Quando moleque, a grana que eu conseguia — e nem digo necessariamente que era uma mesada; estava mais para uma ajuda de custo implorada por mim — era dividida para gastos com revistas em quadrinhos, cinema e sair com os amigos. Mais gibis do que tudo, admito.
A leitura dos quadrinhos me estimulou, como muitos outros leitores dessa linha, a buscar por livrinhos sem figuras ilustrativas. O que não significa que, aos 14 anos, pude montar a minha biblioteca particular de clássicos da literatura. Se hoje livro é caro, imagina, lá pelos meados dos anos 90, um pirralho que tinha pouco poder de fogo no bolso e queria curtir a adolescência?
O tempo passou, a mesada subiu e, nessa época, eu já freqüentava religiosamente os alfarrábios no centro de Maceió. Não era difícil me ver levando, no meio dos gibis, um ou mais exemplares com historietas apimentadas da Brigitte “Baby” Montfort ou alguma Isaac Asimov Magazine encontrada ao acaso.
Hoje, faturando a minha própria grana, me tornei o típico consumidor compulsivo: frustrado de longa data por não poder cometer atrocidades financeiras no intuito de suprir carências de cunho cultural/nérdico/literário, não posso ver um livro de capa bonitinha, do gênero que eu gosto, daquele autor que recomendaram ou sobre o qual falaram bem, que passo o cartão ou saco o papel do Banco Central da carteira.
Isso gerou, no entanto, um acumulo de coisas não lidas na estante lá de casa. E com a minha mania de ler dois ou três livros ao mesmo tempo, a demora em concluí-los é previsível. Incentivado pelo James, que me recomendou fazer um post sobre as coisas que ainda não li, decidi ir além: vou escrever uma “coluna” periódica sobre tais livros.
Nesta coluna de estréia, três livros emprestados, iniciados e, obviamente, ainda não concluídos.
ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, José Saramago
Primeiro livro de Saramago a cair nas minhas mãos. Peguei emprestado do meu cunhado. Nobel da Literatura, falado bem a torto e a direito na mídia, recomendado por conhecidos… mas nunca tinha tido a oportunidade de colocar nas mãos nada dele. O que não significa que sai a procura, também.
Estimulado pela adaptação cinematográfica do livro pelo diretor Fernando Meireles (Cidade de Deus, catzo) e seu excelente blog sobre a produção, o livro deu as caras na minha frente e decidi tomá-lo de empréstimo.
Interrompi o livro no momento em que o comboio de cegos é jogado numa unidade de contenção contra a “epidemia” de cegueira: um hospício caindo aos pedaços.
O romance não sofreu tradução do português utilizado em Portugal para o tupiniquim por exigência do autor. O que, ao meu ver, não é um problema: a experiência da leitura se torna ainda mais interessante. Ao final do primeiro capítulo, meu cérebro já havia se acostumado com a ausência das vírgulas e o modo feroz como os diálogos são montados.
Saramago costura a trama sem precisar nomear nenhum dos personagens, fazendo com que os identifiquemos graças a profundidade das personalidades que traçou. Uma aula de narrativa e caracterização.
O RETRATO DE DORIAN GRAY, Oscar Wilde
De Wilde, só havia lido uma coletânea com seus diversos aforismos. Joel, meu camarada, ficou me torrando para levar emprestado O Retrato de Dorian Gray — eu estava sem tempo, com outros livros na frente e fiquei empurrando com a barriga. Até que ele me entregou o livro e disse preu ler quando pudesse.
Levei para a minha viagem a Curitiba e, nos aeroportos e aviões da vida, fui lendo.
Se pelos seus aforismos fiquei com a impressão de Wilde ser um filho da puta que te encanta com palavras saborosas e frases de acerto imediato, com o que li de Dorian Gray a ficha caiu. O livro é como uma pluma ao vento: ora tranqüila, suave; noutro momento, revolta com quando a brisa se transforma em ventania.
Parei no capítulo onde a musa de Dorian cai em desgraça diante de seus olhos e de seus dois grandes amigos, figuras que disputam a sua atenção e afeto. Segundo o Joel, depois daí a coisa pega fogo.
MÃOS DE CAVALO, Daniel Galera
Eu conheci dois Daniel Galera: o de seu fechado blog, Ranchocarne, e o de Dentes Guardados, seu livro de contos disponível para download. Admito que os textos do blog me agradaram mais.
Gostei de alguns dos poucos contos que li de Dentes Guardados, ficando incomodado com o estilo da escrita em certos momentos: parecia emular uma atitude poser em detrimento do desenvolvimento de uma boa narrativa.
No blog, Galera me ganhou falando de seu cotidiano, dos livros que lia e dos filmes que assistia. Um de meus posts preferidos, por exemplo, foi o que ele escreveu sobre O Labirinto do Fauno. Uma pena este e outros textos não estarem mais disponíveis.
Agora eu conheço um novo Galera que, segundo a crítica, amadureceu como escritor no romance Mãos de Cavalo — me emprestado pelo Ramiro entre copos de cerveja no lançamento do Gaveta #2.
Estou com o livro na minha bolsa, andando com ele para cima e para baixo. Parei no começo do quarto capítulo, acho, quando o protagonista e um amigo seu estão prestes a fazer uma perigosa escalada.
Vou terminar o quanto antes: não porque eu quero devolver logo, e avisei ao Sr. Ramiro como sou preguiçoso nesse negócio de devolver livros; mas porque me cativou o começo da história do Ciclista Urbano e o jogo de bola no terreno baldio. Não é assim com as coisas com as quais você se identifica?