A Cerca Real dos Macacos
Havia esta estrada de terra batida. Não era muito larga, mas não se podia chamá-la de estreita. Em tempos de chuva, podia se ter certeza da sua intransitabilidade. Mesmo veículos altos, com tração nas quatro rodas, não seriam jogados nas crateras formadas numa velocidade acima dos trinta quilômetros horários. No estado recente, isso não seria problema — o único efeito colateral, nuvens de poeira cortante de tonalidade bege, recairia sobre os eventuais transeuntes interioranos.
A estrada era margeada, de ambos os lados, por cercas de arame farpado que pareciam não ter fim. Dentro do enorme espaço que elas delimitavam, via-se algumas casas carcomidas, ocupadas por pequenos produtores rurais e seus rebanhos minguados. Mas não se iluda, caro leitor: no interior de Alagoas, alguns poucos empresários é quem têm o direito real a propriedade das terras. Esses produtores são o que chamamos de agregados. Foi num pequeno curral destes agregados que se desenrolou a parábola a seguir.
Passavam das quarto da tarde. Ao lado esquerdo da estrada de terra batida, em determinado ponto do trajeto, a cerca subia, ficando centímetros acima do nível da pista. Neste trecho, havia um pequeno pasto. Não passavam das dez cabeças os bovinos ali presentes. A maioria estava deitada, banhando-se de sol. Dois deles, no entanto, estavam de pé: cabeças e chifres roçando, como se uma disputa tomasse forma. Um era branco. O outro, preto.
O branco deu uma cabeçada de leve, afastando o oponente de si por poucos centímetros. Isso foi suficiente para que, utilizando suas patas traseiras, tomasse impulso para o alto. As dianteiras dançaram no ar, a cabeça inclinando-se ainda mais rumo ao céu. Se o sol fosse o de meio dia e os chifres constituídos de aço, estes reluziriam. O preto não teve muito tempo para tomar qualquer atitude de defesa: levou uma nova e certeira cabeçada, forte, bem no meio do juízo.
Assim, o branco provava sua superioridade no curral perante o preto.
Em solo tombado
Há uma certa magia para mim no que diz respeito ao interior de Alagoas e suas cidades. Principalmente as de importância histórica. E não porque eu as conheça de longa data, mas pelo fato de que, nos últimos anos, fui tomado gradativamente por uma consciência alagoana. Aprendi a apreciar, sem imposição de terceiros, a Maceió, minha cidade. Em seguida, foi se formando uma boa curiosidade em relação ao interior, seu estilo de vida e peculiaridades. Já fui a Piranhas e fiquei apaixonado pelas casinhas antigas pintadas em tons berrantes e ao banho morno no São Francisco; em Delmiro Gouveia, terra natal da Ana, a história do empreendedor (e tomador de filhas alheias) de naturalidade cearense, que teve seu nome dado à cidade, me deu xurumelas na cabeça; passei por Viçosa, Atalaia, Pilar, Marimbondo e vi as feiras itinerantes, com gente carregando osso de baleia na capota de carro, mostrando cobras e convencendo o povo a comprar os elixires naturais que curam de hemorróida a problemas pulmonares.
Minha última visita foi a União dos Palmares, aquele lugar que aprendemos nas aulas de História ser a terra de Zumbi: o negro considerado o maior dos líderes da resistência quilombola contra o governo português; que matou o antigo líder Ganga Zumba quando este fez acordo com a Coroa; que dizem ter se casado com uma branca raptada por suas próprias mãos; que foi esquartejado e teve seu pênis colocado na boca morta, e por isso alguns estudiosos acham que o sujeito também teve sua cota homossexual (há uma teoria que afirma que esse tipo de coisa só acontecia com quem se sabia ser gay, mas em União me disseram que essa idéia já havia caído por terra).
Os três dias passados por lá se deram graças a Ana, que foi a cidade a trabalho — a instituição que ela representa esteve envolvida em atividades referentes a Semana da Consciência Negra, aberta em União, oficialmente, na noite da última sexta, 16 de novembro. Chegamos no município na quarta, depois das nove da noite. Ana resolveu algumas pendengas e, depois, fomos diretos fazer o check-in no hotel. A incursão na história da cidade que um dia foi chamada de Cerca Real dos Macacos começaria mesmo no dia seguinte.
A Lagoa dos Negros
No dia 15, data da (cof, cof) Proclamação da República, evento que envolveu um determinado alagoano, saímos a rua para desbravar a tão falada terra de Zumbi. Conheci, graças a Ana, algumas lideranças políticas, culturais e sociais da cidade. Uma delas foi o Elson Davi. O camarada é formado em Ciências Sociais, possuindo habilitação, também, em ciências políticas e antropologia. É professor, compositor, músico e vocal da banda Escrúpulo Douda. Tudo isso com 24 anos. Ele foi o nosso cicerone — e a pessoa que me esclareceu a questão do homossexualismo do líder de Palmares.
Depois de resolvermos questões relacionadas ao evento e de um almoço carregado n’A Porteira, restaurante fora dos limites da cidade e que só se chega através da BR, demos início ao passeio “turístico”. O primeiro lugar a ser visitado não poderia ser outro: a famosa Serra da Barriga e o Parque Memorial Quilombo dos Palmares (oficialmente inaugurado na noite do dia 19, segunda).
A subida, mesmo de carro, não deixa de ser um martírio. Se hoje o acesso, mesmo com a terra planada e coberta de paralelepípedos em certos trechos, é moroso, imagine nos tempos de quilombo? Este é um dos primeiros motivos óbvios identificados para a escolha do lugar como QG de Zumbi. Outros você descobre quando chega ao topo.
O Parque Memorial é bonito, formado por algumas poucas construções que caracterizam, hoje, as que existiam no passado. Em diversos pontos, há caixas de som, onde, ao pressionar os botões de um painel, é ativado o depoimento de algum artista negro falando um pouco sobre a história de Zumbi e do Quilombo. Figuras como Carlinhos Brown, Leci Brandão e o alagoano Djavan estão presentes nesses áudios. Segundo soube, foram gastos mais de 1 milhão de Reais na construção do Parque. Uma pena que não pensaram em realizar escavações arqueológicas antes de limparem o terreno. Este “pequeno” erro de logística deve ter custado um bocado de dados históricos de suma importância sobre a história dos negros. Pelo menos, foi o que chegou aos meus ouvidos.
Andando pelo Parque, temos algumas atalaias, pontos altos de onde se monta guarda. É possível ver tudo ao redor da Serra de cada uma delas. A visão, além de uma beleza ímpar, traz uma reflexão acerca da realidade do Estado: a perder de vista, as terras que circundam o Quilombo pertencem apenas a três pessoas. Três, segundo o Elson. Usineiros, políticos, empresários, gente de influência; eles são tudo isso, os três senhores de engenho. E pode apostar que um ou outro tem fama de Coronel. No interior de Alagoas, coronel sem patente é o que não falta. É a nossa sina, ser comandado por quem tomou o poder na base da bala e do cabresto.
Elson, como um bom cicerone, recomendou um lugar de beleza ainda maior no Quilombo (se é que isso era possível): a Lagoa dos Negros.
Para chegar a ela, era preciso seguir por uma descida de barro batido e repleto de pequenas valas; que, se percorrida por alguém desatento, resultaria numa tremenda queda. Para chegar a descida propriamente dita, você passa pelas residências dos poucos moradores que sobraram na Serra da Barriga. Poucos negros, pelo que pude constatar, a propósito. E é uma das coisas que se precisa ser dita sobre o(s) quilombo(s): apesar dos negros serem a maioria e aqueles que regiam a cultura daquela(s) pequena(s) sociedade(s), havia ali índios, brancos e qualquer outro a viver a margem e contra o governo português.
A chegada a Lagoa dos Negros é de encher os olhos. Se você acredita na idéia do Paraíso cristão, deixa eu te contar uma coisa, amigo(a): os negros encontraram uma versão palpável no Planeta Terra. É um lugar que impõe ao visitante uma aura de paz — e falo sério no que diz respeito ao impor. Ana e eu nos sentamos calados por um bom tempo, apenas observando o cenário. Ela teve que insistir para que fôssemos embora.
“Você ouviu isso?”, Ana perguntou quando nos dirigíamos a saída da Lagoa.
“O quê, amor?”
“Um barulho como se fosse de um gato, sei lá.”
“Não, não ouvi nada.”
“É, deve ter sido a árvore rangendo.”
“É.”
Mistério.
Muquém
O fim do dia foi marcado com uma visita a comunidade quilombola do Muquém, localizada na região periférica de União. Lá aconteceria um desfile da beleza negra com meninas e moças do lugar. Chegamos justamente no momento no qual elas eram maquiadas com elementos da cultura afro. É também no Muquém que reside Dona Irinéia, a artesã de maior renome na região, responsável por um belíssimo trabalho com cerâmica. Ela nos recepcionou, fazendo festa quando a Ana chegou — ambas se conhecem por causa do trabalho da Ana e que não cabe explicar aqui, né?
Como o desfile ia atrasar e nós tínhamos outros compromissos, sendo que o principal deles era descansar um pouco, voltamos para o hotel. No caminho, havia uma estrada de terra batida (…).
Interlúdio
Quinta a noite foi o momento de uma leve confraternização, dá licença. E aqui abro espaço para divulgar o ótimo Chimbra’s Bar (Chimbra = Bola de gude, para os estrangeiros), no centro de União. Foi por lá que encontramos o Allison, do Mr. Freeze, tocando também com um grupo de Maceió que agora me foge o nome (quando lembrar, corrijo o texto). Não demorou muito para que nosso compadre Elson subisse ao palco e nos brindasse com suas habilidades musicais.
Passamos fácil das três da manhã no ritmo do Chimbra’s. Na sexta, quase que não levantamos. Mas conseguimos.
Solenidade
Sexta-feira 16 foi dia de correria, estresse e bastidores que não podem ser lançados gratuitamente na Internet. Deus está de olho e (in)fiéis podem fazer mal uso de certas informações. Mas o esforço não foi em vão. Quando a noite caiu, autoridades municipais e estaduais marcaram presença na abertura oficial da Semana da Consciência Negra em União dos Palmares. Entre eles, o sr. Osvaldo Viegas, nobre secretário de cultura de Alagoas e homem de cultura vasta. Seu longo discurso valeu cada minuto; inclusive pelas alfinetadas carinhosas que deu na representante da Fundação Palmares que compunha a mesa solene.
O que me leva a um parênteses: (Eu não fazia idéia qual era a maior finalidade da Fundação Palmares. Descobri isso apenas em União: ela atua no gerenciamento da Serra da Barriga. Em bom português, ela manda e desmanda lá no Quilombo dos Palmares. A pegadinha, digamos assim, está no fato dela ser um órgão federal. Município e Estado, além de não terem, pelo que entendi, direitos reais sobre o local, não levam nada em termos financeiros. Claro, se a Serra fosse administrada pelo Município ou pelo Estado, era bem capaz de nem existir mais! Ou de ter virado uma plantação de cana. Enfim… fiquei com a pulga atrás da orelha.)
A abertura, realizada no auditório da Prefeitura e acompanhada pelo vice-prefeito Kiu — que devia ganhar as eleições ano que vem, pelo trabalho que anda fazendo na cidade —, foi seguida de um debate com dois professores da UNEAL (Universidade Estadual de Alagoas), mediada pelo Elson. Um deles, do qual não lembro o nome agora, veio da Paraíba após prestar concurso no interior daqui. Fascinado pela história dos negros, quando chegou a União dos Palmares, terra de Zumbi e marco da resistência negra, mal encontrou vestígios da mesma. Segundo ele, a explicação surgiu quase que de imediato: os brancos venceram. Ponto.
A cena (verídica, por mais que pareça que eu esteja usando meu talento de escritor de ficção para enganá-los com lições de moral) com os bois resumia o que o professor havia falado. Os negros foram mortos, arrasados. Os poucos que sobraram vivem à margem da sociedade, esquecidos por um povo (branco) que renega que sua cidade é uma referência para a cultura social afro-brasileira. Alguém me disse, e omito aqui o nome para não lhe causar problemas, que União dos Palmares é a cidade que apresenta o pior tipo de racismo que existe. E não deve ser difícil imaginar o porquê.
Eco
A viagem a União e o contato com o Quilombo dos Palmares me trouxe novos pensamentos sobre a realidade sócio-cultural de Alagoas, algo que só vem a acrescentar a consciência que ando tomando do meu Estado. Que tem muita coisa de querido, mas diversas outras de indignação. Vergonha não. Chega de ter vergonha da nossa História, por mais cretina que ela possa ser em alguns momentos.
Agradecimentos especiais
A Neide, pela ótima recepção, bom humor e a companhia na hora de fumar; ao Elson, nosso cicerone oficial e agora grande amigo em União; a Martha e a Lúcia, que animaram ainda mais o trabalho; ao Chimbras pela conta da noitada; e a Ana, claro, que me rebocou com todo o meu concedimento para a viagem e, juntos, vivemos momentos para lembrar por anos a fio.
As fotos que ilustram este post foram tiradas na Lagoa dos Negros, e podem ser vistas numa resolução maior no meu Flickr.