padaria, meu pai desceu para comprar pão. Fiquei aguardando no carro.
Naquele meio tempo, surgiu o carro dos mesmos policiais militares que estavam há quadras dali. Brecaram de repente. Do automóvel, um deles já deu uma chamada com o rigor tipicamente agressivo das autoridades constituídas num rapaz negro, vestido de boné, camisa florida, bermuda e havainas, que estava encostado no poste defronte a padaria, quase do lado ao carro onde eu estava. Quando desceu, o tal policial, um careca corpulento, sacou a pistola e mandou o sujeito colocar as mãos na cabeça e ficar de cara pro poste. Outro militar ficou responsável pela revista.
A poucos metros da situação - e que havia atraído a atenção de todo mundo na padaria, na banca de jornais e na locadora do lugar -, pude ouvir tudo o que o policial careca falava pro rapaz negro. Perguntou o que ele fazia ali. “Tô esperando um colega meu sair”, foi a resposta que eu entendi. O oficial, claro, não se convenceu. Disse para o rapaz negro que não tinha amigo algum ali e que ele devia circular. Depois que a revista acabou e NADA foi encontrado com ele, o militar careca repetiu a ordem pro sujeito sair dali.
“Tá vendo, fulano. Dizendo que tá esperando o amigo. Não tem amigo nenhum. Ele espera o movimento cair pra depois roubar”, declarou o grandalhão. Não sei se mais alguém ouviu, mas nem precisava. A pirotecnia havia surtido efeito: todo os “cidadãos de bem” ali presentes ficaram vidrados com a ação policial. Eles com certeza se sentiram mais seguros depois de verem aquilo. Meu pai disse que os comentários na padaria aprovaram a intervenção, o que corrobora a minha constatação.
Claro: pegar o primeiro negro pobre que aparecer pela frente e revistá-lo na frente de um bando de brancos de classe média mostra que estamos realmente seguros. Parabéns, polícia militar!
E vocês linkaram os fatos? A ação policial que vi foi a mesma que noticiaram na TV no dia seguinte. Tanto que na matéria o meu bairro foi um dos três escolhidos pela cúpula da polícia. Bairro que, meses atrás, teve sua principal rua interditada por um protesto dos moradores, cansados da violência constante e da desasistência da segurança pública. Coincidência?
Onde o meu cabelo com trançado afro entra no assunto?


Nessa onda de ações preventivas acontecendo na capital alagoana, você não acha que um pardo de cabelo trançado e fumante de cigarro de palha não possa ser parado na rua a qualquer instante, sendo confundido com um maconheiro qualquer? Nada contra os maconheiros, mas a polícia adora a referida classe, não é? Imagina o que é passar pelo mesmo constrangimento que o negro que estava na frente da padaria outro dia? E que, a propósito, voltou lá (com a polícia ainda presente) depois que o mandaram passear, provavelmente para provar que tinha um amigo seu ali. Não vimos o desfecho da situação, mas só a atitude do cara em voltar conta alguma coisa, certo?
Eu acho que vou fumar meu cigarro de palha com a galera do beque que fica no Corredor Cultural Vera Arruda, no Stella Maris, área classe média alta de Maceió. Lá tem um coreto no qual os filhos adolescentes dessa mesma classe média alta fuma unzinho a qualquer hora do dia sem ser incomodada. Na verdade, a coisa tá evoluindo. Meu cunhado - e eu, posteriormente - viu que o crack está chegando por ali. Claro, o uso ainda não é público. Mas como instituições como a polícia militar decidiram que os pontos críticos são mesmo os lugares onde os pretos e pobres moram, não duvido ver uns cachimbos qualquer dia desses.
A situação não é tão preto no branco, eu sei. Mas cansa a estupidez da classe média, que poderia fazer a diferença, ao engolir os fogos de artifícios que lançam na cara dela. É de dar dó como a evolução pára no tempo em algumas partes deste globo.
—
P.S.: Originalmente, a história sobre o meu cabelo trançado e a repercussão que ele gerou seria comentada num outro texto; um mais divertido, inclusive, a se chamar “É por isso que os X-Men são legais”. Acabou que eu presenciei a ação policial na padaria próxima de casa e juntei tudo numa coisa só, já que a conversa que tive com meu pai antes do ocorrido foi justamente sobre pré-conceito policial. Traduzindo: não, não estou me fazendo de coitadinho nem de perseguido. Apenas aproveitei a oportunidade e aliviei o meu lado cortando um texto. =)



